Sedimentos do Alto Juruá, no Acre, preservaram vestígios de primatas de 11 milhões de anos, ampliando o conhecimento sobre os ancestrais dos muriquis e a biodiversidade pré-histórica brasileira
A descoberta de fósseis no Acre abriu uma nova frente para compreender a evolução dos primatas da Amazônia brasileira. Quatro dentes e um fragmento de osso do tarso, datados de aproximadamente 11 milhões de anos, foram encontrados em sedimentos da Formação Solimões, na região do Alto Juruá. Apesar do tamanho reduzido dos vestígios, o material amplia significativamente o conhecimento sobre a fauna amazônica do Mioceno. O trabalho científico foi publicado no Journal of Mammalian Evolution.
Os fósseis permitiram identificar duas espécies até então desconhecidas pela ciência: Migmacebus juruaensis e Parabrachyteles vesperus. A análise utilizou tomografia computadorizada de alta resolução e técnicas de imagem óptica, recursos que permitem estudar estruturas microscópicas sem comprometer os exemplares. O resultado revela que a diversidade de macacos amazônicos no passado era maior e mais complexa do que indicavam os registros disponíveis.
Entre os achados, Parabrachyteles vesperus apresenta particular interesse por sua proximidade evolutiva com os muriquis (Brachyteles arachnoides), primatas atualmente associados à Mata Atlântica brasileira. Com massa estimada em cerca de seis quilos, teria uma alimentação rica em folhas e fibras. A descoberta sugere que os ancestrais desse grupo ocuparam uma área geográfica muito mais ampla antes de sua atual concentração nas florestas atlânticas.

foram encontrados em quatro localidades associadas à
Formação Solimões – Três situam-se às margens do alto
curso do Rio Juruá (PRJ 09, PRJ 25 e PRJ 26), no município
de Marechal Thaumaturgo, e uma (AC 65, Morro do Careca)
localiza-se ao longo da rodovia BR-364, entre Tarauacá e Feijó
Amazônia pré-histórica revela diversidade ainda pouco conhecida
A outra espécie identificada, Migmacebus juruaensis, teria dimensões bem menores, provavelmente inferiores a um quilo, e uma dieta baseada principalmente em frutas e alimentos duros. Suas características anatômicas combinam traços encontrados atualmente em macacos-prego (Sapajus apella), macacos-de-cheiro (Saimiri sciureus) e sauás (Callicebus personatus). Essa combinação representa uma evidência importante para compreender a diversificação dos primatas sul-americanos ao longo do tempo.
A importância científica do achado também está relacionada à escassez de fósseis na Amazônia. Em ambientes tropicais, a elevada umidade, a vegetação densa e a dinâmica dos rios dificultam a preservação e a localização de restos biológicos antigos. Muitos afloramentos permanecem cobertos pela floresta e só ficam acessíveis durante a estação seca, quando a redução do nível dos rios expõe as camadas sedimentares.
Os materiais foram obtidos por meio de expedições sistemáticas e técnicas de triagem de sedimentos. Parte das amostras coletadas nas margens dos rios passa por lavagem e separação, enquanto partículas menores são examinadas em laboratório com microscópios especializados. O método evidencia como pesquisa de campo, tecnologia de imagem e análise paleontológica trabalham de forma integrada para transformar pequenos fragmentos em informações relevantes sobre a história ambiental.

da Formação Alto Solimões, estado do Acre, Brasil
Ciência, conservação e gestão territorial
Os resultados também têm implicações para a compreensão da própria dinâmica histórica dos ecossistemas brasileiros. Reconstruir a distribuição passada dos primatas permite relacionar mudanças climáticas, transformações ambientais e deslocamentos de espécies ao longo de milhões de anos. Essa perspectiva amplia a capacidade científica de interpretar como as florestas sul-americanas responderam a diferentes condições ambientais antes da configuração atual dos biomas.
Para o setor agropecuário e para as políticas de conservação, esse conhecimento ajuda a dimensionar a complexidade dos territórios amazônicos. A biodiversidade contemporânea não é resultado apenas das condições atuais, mas de uma longa trajetória evolutiva. Investimentos em pesquisa, monitoramento ambiental e conhecimento sobre a biodiversidade fornecem bases mais consistentes para decisões relacionadas ao uso do solo, conservação de habitats e planejamento territorial.
O estudo ainda demonstra que o potencial paleontológico da Amazônia permanece longe de ser plenamente conhecido. As áreas investigadas no Acre representam apenas uma parcela de um território extenso e de difícil acesso. A continuidade das expedições poderá revelar novos registros e preencher lacunas sobre a origem, dispersão e adaptação dos primatas. Cada fóssil recuperado acrescenta uma peça ao conhecimento sobre a formação dos ecossistemas brasileiros.