Cruzamentos de rainhas africanas com machos das espécies europeias que já existiam no ambiente, resultaram na abelha africanizada que iniciou uma longa e impressionante ocupação do continente americano
Setenta anos após o início do processo de africanização das abelhas Apis mellifera no Brasil, a trajetória da espécie ganha uma análise abrangente em uma nova publicação da Embrapa Meio-Norte. Intitulada “Aspectos históricos da abelha africanizada e seus impactos na apicultura brasileira”, a obra apresenta uma visão técnica sobre a evolução da atividade apícola nacional, demonstrando como um cenário inicialmente marcado por incertezas deu origem a um sistema produtivo consolidado, reconhecido internacionalmente por sua eficiência, capacidade de adaptação e expressiva contribuição para o agronegócio.
A publicação resgata a origem desse processo, iniciado em 1956, quando rainhas da subespécie africana Apis mellifera scutellata foram introduzidas no país pelo geneticista Warwick Estevan Kerr para um programa de melhoramento genético. O objetivo era reunir elevada produtividade, adaptação às condições tropicais e características favoráveis ao manejo, ampliando o potencial da apicultura brasileira. No ano seguinte, a liberação acidental de colônias em Rio Claro, SP, desencadeou a hibridização natural que modificaria definitivamente o perfil das abelhas no território nacional.

de setembro de 2018, deixando um legado que
impulsionou a evolução do manejo apícola nacional
Os primeiros anos foram marcados por desafios técnicos, mudanças no manejo e intensa preocupação da sociedade com o comportamento defensivo das colônias. A rápida expansão das abelhas africanizadas exigiu novos conhecimentos científicos, aperfeiçoamento das práticas de campo e investimentos em pesquisa. Em pouco mais de três décadas, os enxames percorreram aproximadamente 8 mil quilômetros até alcançarem a fronteira sul dos Estados Unidos, consolidando um dos mais relevantes processos de dispersão de polinizadores registrados nas Américas.
Os avanços científicos permitiram transformar esse cenário em uma oportunidade para a apicultura nacional. A maior rusticidade, capacidade de adaptação e eficiência produtiva das abelhas africanizadas contribuíram para o crescimento da produção brasileira de mel, que passou de aproximadamente 5 mil toneladas anuais na década de 1950 para cerca de 67,3 mil toneladas em 2024. Em 2025, as exportações do produto alcançaram receita de US$ 116,5 milhões, evidenciando a relevância econômica do segmento para o agronegócio.

foram adaptadas para ampliarem a produção de mel, proporcionando
à apicultura movimentar milhões em exportações
Além dos resultados econômicos, a publicação destaca a importância estratégica da polinização para a produção agrícola e para a conservação dos ecossistemas. O documento ressalta que os benefícios gerados por esse serviço ambiental podem superar em até 48 vezes a receita obtida exclusivamente com a comercialização do mel. Ao mesmo tempo, permanecem em estudo aspectos relacionados ao comportamento defensivo das colônias, à elevada tendência de enxameação e às interações com espécies nativas de abelhas.
Voltada a pesquisadores, extensionistas, apicultores e formuladores de políticas públicas, a publicação estimula o debate sobre os desafios futuros da apicultura brasileira. Entre os temas abordados estão o melhoramento genético, a evolução da apicultura migratória, a segurança das atividades no campo e a necessidade de políticas voltadas à conservação dos polinizadores. O material reforça que o conhecimento científico continua sendo um dos principais instrumentos para ampliar a competitividade, a sustentabilidade e a resiliência da cadeia produtiva do mel no Brasil.
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