Agronegócio enfrenta ajuste estrutural com alta dos custos, endividamento recorde e pressão sobre as margens, um dos cenários mais desafiadores das últimas décadas
O agronegócio brasileiro vive um dos períodos mais desafiadores das últimas décadas, marcado pela convergência de custos elevados, retração dos preços das commodities, restrição ao crédito e aumento do endividamento. O cenário afeta produtores rurais, revendas de insumos, agroindústrias, tradings, transportadoras e empresas de armazenagem, revelando um processo de ajuste que se estende por praticamente toda a cadeia produtiva.
Ao contrário de crises anteriores, o momento atual resulta da combinação de fatores domésticos e internacionais. Conflitos geopolíticos, volatilidade cambial, juros elevados e custos operacionais mais altos reduziram a capacidade financeira das empresas do setor. O principal desequilíbrio está no descompasso entre custos de produção e receitas, comprometendo a rentabilidade mesmo em propriedades tecnicamente eficientes.
Levantamento do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) evidencia essa mudança. Entre as safras 2021/2022 e 2026/2027, o custo operacional da soja geneticamente modificada aumentou cerca de 64%, enquanto o milho de alta tecnologia registrou elevação próxima de 59%. A escalada dos gastos com fertilizantes, defensivos, combustíveis, logística e crédito tornou mais estreitas as margens da atividade agrícola.

culturas brasileiras e endividamento cresce e amplia
desafios para produtores rurais
Rentabilidade sob pressão e avanço do endividamento
Enquanto os custos cresceram, os preços recebidos pelos produtores seguiram trajetória oposta. Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) indicam que as cotações internas da soja recuaram cerca de 32% e as do milho aproximadamente 26% entre junho de 2022 e junho deste ano. A perda de rentabilidade atingiu principalmente produtores com menor produtividade ou elevada dependência de financiamentos.
As projeções reforçam que a recuperação das margens tende a ocorrer de forma gradual. Estimativas do Itaú BBA apontam redução próxima de 8% na margem dos produtores de soja do sudeste de Mato Grosso entre a safra atual e a próxima. Desde o pico registrado em 2024/2025, a rentabilidade acumulou retração de aproximadamente 28,5%, enquanto o milho permanece abaixo dos níveis observados naquele período, apesar de uma recuperação parcial.
O endividamento também ganhou dimensão estratégica. Segundo o Banco Central, o estoque de crédito rural passou de R$ 474,9 bilhões para R$ 697 bilhões entre dezembro de 2022 e maio deste ano, avanço de aproximadamente 47%. Paralelamente, cresceram as captações por instrumentos privados, como CRAs, Fiagros e FIDCs, elevando a exposição financeira de produtores e empresas em um ambiente de juros elevados.

judiciais atingem níveis históricos no setor
Gestão de risco será decisiva para a próxima fase
O aumento da alavancagem já se reflete nos indicadores de insolvência. Dados da Serasa Experian mostram recorde de 1.990 pedidos de recuperação judicial no agronegócio alta de 54% em relação ao ano anterior. Apenas no primeiro trimestre deste ano foram contabilizadas 517 solicitações. Estudos da NEOT indicam que a maioria dos casos reúne perdas climáticas, queda das commodities, aumento dos custos dos insumos e restrição ao crédito.
Além das dificuldades financeiras, persistem desafios estruturais. O Brasil ainda importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura, permanecendo vulnerável às oscilações internacionais e cambiais. A predominância do transporte rodoviário, responsável por aproximadamente 70% da movimentação da produção, somada ao déficit de armazenagem, reduz a competitividade e limita estratégias de comercialização em momentos mais favoráveis.
Na avaliação de especialistas, entidades setoriais e do Ministério da Agricultura e Pecuária, a superação desse cenário dependerá de gestão financeira rigorosa, ampliação do seguro rural, aprimoramento dos mecanismos de gestão de risco e maior eficiência operacional. A incorporação de agricultura de precisão, tecnologias digitais e sistemas inteligentes de gestão tende a reduzir desperdícios, otimizar o uso de insumos e elevar a produtividade. Embora o ambiente permaneça desafiador, a capacidade de adaptação do produtor brasileiro e a competitividade do país continuam sendo ativos importantes para a retomada sustentável do setor.