Da extração de areia ao ecoturismo, a trajetória de um vilarejo de Guizhou que transformou degradação em prosperidade, mostrando que preservar o meio ambiente pode ser o melhor negócio do campo
No interior montanhoso da província de Guizhou, no sudoeste da China, um vilarejo de 648 anos converteu a recuperação ambiental em plataforma de crescimento econômico. Leitun, um dos 15 vilarejos-piloto do condado de Jinping no programa de revitalização rural integrada da província, passou de economia agrícola de subsistência a destino que recebe quase 200 mil visitantes por ano. A trajetória combina obras de infraestrutura, governança comunitária e políticas públicas de transferência de recursos entre regiões, e oferece um estudo de caso relevante para o debate sobre a relação entre preservação e produção no agronegócio.
O caso ganha dimensão quando comparado ao contexto nacional. A estratégia de revitalização rural lançada pela China em 2017 estabeleceu como meta a modernização básica da agricultura e do campo até 2035, depois de o país ter tirado 770 milhões de pessoas da pobreza em pouco mais de quatro décadas, número que representa mais de 70% do total global na linha de pobreza do Banco Mundial. A experiência de Leitun ilustra como esse arcabouço institucional se materializa em escala local, com resultados mensuráveis em produtividade, renda e fluxo turístico.

entre casas tradicionais renovadas
Um vilarejo de 648 anos entre a preservação e o desenvolvimento
Situado às margens do rio Liangjiang, Leitun pertence ao condado de Jinping, região de relevo acidentado e tradição agrícola centrada no cultivo de arroz. Durante décadas, a escassez de terras planas e a precariedade logística limitaram a expansão da produção e mantiveram a renda dos moradores em patamares modestos. A virada começou quando o vilarejo foi incluído entre os 15 projetos-piloto do programa de revitalização rural integrada da província, que passou a concentrar investimentos públicos em infraestrutura produtiva e recuperação ambiental.
O diagnóstico que orientou o projeto combinava carências objetivas e potencialidades pouco exploradas. Faltavam canais de irrigação confiáveis, estradas adequadas e tratamento de esgoto, enquanto o patrimônio natural, incluindo um banco de areia de quase sete hectares no meio do rio, permanecia degradado pela extração predatória ocorrida nos anos 1990. A agenda de obras e a recuperação ecológica foram tratadas como frentes complementares, e não como objetivos concorrentes, uma decisão que definiu o caráter do modelo.
A escolha de Leitun como piloto não foi casual. O vilarejo reunia condições favoráveis à demonstração prática da política pública: comunidade organizada, base agrícola ativa e ativos naturais recuperáveis. A aposta era transformar um território de baixa renda em referência de conversão ecológica, capaz de atrair visitantes e gerar renda sem depender da expansão da fronteira agrícola, uma restrição estrutural imposta pela geografia local.
O resultado inicial validou a estratégia. As obras elevaram a produção de arroz em 20% em relação ao período anterior, e a renda per capita saltou de 8 mil yuans, cerca de R$ 6,3 mil, para 27,3 mil yuans, aproximadamente R$ 21,6 mil, entre 2021 e 2025. O crescimento ocorreu em intervalo curto e com base em investimento público relativamente modesto, o que chamou a atenção de gestores e pesquisadores dedicados ao desenvolvimento rural.

elevaram a produção de arroz do vilarejo em 20%
Infraestrutura hídrica e logística como alicerce da produção
O pacote de investimentos destinado a Leitun somou 3,5 milhões de yuans, o equivalente a cerca de R$ 2,8 milhões, e foi aplicado em frentes de alto impacto produtivo. Foram construídos quase quatro quilômetros de canais de irrigação, substituídas três bombas hidráulicas e pavimentados 1,6 quilômetro de estradas. A modernização do sistema hídrico reduziu a dependência do regime de chuvas e ampliou a regularidade das safras, condição essencial para a intensificação do cultivo de hortaliças.
A melhoria logística produziu efeito imediato na comercialização. Com o transporte adequado, comerciantes de fora do vilarejo passaram a adquirir a produção local diretamente, encurtando a cadeia entre o campo e o mercado e elevando a margem apropriada pelos agricultores. O cultivo de hortaliças floresceu e se consolidou como uma das principais fontes de renda, ao lado das vendas para os turistas que visitam a comunidade em busca de experiências culturais.
O programa também contemplou saneamento e mobilidade interna. O sistema de tratamento de esgoto e a rede de estradas residenciais foram apontados pelas lideranças locais como as melhorias mais significativas do período, com impacto direto na qualidade de vida e na atratividade do vilarejo para o turismo. Parte das vias exigiu a cessão voluntária de terrenos por moradores, um indicador do engajamento comunitário que sustentou o avanço das obras.
A combinação entre irrigação, logística e saneamento mostra que a produtividade agrícola depende de um conjunto de ativos públicos que vão além da porteira. No caso de Leitun, cada componente da infraestrutura reforçou os demais: a água garantiu a produção, a estrada conectou o mercado e o saneamento preservou o atrativo ambiental que sustenta o turismo. A interdependência entre essas frentes é uma das lições centrais do modelo.

