Calor extremo amplia riscos no agro e exige nova estratégia para lavouras, criações e armazenagem

As ondas de calor deixaram de ser apenas episódios meteorológicos pontuais e passaram a integrar o planejamento de risco do agronegócio brasileiro. O aumento da temperatura, especialmente quando persiste por vários dias e ocorre associado à baixa umidade e à restrição hídrica, afeta simultaneamente pessoal, lavouras, rebanhos, instalações, equipamentos e estruturas de armazenagem. Em fevereiro deste ano, o INMET alertou para os efeitos de uma onda de calor sobre lavouras e pecuária no sul, destacando a combinação entre temperaturas elevadas e déficit hídrico.

O fenômeno exige uma leitura mais ampla porque seus efeitos se propagam por toda a cadeia produtiva. Na lavoura, o calor interfere na fotossíntese, na transpiração, na floração e no enchimento de grãos. Na pecuária, altera o comportamento, o consumo de alimento e a capacidade de termorregulação dos animais. Nas estruturas, ele eleva a demanda por ventilação, refrigeração e energia. Para empresas rurais, cooperativas e agroindústrias, gestão térmica passa a ser uma variável econômica, diretamente relacionada a produtividade, qualidade, custos operacionais e continuidade das atividades.

Dados recentes do próprio INMET mostram a relevância desse cenário. O verão de 2024/2025 foi o sexto mais quente do Brasil desde 1961, com temperatura média 0,34°C acima da referência de 1991 a 2020. Mais recentemente, em agosto de 2026, o instituto registrou episódios de temperaturas superiores a 40°C em diferentes áreas do país, acompanhados de baixa umidade em parte do território. A questão, portanto, não está apenas no pico térmico, mas na capacidade dos sistemas produtivos de suportarem sequências de dias quentes sem comprometer seu desempenho.

Milho e soja estão entre as culturas mais sensíveis ao calor durante fases reprodutivas
Milho e soja estão entre as culturas mais sensíveis
ao calor durante fases reprodutivas

Lavouras sob pressão fisiológica

Nas plantas, o calor excessivo provoca uma sucessão de respostas fisiológicas que podem reduzir o potencial produtivo. Quando a temperatura aumenta, a demanda evaporativa da atmosfera cresce e a planta precisa regular a abertura dos estômatos para evitar perda excessiva de água. Esse mecanismo de defesa também limita a entrada de dióxido de carbono e pode reduzir a atividade fotossintética. Em períodos prolongados, surgem sintomas como murchamento, enrolamento e queimaduras nas folhas, além de clorose e necrose. Estresse térmico e estresse hídrico frequentemente se somam, tornando o dano mais severo.

O problema ganha dimensão econômica quando o episódio coincide com fases críticas do ciclo. Milho e soja, por exemplo, apresentam elevada sensibilidade ao calor durante a floração, fecundação e formação dos grãos. Temperaturas extremas podem acelerar o desenvolvimento das plantas, reduzir o período de enchimento e comprometer a formação de grãos e frutos. Em culturas perenes e de maior valor agregado, como café e algumas frutíferas, perdas de flores e frutos podem repercutir sobre ciclos produtivos posteriores. A temperatura deixa, assim, de ser apenas uma variável climática e passa a atuar sobre a formação da receita agrícola.

Outro ponto de atenção está na água. Temperaturas elevadas aumentam a evapotranspiração e aceleram a perda de umidade do solo, enquanto sistemas irrigados podem exigir maior frequência de operação e consumo energético. A manutenção de palhada, matéria orgânica e cobertura vegetal contribui para reduzir a temperatura superficial e conservar água no perfil do solo. Sistema plantio direto e integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) também podem contribuir para a criação de condições microclimáticas mais favoráveis. Nesse contexto, solo protegido, água bem manejada e planejamento climático passam a compor uma mesma estratégia de resiliência produtiva.

ILPF que proporciona sombra e disponibilidade permanente de água são essenciais para reduzir o estresse térmico nos rebanhos
ILPF que proporciona sombra e disponibilidade permanente de água
são essenciais para reduzir o estresse térmico nos rebanhos

Pecuária enfrenta o desafio da termorregulação

O calor também modifica profundamente a dinâmica das criações. Bovinos, suínos e aves possuem mecanismos fisiológicos próprios para dissipar o excesso de calor, mas esses mecanismos têm limites. Em sistemas intensivos, a concentração de animais, a densidade de alojamento e a própria geração de calor corporal dificultam a perda térmica. A situação pode se agravar quando altas temperaturas são acompanhadas de umidade elevada, reduzindo a eficiência da evaporação e tornando mais difícil a manutenção da temperatura corporal. Bem-estar animal e desempenho produtivo estão diretamente ligados à capacidade de controle térmico das instalações.

