Canídeo raro e vulnerável, canídeo mais discreto do Brasil, o cachorro-vinagre é registrado em áreas protegidas de Mato Grosso, entre pantanal e cerrado, reforçando o papel da conservação
Um dos canídeos mais raros e menos conhecidos da fauna brasileira voltou a ser registrado em território nacional. O cachorro-do-mato-vinagre ou cachorro-vinagre (Speothos venaticus) foi identificado em três áreas protegidas do Polo Socioambiental Sesc Pantanal, em Mato Grosso, em pontos distribuídos entre os biomas pantanal e cerrado. A ocorrência chama a atenção por envolver uma espécie furtiva, de hábitos discretos e ainda pouco estudada pela ciência, o que torna cada novo avistamento um dado valioso para entender sua distribuição e seu comportamento.
O Polo Socioambiental Sesc Pantanal é um dos maiores projetos socioambientais do Brasil. Criado em 1996 por iniciativa do Sistema CNC-Sesc-Senac, o polo é composto por nove unidades, que atuam do cerrado ao pantanal mato-grossense, nas áreas de Educação, Cultura, Lazer, Saúde, Assistência e Sustentabilidade. Tem a maior Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) do Brasil, a RPPN Sesc Pantanal.

espécies raras, como o cachorro-vinagre, no Cerrado brasileiro
Um registro raro no coração dos biomas
O registro ocorreu no Parque Sesc Serra Azul, em Rosário Oeste, durante estudo publicado na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos. Para acompanhar a fauna local, os pesquisadores instalaram câmeras na área protegida, método que permitiu flagrar uma espécie que raramente se expõe à observação direta. A biodiversidade e o nível de proteção do território ajudam a explicar a presença do animal na região, segundo os pesquisadores envolvidos.
A descoberta reforça a relevância das unidades de conservação como fonte de informação sobre espécies ameaçadas. O Parque Sesc Serra Azul protege cerca de 5 mil hectares em Rosário Oeste, enquanto o conjunto de áreas do Polo Socioambiental Sesc Pantanal soma 117 mil hectares distribuídos entre os dois biomas. Nesses espaços, equipes dedicadas desenvolvem ações ambientais, científicas, culturais e educativas, e o monitoramento da fauna permite identificar espécies e acompanhar sua ocorrência ao longo do tempo.

Parque Sesc Serra Azul, em Rosário Oeste, MT

do Brasil, indicando os locais dos registros do cachorro-
vinagre (Speothos venaticus) obtidos no estudo

no Parque Sesc Serra Azul, Mato Grosso, oeste do Brasil

que caça coletivamente e vive em bandos organizados
Caçador coletivo de hábitos discretos
O cachorro-vinagre se destaca por uma estratégia pouco comum entre os canídeos brasileiros: a caça coletiva. O animal vive em bandos e atua em conjunto para capturar presas, o que lhe permite abater animais maiores do que seu próprio tamanho. A alimentação inclui pequenos vertebrados e também espécies como tatus, cutias, pacas e catetos, ampliando o alcance de sua atuação na cadeia alimentar.
O corpo compacto, de 57 a 75 cm, e a pelagem predominantemente castanho-avermelhada, com áreas mais escuras no dorso e na cabeça, ajudam a identificar a espécie. Apesar do porte reduzido, o trabalho em grupo compensa a limitação física e torna o comportamento de um dos menores canídeos do país um objeto de interesse permanente para a pesquisa.

comportamento que deu origem ao nome da espécie. O forte
odor da urina, semelhante ao vinagre, é usado pelo animal
para demarcar árvores e pedras na paisagem
O que o nome revela sobre a espécie
O nome popular tem origem no forte odor da urina do animal, que lembra o cheiro do vinagre. A urina é usada principalmente para marcar território, e durante a marcação o cachorro-vinagre pode erguer o corpo e direcionar o jato para árvores, pedras e outras superfícies, deixando sinais em pontos mais altos da paisagem.
A comunicação também é parte central da vida em grupo. A espécie possui diferentes vocalizações e mantém contato constante com os integrantes do bando. A gestação dura entre 60 e 83 dias, com ninhadas de um a seis filhotes, e o macho participa ativamente dos cuidados com a prole, um comportamento que reforça a estrutura social do grupo.

