Do sonho de viver no campo ao prêmio nacional, a trajetória do melhor mel do Brasil mostra como gestão, natureza e tecnologia podem elevar a apicultura nacional e inspirar novos produtores apícolas
A apicultura mineira alcançou um novo marco de qualidade no cenário nacional. O mel produzido por Natálha Abreu Arêdes Matos, do Apiário Âmbar, em Santana do Riacho, na Serra do Cipó, foi eleito o melhor do Brasil durante o 25º Congresso Brasileiro de Apicultura (Conbrapi), realizado em Florianópolis. Entre centenas de amostras provenientes de 23 estados, o produto conquistou o primeiro lugar na categoria Empresa, na modalidade de florada silvestre. O resultado traduz uma trajetória marcada por capacitação, planejamento, manejo criterioso e controle de qualidade, além das condições ambientais privilegiadas da região.
Inserido em uma área preservada do cerrado, o apiário reúne flora diversificada, água de boa qualidade e distância de fontes potenciais de contaminação, fatores que contribuem para as características sensoriais do produto. O mel apresentado ao concurso foi colhido no início da primavera, período em que a composição floral influencia diretamente aroma, cor, sabor e textura. Com 40 colmeias e produção anual próxima de 900 quilos, o Apiário Âmbar projeta alcançar uma tonelada em 2027. A empresa também comercializa méis de diferentes floradas, produtos com favo, extratos de própolis, pomadas e kits, utilizando o comércio eletrônico para atender consumidores de diversas regiões.

características únicas ao mel premiado

o melhor do Brasil – Foto: Sistema Faemg Senar
A trajetória de Natálha começou longe da atividade rural. Após 15 anos dedicados à gestão cultural em Belo Horizonte, ela conheceu a apicultura durante uma viagem a Guapé, no Sul de Minas, em 2011. A experiência despertou o desejo de viver no campo e trabalhar com abelhas. O projeto ganhou forma em 2020, quando ela e o marido deixaram a capital e se mudaram para a Serra do Cipó. A partir de cursos, visitas técnicas e experiências práticas, o casal estruturou o empreendimento. A transição profissional exigiu conhecimento, planejamento e disposição para construir um negócio rural sem tradição familiar na atividade.
A profissionalização avançou com estudos em apicultura e meliponicultura, estágios em propriedades rurais, formação técnica e adequação às exigências legais. O manejo utiliza abelhas africanizadas, reconhecidas pela rusticidade e resistência, mas que também demandam atenção especial devido ao comportamento mais defensivo. A colheita segue o ciclo natural das colmeias, respeitando o período adequado de maturação e preservando parte da produção para as próprias abelhas. Essa estratégia contribui para obter um produto mais equilibrado, com menor acidez e características sensoriais mais suaves, ao mesmo tempo em que preserva as condições necessárias para a continuidade da atividade.

de mel na Serra do Cipó e manejo adequado das colmeias
contribui para qualidade e regularidade da produção
Entre 2022 e 2024, a participação no Programa de Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Sistema Faemg Senar representou uma etapa importante na evolução do empreendimento. O acompanhamento técnico contribuiu para aprimorar o manejo, organizar processos administrativos e ampliar o portfólio. A produtividade chegou a dobrar sem aumento no número de colmeias, evidenciando como gestão e conhecimento técnico podem alterar os resultados de uma pequena propriedade. A localização também é estratégica. Em uma área distante de indústrias, estradas movimentadas e outras fontes de resíduos, o apiário encontra condições favoráveis para a produção de mel e para a conservação da biodiversidade.
O reconhecimento no Conbrapi, portanto, ultrapassa a dimensão de um prêmio. Ele demonstra como qualidade, gestão profissional, conservação ambiental e agregação de valor podem transformar a apicultura em um negócio rural sustentável. O Apiário Âmbar também investe em turismo rural, aproximando visitantes do universo das abelhas e da importância da polinização para os ecossistemas e para a produção de alimentos. Para Natálha, o próximo desafio é garantir a sustentabilidade econômica do empreendimento e manter o processo de aprimoramento. A conquista coloca a produção da Serra do Cipó em evidência e oferece uma referência para outras famílias e empreendedoras interessadas em construir negócios no campo.