Uma safra que nasce do vento

No Kansas, na região de Flint Hills, nas Grandes Planícies americanas, uma propriedade de sete mil acres, o equivalente a cerca de 2,8 mil hectares, transformou o vento que atravessa a pradaria em uma de suas principais fontes de receita. O gado de corte continua no campo, a rotina segue a mesma, mas o balanço anual passou a contar com uma entrada que não depende de chuva, de preço da arroba nem de safra. Os royalties pagos por 50 turbinas eólicas instaladas dentro da fazenda respondem hoje por aproximadamente metade da renda anual da família.

A aproximação começou nos anos 1990, quando empresas de energia procuraram o proprietário Pete Ferrell para avaliar o potencial de instalação de aerogeradores comerciais no Ferrel Ranch. A resposta inicial foi negativa, e o temor tinha lógica: perder pastagem, atrapalhar o manejo e alterar a paisagem de uma região dedicada à criação de bovinos desde 1888. A virada veio de uma visita a um parque eólico na Califórnia, onde ficou evidente que o rebanho continuava pastando entre as torres sem sinal de prejuízo.

A propriedade recebeu propostas de seis companhias até fechar contrato com uma desenvolvedora de projetos renováveis. As turbinas integram o parque Elk River, em operação comercial desde 2005, que soma 100 aerogeradores e 150 megawatts de capacidade instalada. Metade delas está nas terras de Pete. A energia gerada é suficiente para abastecer o consumo anual de cerca de 60 mil residências, enquanto o produtor é remunerado pelo arrendamento, não pela venda direta de eletricidade.

Nas colinas de Flint, no Kansas, o fazendeiro Pete Ferrell instalou as turbinas eólicas. Enquanto os vizinhos escolheram por contemplar a pradaria intocada, ele optou por investir em um recurso energético sustentável e abundante na região
Nas colinas de Flint, no Kansas, o fazendeiro Pete Ferrell
instalou as turbinas eólicas. Enquanto os vizinhos escolheram
por contemplar a pradaria intocada, ele optou por investir em
um recurso energético sustentável e abundante na região
Construir uma renda com energia eólica virou o caminho mais seguro para blindar as contas da fazenda sem vender cabeças de gado
Construir uma renda com energia eólica virou
o caminho mais seguro para blindar as contas
da fazenda sem vender cabeças de gado

O gado continuou no mesmo pasto

O receio mais concreto era o espaço, e os números ajudam a desfazer o mito. As bases, os acessos e as instalações auxiliares ocuparam cerca de 50 acres, algo próximo de 20 hectares, menos de 1% da área total da propriedade. O restante do pasto permaneceu em uso normal, com o rebanho circulando ao redor das torres como sempre fez.

Há também efeitos colaterais pouco intuitivos. As bases de concreto funcionam como pontos de sombra em dias de calor intenso, e as torres ajudam a barrar rajadas de vento em noites frias. A convivência entre pecuária extensiva e geração eólica se mostrou operacionalmente viável, sem exigir mudança no sistema de criação nem investimento do produtor em equipamentos.

O ponto que mais pesa é financeiro. A remuneração por turbina fica próxima de US$ 10 mil por ano, com variações conforme o porte do aerogerador e as cláusulas do contrato. Os pagamentos ganharam peso sobretudo em anos de estiagem, quando a pecuária aperta o caixa. Enquanto o gado depende de pasto e de mercado, o vento segue disponível todos os dias, e essa previsibilidade transformou o arrendamento em uma reserva financeira da fazenda.

No rancho de Pete Ferrell, turbinas eólicas se erguem sobre a pastagem enquanto o rebanho segue no campo, no Kansas
No rancho de Pete Ferrell, turbinas eólicas se erguem sobre
a pastagem enquanto o rebanho segue no campo, no Kansas
O vento sopra quase sempre nas colinas de Flint, no Kansas e a renda das turbinas ajuda a manter sua operação funcionando. Menos de 1% da área da fazenda foi ocupada por bases, acessos e estruturas do parque eólico
O vento sopra quase sempre nas colinas de Flint, no
Kansas e a renda das turbinas ajuda a manter sua operação
funcionando. Menos de 1% da área da fazenda foi ocupada
por bases, acessos e estruturas do parque eólico

O que o caso ensina ao produtor brasileiro

O modelo não é exclusividade americana. No Brasil, o arrendamento de áreas para parques eólicos é consolidado no nordeste, onde propriedades que criam gado de forma extensiva dividem espaço com aerogeradores há mais de uma década. O país encerrou 2025 com cerca de 34,6 gigawatts de capacidade eólica instalada em mais de mil usinas, e as fontes renováveis respondem por quase 87% da capacidade elétrica nacional.

A lógica contratual, porém, exige cuidado. O produtor cede o direito de uso da terra por prazos longos, em geral superiores a vinte anos, e precisa negociar garantias para o trânsito de animais, a manutenção das cercas, a recomposição do solo ao fim do contrato e índices claros de reajuste. A distância até linhas de transmissão, a constância dos ventos e as restrições ambientais definem se a área tem viabilidade técnica.

O caso do Kansas mostra que a terra pode gerar mais de uma renda ao mesmo tempo, sem que uma atividade substitua a outra. A propriedade rural deixa de ser um ativo de safra única e passa a operar como plataforma de receitas, argumento relevante para quem convive com margens apertadas e clima instável. No fim das contas, o vento que atravessava a porteira ganhou valor de mercado e entrou no balanço.

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