áreas protegidas que soma 117 mil hectares de preservação
Conservação e o papel das áreas protegidas
A espécie foi descrita pela primeira vez em 1842, a partir de fósseis encontrados em cavernas no Brasil e só depois se descobriram os animais vivos. O cachorro-vinagre nunca foi caçado por interesse econômico e é sabido que algumas tribos indígenas conservam-nos como animais de estimação.
No Brasil, o cachorro-vinagre é classificado como vulnerável na lista de espécies ameaçadas, enquanto a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) o considera quase ameaçado. A preservação dos ambientes onde a espécie ocorre é condição para manter seus habitats e ampliar o conhecimento sobre suas populações, que o registro recente ajuda a aprofundar.
Por ser difícil de observar diretamente, o cachorro-vinagre depende de registros em áreas protegidas para que pesquisadores reúnam informações sobre sua distribuição e direcionem ações de conservação mais precisas. O novo avistamento no Polo Socioambiental Sesc Pantanal soma evidências de que a proteção territorial gera resultados concretos para a biodiversidade, ao mesmo tempo em que confirma o valor dos serviços ecossistêmicos mantidos pelos biomas pantanal e cerrado.

CACHORRO-DO-MATO-VINAGRE (Speothos venaticus)
Características – a cabeça, a parte superior do pescoço e os ombros marrom claro ou amarelo ruivo, escurecendo gradualmente para o negro ou marrom escuro no quarto traseiro e barriga. Pelo longo e macio, focinho curto, orelhas curtas e redondas, olhos castanhos. Distingue-se das outras espécies de canídeos pôr apresentar as orelhas redondas e extremamente curtas, assim como a cauda e as patas de coloração negra. Corpo longo com até 75 cm e cauda com 15 cm de comprimento. Altura de 30 cm. Chega a pesar 7 Kg. Possui uma adaptação para viver em regiões alagadas: seus dedos são ligados por uma membrana, o que o torna um hábil nadador e mergulhador. Não possui alguns molares comuns em canídeos em geral. Vive aproximadamente 10 anos. Tem o olfato bastante apurado, parece que quando estão farejando alguma coisa ficam muito satisfeitos. A visão e a audição, também são bastante desenvolvidas e desempenham um papel importante, mas seu sentido primordial é olfato. No interior do seu focinho há uma área sensorial muito maior que a nossa, com cerca de 50 vezes mais células olfativas.
Habitat – florestas e savanas, próximo de água.
Ocorrência – distribuía-se originalmente por quase toda a América do Sul, desde a fronteira da Colômbia com o Panamá quase até Santa Catarina. Atualmente, no Brasil, pode ser encontrado em florestas de mata atlântica, como no Parque Estadual Intervales-SP, em campos úmidos no cerrado, como no Parque Nacional das Emas-GO e no pantanal.

árvores ou em buracos abertos por tatus de grande porte

usando buracos de tatus ou troncos caídos, passando a maior
parte do tempo dentro da toca, dedicando-se exclusivamente à
amamentação e ao aquecimento dos filhotes
Hábitos – diurno, terrestre, normalmente em pequenos grupos, às vezes pode ser encontrado sozinho. É o mais social dos pequenos canídeos brasileiros. Escondem-se em tocas e são bons nadadores quando em cativeiro. É espécie rara sendo difícil de ser avistada, porém já foi observado em matilhas de 10 a 12 animais. Abriga-se em tocas, em troncos de árvores e em buracos abertos por tatus de grande porte.
Alimentação – carnívoro, alimentando-se de crustáceos e roedores como as cutias, pacas e capivaras, além de pequenos cervídeos e outros mamíferos. Em grupo, costumam caçar animais maiores como capivaras e emas jovens. A paca é a sua principal presa e está em processo de extinção, obrigando o cachorro-do-mato-vinagre a mudar seus hábitos alimentares.
Reprodução – após um ano de idade atinge a maturidade sexual. As fêmeas têm uma gestação de 67 dias em média (60 e 83 dias), nascendo em média três filhotes, sendo que as ninhadas podem variar de um a seis. Os filhotes são amamentados durante 8 semanas. Os machos costumam trazer alimento para as fêmeas durante o período de amamentação.
Ameaças – animal considerado como vulnerável na lista de espécies ameaçadas, por causa das das queimadas, do desmatamento e da ocupação humana de seus habitats.