Mulheres comandam 8,5% da área rural brasileira

As mulheres ampliam sua participação no agronegócio brasileiro, assumindo funções de gestão, liderança técnica e tomada de decisões em diferentes sistemas produtivos. Entretanto, desigualdades estruturais ainda restringem a presença feminina nas cadeias de valor do agronegócio, conforme revela o estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, conduzido pela Fundação IDH no âmbito do Fundo AGRI3. Baseado em ampla revisão da literatura especializada, o levantamento apresenta um panorama atualizado sobre a inserção das mulheres no meio rural e identifica fatores que ainda dificultam a ampliação de sua participação em posições estratégicas.

Os dados mostram que o Brasil possui cerca de 5,07 milhões de propriedades rurais, das quais aproximadamente 19% são administradas por mulheres, o equivalente a 947 mil estabelecimentos. Apesar desse avanço, essas produtoras respondem por apenas 8,5% da área rural nacional, aproximadamente 30 milhões de hectares, evidenciando a concentração feminina em propriedades de menor dimensão, frequentemente vinculadas à agricultura familiar ou recebidas por sucessão. O estudo analisou seis importantes cadeias produtivas, abrangendo soja, café, pecuária, cana-de-açúcar, citros e cacau, segmentos estratégicos para o agronegócio brasileiro.

Liderança feminina cresce em importantes cadeias do agronegócio e pecuária registra o maior avanço da gestão feminina no campo
Liderança feminina cresce em importantes cadeias do agronegócio
e pecuária registra o maior avanço da gestão feminina no campo

Entre as cadeias avaliadas, a pecuária bovina apresenta a evolução mais significativa da liderança feminina. Entre 2006 e 2017, o número de mulheres responsáveis por propriedades pecuárias aumentou 55%, alcançando cerca de 450,7 mil gestoras. Nessas fazendas, elas desempenham papel expressivo nas decisões relacionadas à reprodução animal, manejo sanitário e administração dos sistemas produtivos. Em aproximadamente um terço dessas propriedades, a gestão integral está sob responsabilidade feminina, demonstrando a crescente participação das mulheres na condução técnica e econômica da atividade pecuária.

Nas demais cadeias produtivas, o levantamento evidencia cenários distintos. No cacau, mulheres administram 22% das propriedades, embora ocupem parcela menor da área cultivada, com predominância de participação familiar na mão de obra. Nos citros, elas representam 18% da gestão das fazendas e cerca de 23% da força de trabalho, especialmente durante a colheita. Na soja, a participação feminina alcança 17% na produção primária e 34,5% quando considerados os agrosserviços, embora persistam barreiras culturais relacionadas ao acesso a funções de comando. No café, propriedades administradas por mulheres apresentam maior equilíbrio entre homens e mulheres nas equipes de trabalho, enquanto a cana-de-açúcar registra os menores índices de liderança feminina entre as cadeias analisadas.

Estudo analisa seis cadeias produtivas estratégicas brasileiras e mostra que o desempenho dos setores apresenta realidades distintas de ocupação e liderança
Estudo analisa seis cadeias produtivas estratégicas
brasileiras e mostra que o desempenho dos setores
apresenta realidades distintas de ocupação e liderança

Além dos indicadores quantitativos, o estudo identifica características relacionadas ao modelo de gestão adotado por produtoras rurais. Segundo o relatório, propriedades lideradas por mulheres apresentam maior atenção às práticas de sustentabilidade, conservação do solo, gestão de pessoas e responsabilidade social. O levantamento também observa maior abertura para adoção de tecnologias, inovação nos processos produtivos e desenvolvimento de ambientes de trabalho mais colaborativos, aspectos que contribuem para o desempenho das atividades agropecuárias e para a adaptação dos sistemas produtivos às novas exigências do mercado.

O diagnóstico destaca que a sucessão familiar permanece como uma das principais barreiras à ampliação da liderança feminina no campo. Em muitas regiões, padrões culturais ainda direcionam a transferência das propriedades para herdeiros homens, reduzindo as oportunidades para mulheres assumirem a gestão dos empreendimentos rurais. O estudo também aponta que parte significativa das atividades realizadas por mulheres continua sendo percebida como apoio familiar, sem o devido reconhecimento profissional, situação que contribui para diferenças salariais e menor valorização das funções desempenhadas.

Pesquisa destaca desafios para ampliar a inclusão no meio rural como a sucessão familiar que ainda limita a liderança feminina
Pesquisa destaca desafios para ampliar a inclusão no meio rural
como a sucessão familiar que ainda limita a liderança feminina

Outro desafio relevante identificado pela pesquisa está relacionado ao acesso limitado à terra, ao crédito rural e aos espaços de representação institucional. A ausência de títulos de propriedade em nome das produtoras restringe o acesso ao financiamento e reduz a autonomia para investimentos nas atividades produtivas. Paralelamente, a participação feminina em cooperativas, associações e organizações representativas ainda permanece abaixo do potencial observado no campo, limitando sua presença nos processos de decisão que influenciam o desenvolvimento das cadeias produtivas e das políticas voltadas ao setor.

Como perspectiva para ampliar a participação das mulheres no agronegócio, o estudo propõe políticas de crédito mais inclusivas, programas de capacitação técnica, desenvolvimento de lideranças, transparência salarial e mecanismos de incentivo à sucessão rural. O relatório também recomenda ampliar políticas de compras inclusivas, criar redes de mentoria, disponibilizar canais seguros para denúncias de assédio e investir em infraestrutura de apoio, como creches e escolas em tempo integral. Segundo os pesquisadores, reduzir as desigualdades de gênero representa uma estratégia relevante para ampliar a competitividade, a sustentabilidade e a capacidade de adaptação do agronegócio brasileiro aos desafios econômicos, sociais e ambientais.

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