Linhagem GIFT deu origem ao programa brasileiro da Tilamax que chega à 17ª geração com genética desenvolvida no Paraná, avançando e reduzindo ciclo produtivo do peixe
A genética da tilápia produzida no Brasil alcançou uma nova etapa com a chegada da Tilamax à 17ª geração, resultado de mais de duas décadas de seleção conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual de Maringá (UEM). Desenvolvida a partir da linhagem internacional GIFT, a população vem sendo selecionada para características relacionadas à produtividade e ao desempenho comercial. Segundo a universidade, peixes que anteriormente levavam cerca de 14 meses para atingir 800 gramas podem alcançar esse peso entre 25% e 30% mais rapidamente, conforme as condições de produção. O programa registra ainda ganho genético acumulado de aproximadamente 35% em relação à população original.
A trajetória começou em 2005, quando a UEM recebeu do WorldFish Center, na Malásia, 30 famílias da linhagem GIFT, totalizando 600 tilápias. A partir desse material, pesquisadores passaram a conduzir ciclos sucessivos de avaliação e seleção, acompanhando milhares de animais a cada geração. Os indivíduos considerados superiores são escolhidos para formar a geração seguinte, em um processo contínuo de aprimoramento. A sigla GIFT corresponde a Genetically Improved Farmed Tilapia, ou Tilápia de Cultivo Geneticamente Melhorada. O trabalho desenvolvido no Paraná mostra como o melhoramento genético pode transformar ganhos graduais em avanços relevantes de produtividade quando aplicado de maneira contínua e tecnicamente orientada.

de Maringá (UEM), localizada no distrito de Floriano, a 20
quilômetros de Maringá, desenvolve desde 1996 abriga o primeiro
centro público da América Latina de pesquisa sobre melhoramento
genético de Tilápias do Nilo, o programa Tilápia Tilamax
É importante destacar que o processo não envolve modificação genética em laboratório nem a criação de uma nova espécie. Trata-se de melhoramento genético por seleção, método consolidado também na pecuária e na agricultura. Os animais são identificados individualmente e acompanhados ao longo das gerações, permitindo controlar a genealogia, reduzir cruzamentos entre parentes e reconhecer famílias com melhor desempenho. Entre os critérios avaliados estão crescimento, rendimento de filé e características corporais de interesse comercial. Segundo informações divulgadas pela UEM em março de 2026, o programa alcança ganho médio próximo de 2% por geração, resultado que, acumulado ao longo dos anos, altera de maneira significativa o potencial produtivo da população.
Para o piscicultor, a principal consequência econômica está relacionada ao tempo necessário para levar o peixe ao peso de comercialização. Reduzir o ciclo produtivo pode melhorar o uso dos tanques, diminuir o período de permanência dos animais no sistema e contribuir para maior eficiência na utilização de ração, mão de obra, água e infraestrutura. O desempenho final, entretanto, não depende apenas da genética. Qualidade da alimentação, temperatura, oxigenação, densidade, qualidade da água, manejo e sanidade continuam determinantes para que o potencial dos animais seja convertido em resultado econômico. A seleção busca justamente indivíduos capazes de crescer mais rapidamente e utilizar os recursos disponíveis de maneira mais eficiente.

com Paraná concentrando importante parcela da produção
nacional de tilápia – Foto: Wenderson Araujo/Trilux
A dimensão alcançada pelo programa também chama atenção. Segundo a UEM, a Tilamax atende atualmente cerca de 70% do mercado brasileiro, enquanto estimativas anteriores apontaram que aproximadamente 80% das tilápias produzidas no país poderiam apresentar algum grau de parentesco com a genética trabalhada pela universidade. São indicadores distintos e não devem ser comparados diretamente. A disseminação ocorre por meio de uma estrutura de multiplicação genética, na qual o núcleo de seleção fornece material superior para empresas multiplicadoras e produtores de alevinos. Essa rede permite que os resultados obtidos na pesquisa cheguem às pisciculturas comerciais e sejam incorporados aos sistemas produtivos em diferentes regiões.
O avanço ocorre em um mercado que ganhou escala e profissionalização. O Brasil produziu 707 mil toneladas de tilápia em 2025, segundo dados divulgados pelo setor, com o Paraná na liderança nacional, respondendo por aproximadamente 273 mil toneladas, ou 38,6% da produção. A concentração estadual cria uma conexão direta entre a expansão da atividade e o desenvolvimento do programa de melhoramento sediado na UEM. A evolução da tilapicultura, contudo, resulta da combinação entre genética, nutrição, sanidade, manejo, tecnologia e gestão. A chegada à 17ª geração demonstra que ganhos aparentemente modestos por ciclo podem se transformar em avanços expressivos ao longo de duas décadas, alterando a eficiência de toda uma cadeia produtiva.