décadas de proteção, tornou-se o eixo do turismo
O banco de areia que se tornou o coração do turismo
O principal ativo turístico de Leitun nasceu de uma decisão de governança comunitária. O banco de areia natural de quase sete hectares, situado no meio do rio Liangjiang, foi explorado durante os anos 1990 por moradores que extraíam e vendiam areia para complementar a renda. A degradação do local levou a comunidade a reagir: em 2002, uma assembleia aprovou norma comunitária que proibiu a extração e criou grupo de vigilância para garantir o cumprimento da regra.
Mais de duas décadas de recuperação ecológica transformaram o banco de areia no eixo do turismo de Leitun. O local passou a receber campings, esportes aquáticos e atividades de turismo cultural, atraindo quase 200 mil visitantes por ano. A decisão de interromper a exploração predatória, tomada quando a renda imediata parecia mais vantajosa, revelou-se um investimento de longo prazo com retorno econômico muito superior ao da extração.
O turismo rural foi lançado formalmente em 2021 e rapidamente se tornou um dos principais motores de crescimento de renda do vilarejo. A atividade se apoia em dois caminhos complementares: o cultivo de hortaliças, que abastece tanto o mercado externo quanto o consumo local, e as vendas diretas a turistas interessados em experiências culturais. A diversificação reduziu a vulnerabilidade da economia local a choques em qualquer um dos segmentos.
O reconhecimento institucional acompanhou o desempenho econômico. O governo central concedeu a Leitun cinco títulos nacionais, entre eles vilarejo modelo, turismo rural, floresta, cultura ecológica e área turística de nível 3A, e o governo provincial incluiu a comunidade entre os dez vilarejos mais belos de Guizhou. Os selos funcionam como certificação de qualidade e instrumento de marketing territorial, ampliando a visibilidade e o fluxo de visitantes.

parte da renda ao caixa coletivo da comunidade
A arquitetura institucional da revitalização rural chinesa
O desempenho de Leitun não pode ser compreendido fora do arcabouço institucional que o viabilizou. A estratégia de revitalização rural, lançada no 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, em 2017, estabeleceu como meta a modernização básica da agricultura e das áreas rurais até 2035, sobre a base da erradicação da pobreza extrema declarada em fevereiro de 2021. O programa articula desenvolvimento industrial, atração de talentos, promoção cultural, recuperação ecológica e consolidação das organizações locais.
Um dos mecanismos mais relevantes é a Cooperação Leste-Oeste, que transfere recursos de municípios desenvolvidos do litoral para o interior do país. Desde 2021, o condado de Jinping recebe 55 milhões de yuans por ano, cerca de R$ 42 milhões, da cidade industrial de Foshan, na província de Guangdong, e mais da metade do montante é destinada a projetos produtivos. O fluxo permanente de recursos reduz a dependência de ciclos orçamentários e permite planejamento de médio prazo.
A pousada Jianglu Gengdu Di ilustra o desenho dos projetos financiados. Erguida com 16,8 milhões de yuans, aproximadamente R$ 13,3 milhões, a estrutura repassa 25% da renda dos quartos e 10% da renda da área de alimentação ao caixa coletivo do vilarejo. O mecanismo cria uma fonte recorrente de receita comunitária, financiando manutenção, investimentos e serviços coletivos sem depender exclusivamente de novos aportes públicos.
A escala nacional do programa ajuda a dimensionar o fenômeno. A China reúne cerca de 489 mil vilarejos administrativos, e mais de 12 milhões de pessoas retornaram às áreas rurais para abrir negócios nos últimos anos. Exemplos como o parque vitivinícola de Ningxia, com 40 mil hectares de uvas e 140 milhões de garrafas por ano, mostram que a revitalização combina vocação territorial, capital público e iniciativa privada em diferentes arranjos regionais.