Em aves e suínos, a ofegação é uma das principais respostas ao calor. O aumento da frequência respiratória ajuda na dissipação térmica, mas também eleva a demanda fisiológica e pode comprometer o equilíbrio do organismo quando o estresse persiste. Nos bovinos, o calor reduz o consumo de matéria seca, altera o comportamento e pode diminuir ganho de peso e produção de leite. O INMET já destacou, em episódios recentes, a necessidade de oferta contínua de água e sombra para reduzir os efeitos do calor sobre a pecuária. Menor ingestão de alimento significa menor desempenho e, consequentemente, pressão sobre a margem do produtor.

Nas granjas, a dependência de sistemas de ventilação, exaustão, nebulização e controle ambiental torna a energia elétrica um componente crítico da gestão de risco. Uma interrupção durante uma onda de calor pode rapidamente transformar um problema operacional em uma ocorrência de grande impacto zootécnico. Por isso, geradores, sistemas de alarme, manutenção preventiva, reservatórios de água e protocolos de emergência precisam fazer parte do planejamento das propriedades. Também podem ser necessários ajustes nutricionais, horários de manejo e densidade de alojamento. Prevenção térmica na pecuária é, ao mesmo tempo, uma medida de bem-estar, biossegurança e proteção econômica.

Monitoramento térmico dos silos ajuda a preservar a qualidade e o valor comercial dos grãos
Monitoramento térmico dos silos ajuda a preservar
a qualidade e o valor comercial dos grãos

Armazenagem e estruturas entram no radar

Os efeitos do calor não terminam com a colheita. Em unidades armazenadoras, a temperatura externa influencia o comportamento térmico da massa de grãos e aumenta a importância do monitoramento, da aeração e do controle da umidade. O grão continua respirando após a colheita, consumindo oxigênio e transformando reservas em dióxido de carbono, água e calor. Esse metabolismo provoca perda de matéria seca e pode elevar a temperatura da massa armazenada. Assim, controle térmico é essencial para preservar qualidade, peso e valor comercial dos grãos.

A combinação entre temperatura e umidade é particularmente relevante. Quando as condições favorecem a atividade biológica, aumentam os riscos associados à multiplicação de insetos e fungos, além da formação de pontos de aquecimento dentro do silo. A Embrapa destaca a aeração como operação fundamental para reduzir e uniformizar a temperatura da massa armazenada, enquanto o resfriamento com ar adequado pode diminuir a atividade respiratória e proteger contra insetos. Para cooperativas e empresas, isso significa que armazenagem eficiente não é apenas infraestrutura, mas instrumento de preservação da margem e da qualidade comercial.

O desafio alcança também galpões, armazéns, unidades de beneficiamento, instalações de sementes e estruturas pecuárias. Coberturas expostas à radiação solar podem transferir calor para o ambiente interno, elevando a temperatura de equipamentos, produtos e áreas de trabalho. Soluções de isolamento térmico, ventilação natural ou mecânica, sombreamento, exaustão e desenho adequado das edificações podem reduzir essa carga térmica. O objetivo não é eliminar a influência do clima, algo impraticável, mas reduzir a velocidade e a intensidade com que o calor externo alcança os ativos produtivos.

Cobertura do solo ajuda a preservar umidade e reduzir temperaturas na superfície agrícola
Cobertura do solo ajuda a preservar umidade e
reduzir temperaturas na superfície agrícola

Adaptação passa a integrar a estratégia empresarial

O enfrentamento das ondas de calor exige abandonar a lógica de resposta improvisada e incorporar o risco climático ao planejamento das empresas rurais. Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC), previsões meteorológicas regionais, estações automáticas, sensores de umidade e temperatura, imagens de satélite e ferramentas digitais podem antecipar decisões sobre irrigação, manejo, aplicações e operações. É importante combinar previsão climática, monitoramento e estratégias de conservação de água para reduzir os efeitos do estresse térmico. Informação antecipada transforma clima em variável administrável, ainda que não elimine a incerteza.

No campo, a adaptação passa por genética, manejo do solo, conservação hídrica e escolha adequada de cultivares. Plantas com maior tolerância ao calor e ao déficit hídrico tendem a ganhar relevância nos programas de melhoramento. A cobertura permanente do solo, a matéria orgânica e sistemas integrados de produção contribuem para preservar umidade e reduzir extremos térmicos na superfície. Em culturas de maior valor, telas de sombreamento e outras medidas físicas podem ser utilizadas em fases críticas. O objetivo é preservar o potencial fisiológico das plantas e reduzir a exposição dos sistemas produtivos aos extremos climáticos.

No ambiente empresarial, entretanto, a adaptação precisa alcançar toda a cadeia. Planejar fontes alternativas de energia, dimensionar reservas de água, revisar estruturas de armazenamento, proteger equipamentos e capacitar equipes são medidas tão relevantes quanto selecionar uma cultivar ou ajustar a irrigação. O calor pode reduzir produtividade, elevar consumo energético, aumentar perdas pós-colheita e comprometer o bem-estar animal em uma mesma temporada. Por isso, resiliência climática precisa ser tratada como investimento e não apenas como custo operacional. Para o agro brasileiro, preparar lavouras, criações, equipes e estruturas para temperaturas mais elevadas significa proteger ativos, contratos, qualidade e capacidade de entrega em um mercado cada vez mais exigente.

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