Pesca esportiva abre mercado para o lambari como isca viva e produção comercial em cativeiro do peixinho tem alta rentabilidade, crescendo de 5% a 8% por ano
Conhecido desde as pescarias de infância, o lambari começa a ocupar um espaço mais estratégico na aquicultura brasileira. A demanda por iscas vivas para a pesca esportiva criou um mercado capaz de estimular a produção comercial da espécie, especialmente em propriedades de menor escala. Embora ainda represente uma parcela reduzida da piscicultura nacional, a atividade apresenta crescimento anual estimado entre 5% e 8%, segundo informações reunidas em estudos e levantamentos do setor.
O avanço está associado principalmente à procura por iscas destinadas à captura de peixes de maior porte, como o tucunaré (Cichla sp.). Nesse mercado, o lambari apresenta uma característica relevante para o produtor: a comercialização pode ser feita por unidade, e não necessariamente por peso. Essa particularidade reduz a necessidade de estruturas muito grandes e abre espaço para sistemas produtivos mais compactos, sobretudo entre pequenos aquicultores.
A atividade também ganha relevância sob a perspectiva ambiental. Pesquisas conduzidas no estado de São Paulo demonstraram a viabilidade de produzir lambari em cativeiro para substituir, em determinadas pescarias, organismos capturados diretamente do ambiente. A produção de iscas em sistemas controlados pode reduzir a pressão sobre espécies nativas, como o camarão-branco (Penaeus schmitti ou Litopenaeus schmitti) utilizado na pesca de robalos em áreas estuarinas.
Produção exige manejo e escala adequados
Apesar da rusticidade do peixe, transformar o lambari em atividade comercial exige conhecimento técnico. Alimentação, densidade, qualidade da água, reprodução, controle de mortalidade e manejo durante a despesca interferem diretamente no resultado econômico. O ciclo produtivo relativamente curto é uma vantagem, mas não elimina a necessidade de protocolos capazes de assegurar uniformidade e qualidade até a entrega ao comprador.

peixinho pode substituir espécies capturadas diretamente
dos ambientes naturais para uso como isca
A tecnologia disponível também permite adaptar o sistema ao perfil do produtor. Pesquisas do Instituto de Pesca apoiadas pela FAPESP desenvolveram alternativas de baixo custo para tanques de recirculação destinados à criação do lambari da Mata Atlântica, espécie Deuterodon iguape. Em determinadas configurações, estruturas de 8 mil a 10 mil litros podem abrigar milhares de peixes. A possibilidade de trabalhar em menor escala reduz a barreira inicial de entrada na atividade.
Na prática, entretanto, a rentabilidade depende de uma combinação de fatores. Alimentação, energia, mão de obra, manutenção das instalações, mortalidade, transporte e distância dos mercados consumidores entram diretamente na formação do custo. Por isso, indicadores de margem divulgados por produtores individuais não devem ser tratados como referência universal. A viabilidade econômica precisa ser calculada de acordo com a estrutura e o mercado de cada propriedade.
Diversificação aproxima produção e conservação
O modelo comercial também demonstra que a piscicultura pode criar alternativas de renda a partir de espécies que, durante muito tempo, foram vistas apenas como fauna secundária em viveiros. Hoje, o lambari pode ser direcionado a diferentes mercados, incluindo iscas vivas, alevinos, alimentação de peixes carnívoros e consumo humano, ampliando as possibilidades de aproveitamento da produção.
No caso das iscas vivas, a proximidade entre produtor e consumidor é particularmente importante. Pescadores, pousadas, lojas especializadas e operadores de turismo de pesca formam uma cadeia regional na qual regularidade de fornecimento e qualidade do peixe vivo têm valor comercial. O transporte também merece atenção, porque perdas durante o deslocamento representam custo direto e podem comprometer a relação com compradores recorrentes.
A expansão da lambaricultura, portanto, reúne uma dimensão econômica e outra ambiental. Ao substituir parte do extrativismo por produção controlada, a atividade pode gerar renda sem ampliar a pressão sobre estoques naturais, desde que respeite as normas aplicáveis à aquicultura e utilize espécies e sistemas adequados à região. O desafio agora é transformar uma oportunidade de mercado em cadeia produtiva profissional, com assistência técnica, planejamento, controle de custos e responsabilidade ambiental.