Produtor rural acredita ser mal compreendido, apesar da aprovação majoritária do agronegócio pela população e comunicação passa a ser prioridade estratégica para aproximar o agronegócio da sociedade brasileira
O agronegócio brasileiro convive com um paradoxo que vai além dos indicadores econômicos e produtivos. Embora a maioria da população tenha uma percepção favorável do setor, grande parte dos produtores acredita ser vista de forma negativa pelos moradores das cidades. Esse contraste foi identificado pela 9ª Pesquisa ABMRA Hábitos do Produtor Rural, considerada uma das mais amplas e tradicionais radiografias do campo brasileiro. Nesta edição, o levantamento reuniu 3.100 entrevistas presenciais em 16 estados, contemplando produtores de 15 culturas agrícolas e quatro cadeias pecuárias, oferecendo um retrato consistente sobre expectativas, comportamento e percepção do segmento.
Os resultados mostram que 65% dos produtores rurais acreditam que a sociedade urbana possui uma visão negativa sobre quem produz alimentos, enquanto apenas 5% entendem que essa imagem seja positiva e 30% a classificam como neutra. Entretanto, esse sentimento não encontra respaldo quando comparado a pesquisas realizadas junto ao público urbano. O estudo “Percepções Sobre o Agro: o que pensa o brasileiro” revela que sete em cada dez brasileiros têm uma avaliação positiva do agronegócio, evidenciando um distanciamento entre a percepção de quem está no campo e a opinião predominante da sociedade.

16 estados brasileiros. Setor busca ampliar diálogo
com consumidores e novas gerações
A análise dos dois levantamentos também identifica um desafio geracional relevante. Embora a imagem do agro seja majoritariamente positiva, 30% dos brasileiros se declaram desfavoráveis ao setor, sendo que mais da metade desse grupo é formada por jovens entre 15 e 29 anos. O cenário amplia o debate sobre comunicação institucional e aproximação com novos públicos, especialmente em um momento em que o agronegócio amplia sua participação na economia nacional, incorpora tecnologias, amplia práticas sustentáveis e ocupa posição estratégica na segurança alimentar e nas exportações brasileiras.
Na avaliação da Associação Brasileira de Marketing Rural e Agro (ABMRA), esse descompasso evidencia a necessidade de uma estratégia permanente de comunicação baseada em informação qualificada, transparência, diálogo e credibilidade. Ao longo das últimas décadas, o setor evoluiu significativamente em produtividade, inovação, sustentabilidade e eficiência, mas essa transformação nem sempre foi acompanhada pela mesma capacidade de comunicar seus avanços à sociedade. A construção de reputação exige continuidade, presença consistente e narrativas fundamentadas em experiências concretas e resultados verificáveis.

campo e cidade com campanha apresentando
linguagem voltada ao público urbano
Foi justamente dessa constatação que surgiu o Projeto Marca Agro do Brasil, concebido para estabelecer uma comunicação mais próxima da população urbana. Antes do lançamento da campanha, a iniciativa percorreu um amplo processo de pesquisa e validação. Mais de 4.200 brasileiros avaliaram seis conceitos criativos, posteriormente refinados por um conselho formado por cem representantes ligados ao projeto. Na etapa seguinte, as propostas passaram por novos testes qualitativos e quantitativos com 380 participantes de diferentes perfis, garantindo maior aderência às expectativas do público, especialmente entre os jovens.
A estratégia prevê ações integradas de publicidade, produção de conteúdo e presença em escolas, espaços públicos, centros comerciais e plataformas digitais, ampliando o diálogo entre cidade e campo. Nesse contexto surgiu Aninha, personagem desenvolvida para representar uma jovem urbana, ambientalista, universitária e inserida na rotina das grandes cidades, aproximando a campanha das novas gerações. O primeiro filme protagonizado por ela foi apresentado durante o painel “Recuperando a Narrativa a favor do Agro em todo o Mundo”, realizado no GAFFFF Sorriso, em Mato Grosso, marcando o início de uma iniciativa que busca reduzir a distância entre percepção e realidade sobre o agronegócio brasileiro.