Peixe símbolo da Amazônia entra na lista de espécies vulneráveis

O tambaqui (Colossoma macropomum), um dos peixes mais importantes da Amazônia e da piscicultura brasileira, entrou em uma nova fase de atenção regulatória. A espécie foi incluída na categoria Vulnerável da Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção, conforme a Portaria GM/MMA nº 1.667, de 27 de abril de 2026. A medida não representa, por si só, uma proibição imediata da atividade pesqueira, mas abre um processo de recuperação populacional que poderá alterar as regras de captura e manejo. Para uma cadeia que envolve pescadores, aquicultores, frigoríficos, distribuidores e consumidores, o tema ganhou dimensão econômica além da ambiental.

A classificação decorre da avaliação de risco conduzida pelo ICMBio por meio do Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade, o SALVE, instrumento utilizado para organizar dados e subsidiar decisões de conservação. O diagnóstico aponta redução das populações naturais e associa o cenário, entre outros fatores, à pressão histórica da pesca. A preocupação ambiental, portanto, é legítima e exige respostas baseadas em evidências. Ao mesmo tempo, a definição das medidas precisa considerar a dimensão territorial da Amazônia, a dinâmica dos estoques e a importância econômica e alimentar do peixe para comunidades e mercados regionais.

O tambaqui é o peixe mais tradicional e consumido da culinária amazonense, famoso por suas costelas carnudas e sabor marcante - Foto: Lucas Motta
O tambaqui é o peixe mais tradicional e consumido da culinária
amazonense, famoso por suas costelas carnudas e sabor marcante
Foto: Lucas Motta
Alevinos para piscicultura, alternativa para ampliar a oferta de tambaqui cultivado
Alevinos para piscicultura, alternativa para
ampliar a oferta de tambaqui cultivado

O ponto mais sensível está no novo regime regulatório. A Portaria GM/MMA nº 1.666, de 27 de abril de 2026 estabelece regras para espécies ameaçadas, enquanto ato posterior, a Portaria GM/MMA nº 1.748, de 24 de julho de 2026, determinou que as proibições aplicáveis ao tambaqui, espécie que passou a integrar a lista, entrem em vigor após 120 dias, contados da publicação da norma. A mesma regulamentação admite que o uso da espécie possa ser permitido em bases sustentáveis mediante medidas de conservação e recuperação populacional. O cenário, portanto, não deve ser interpretado simplesmente como uma decisão entre pesca liberada ou proibição total.

Essa distinção é particularmente relevante para a piscicultura do tambaqui, que cresceu como alternativa à pressão sobre os estoques naturais e passou a ocupar espaço importante no abastecimento de pescado. Pesca extrativa e produção aquícola, entretanto, não são atividades equivalentes e precisam ser avaliadas segundo suas próprias características produtivas, sanitárias e ambientais. Qualquer política pública que pretenda recuperar populações selvagens deve estabelecer mecanismos capazes de separar essas realidades, evitando que restrições destinadas à conservação dos estoques naturais produzam efeitos desproporcionais sobre produtores que trabalham com animais cultivados em sistemas controlados.

O tambaqui é o peixe mais apreciado na região, assado em brasa, sem espinhas, acompanhado de baião de dois ou arroz branco, farofa e vinagrete
O tambaqui é o peixe mais apreciado na região,
assado em brasa, sem espinhas, acompanhado de
baião de dois ou arroz branco, farofa e vinagrete

A decisão também abriu uma discussão sobre a qualidade e a abrangência das informações utilizadas para avaliar os estoques. Representantes do setor e parlamentares questionam se os dados disponíveis conseguem representar adequadamente populações presentes em áreas protegidas e territórios onde o monitoramento da pesca é mais limitado. O debate chegou ao Senado, que solicitou informações ao Ministério do Meio Ambiente sobre a implementação das medidas e seus impactos econômicos. Também tramita proposta para sustar a inclusão do tambaqui na lista. A controvérsia evidencia a necessidade de ampliar a base científica e o monitoramento dos estoques.

Os próximos meses serão decisivos para estabelecer o equilíbrio entre conservação do tambaqui, segurança alimentar e viabilidade econômica da cadeia produtiva. Um plano de recuperação tecnicamente consistente poderá combinar monitoramento dos estoques, regras de captura, proteção de áreas estratégicas, fiscalização e estímulo ao manejo sustentável, sem tratar atividades distintas como se fossem iguais. Para a Amazônia, o desafio é ainda maior: preservar uma espécie de relevância ecológica e cultural sem desorganizar uma cadeia da qual dependem milhares de famílias. Mais do que uma disputa entre produção e conservação, o caso exige informação, planejamento e segurança regulatória.

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