A guerra no Irã elevou os custos de produção, levando os agricultores americanos à beira do colapso, revelando os efeitos da geopolítica, endividamento e comércio internacional
O agronegócio dos Estados Unidos atravessa um período de forte pressão financeira, especialmente entre produtores de grãos do chamado Corn Belt. O quadro combina custos elevados de produção, preços de commodities pressionados e maior incerteza comercial, criando uma equação difícil para propriedades que dependem de margens estreitas. A American Farm Bureau Federation projeta perdas de US$ 31 bilhões para nove grandes culturas em 2026 e de US$ 32 bilhões em 2027, sem considerar eventual assistência federal.
A escalada dos custos ganhou intensidade com a alta do diesel e dos fertilizantes, afetados por tensões geopolíticas e restrições nas cadeias internacionais de abastecimento. O diesel chegou a US$ 5,45 por galão em agosto, segundo dados citados pelo Financial Times, enquanto determinados fertilizantes passaram de US$ 900 por tonelada. Para o produtor, o problema não está apenas no preço isolado de cada insumo, mas na combinação entre energia cara, juros elevados, máquinas dispendiosas e menor capacidade de repassar custos.
A deterioração das margens ocorre em um ambiente de endividamento crescente. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta US$ 624,7 bilhões em dívida do setor agropecuário em 2026, alta nominal de 5,2% sobre 2025, enquanto a relação entre dívida e ativos deve avançar. Embora a renda agrícola líquida permaneça elevada em termos históricos, a previsão oficial indica queda real em 2026. Isso revela uma economia rural com patrimônio relevante, porém submetida a maior pressão sobre liquidez e capacidade de investimento.

e o milho está entre as culturas mais afetadas pela crise financeira
No comércio exterior, a perda de dinamismo das vendas para a China tornou-se outro componente estratégico. As exportações agrícolas americanas somaram US$ 171 bilhões em 2025, mas as vendas para o mercado chinês recuaram 66%, para US$ 8,4 bilhões. No caso da soja, os embarques destinados à China caíram de 26,8 milhões de toneladas em 2024 para 7,2 milhões em 2025. A consequência é direta: produtores e tradings precisam buscar novos mercados, enquanto o Brasil amplia sua relevância no abastecimento asiático.
A crise também evidencia como fatores externos podem alterar rapidamente a estrutura de custos e as decisões de plantio. Em 2026, a área cultivada com milho foi estimada em 95,3 milhões de acres, enquanto a soja alcançou 85,4 milhões. Mesmo com produção elevada, a rentabilidade permanece pressionada. Para 2027, as perdas estimadas por acre chegam a US$ 167 no milho, US$ 138 na soja e US$ 406 no algodão. Clima, logística, comércio e custos financeiros passaram a atuar simultaneamente sobre a renda rural.
Mais do que uma dificuldade conjuntural, o cenário americano sinaliza os riscos de uma agricultura altamente integrada aos mercados globais e dependente de cadeias complexas de insumos, crédito e exportação. A experiência interessa ao Brasil porque revela a importância de gestão de risco, eficiência operacional, diversificação comercial e previsibilidade institucional. Para produtores e empresas do agronegócio, a principal lição está na necessidade de preservar liquidez e capacidade de adaptação diante de choques que podem atingir simultaneamente custos, preços, financiamento e demanda internacional.