e conecta agricultores a turistas e comerciantes
Números que traduzem a conversão ecológica em renda
Os indicadores de Leitun condensam a tese central do modelo: preservação ambiental e geração de renda podem operar no mesmo sentido. A produção de arroz cresceu 20% após as obras de irrigação, a renda per capita quase triplicou entre 2021 e 2025 e o fluxo turístico alcançou cerca de 200 mil visitantes anuais. Os três movimentos ocorreram sem expansão da área cultivada, uma restrição geográfica que forçou a busca por ganhos de produtividade e novas fontes de receita.
A comparação com outros territórios reforça a consistência do padrão. Em Balagezong, vilarejo isolado por cerca de 1.300 anos nas montanhas de Shangri-la, na província de Yunnan, a abertura de uma estrada de 59 quilômetros permitiu que maçãs orgânicas, antes desperdiçadas por falta de escoamento, se transformassem em fonte estável de renda. O vilarejo recebeu em 2009 a segunda mais alta classificação nacional de ecoturismo e integra o patrimônio mundial da Unesco dos Três Rios Paralelos.
Em Ningxia, o vinho converteu áreas desérticas em ativo econômico. O rendimento per capita de Haoyuan, um dos vilarejos beneficiados, triplicou para 24 mil yuans em 2024, ante 8 mil em 2012, e o modelo de vinho com turismo gerou empregos em atividades de plantio, guiagem e serviços. Os casos convergem para um mesmo desenho: ativos naturais ou culturais recuperados, infraestrutura de acesso e um arranjo institucional que distribui os ganhos.
Os números também evidenciam o papel do investimento público como catalisador. Em Leitun, o aporte de 3,5 milhões de yuans em infraestrutura produziu efeitos multiplicadores sobre a renda e o turismo em poucos anos. A relação entre capital aplicado e resultado obtido sugere que, em territórios com ativos subutilizados, o gargalo não está na vocação produtiva, mas na ausência de condições básicas para que ela se manifeste.

alimentos e conservação da paisagem montanhosa
Lições para o agronegócio brasileiro
A experiência chinesa oferece referências úteis ao debate brasileiro sobre desenvolvimento territorial, embora os contextos institucionais sejam distintos. A primeira lição diz respeito ao tratamento da infraestrutura como política integrada: irrigação, logística e saneamento foram tratados como um sistema, e não como projetos isolados, o que potencializou o retorno de cada investimento. No Brasil, a fragmentação de programas e a descontinuidade administrativa frequentemente produzem o efeito inverso.
A segunda refere-se à governança comunitária como ativo de desenvolvimento. A proibição da extração de areia em 2002, decidida em assembleia e fiscalizada por moradores, precedeu em quase duas décadas o retorno econômico do banco de areia. A capacidade de uma comunidade de impor regras de uso sustentável dos recursos comuns, e de sustentá-las no tempo, é condição estrutural para modelos que dependem da preservação de ativos naturais.
A terceira envolve o desenho de mecanismos de repartição de receita. O repasse de percentuais da renda de hospedagem e alimentação ao caixa coletivo do vilarejo cria um fundo permanente de financiamento comunitário, reduzindo a dependência de aportes externos e alinhando os interesses dos operadores privados aos da coletividade. Arranjos semelhantes podem inspirar projetos de turismo rural e de agregação de valor em territórios brasileiros.
Há ainda uma lição sobre a valorização de ativos ambientais como estratégia competitiva. A certificação nacional e o reconhecimento institucional funcionaram como instrumentos de distinção no mercado, elevando o valor percebido do destino e atraindo investimentos. No agronegócio brasileiro, a agenda de rastreabilidade, carbono e boas práticas ambientais caminha na mesma direção, ao transformar conformidade socioambiental em vantagem comercial.

que une preservação ambiental e renda no campo
Limites, riscos e a fronteira do modelo
O modelo de Leitun, porém, não está imune a limites. A dependência do fluxo turístico expõe a economia local a choques de demanda, como crises sanitárias e variações cíclicas do consumo, e a concentração de receita em poucas atividades reduz a resiliência a mudanças de conjuntura. A literatura acadêmica sobre turismo rural na China também registra riscos de comercialização excessiva da cultura local e de pressão sobre recursos naturais quando o crescimento não é gerido.
A sustentabilidade do arranjo depende da continuidade do financiamento público e da capacidade de gestão local. A Cooperação Leste-Oeste, que garante 55 milhões de yuans anuais ao condado de Jinping, é um instrumento de política pública sujeito a revisões, e a manutenção dos resultados exigirá que as fontes privadas de receita ganhem peso relativo ao longo do tempo. A transição de uma economia subsidiada para uma economia autônoma é o teste decisivo do modelo.
Para o observador brasileiro, o caso oferece menos um receituário do que um repertório de perguntas. Como transformar ativos ambientais em renda sem comprometê-los? Que arranjos institucionais permitem que comunidades rurais capturem parte dos ganhos do turismo e da agregação de valor? Em que condições o investimento público em infraestrutura produz efeitos multiplicadores duradouros? As respostas variam conforme o território, mas a experiência de um vilarejo de 648 anos no sudoeste da China demonstra que a preservação pode ser, ao mesmo tempo, princípio e estratégia de crescimento.