Estudos da Embrapa Cerrados que acompanham áreas agrícolas desde 2005, apontam redução das emissões de gases de efeito estufa e maior resiliência das lavouras
As plantas de cobertura, um dos fundamentos do Sistema Plantio Direto (SPD), consolidam-se como ferramenta estratégica para ampliar a sustentabilidade da agricultura brasileira diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas. Resultados de um experimento de longa duração conduzido pela Embrapa Cerrados, iniciado em 2005, demonstram que essas espécies exercem papel decisivo na proteção do solo, no aumento do armazenamento de carbono, na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEEs) e na elevação da resiliência dos sistemas produtivos. A pesquisa acompanha diferentes plantas de cobertura em sucessão ao milho e, mais recentemente, à soja, gerando informações relevantes para o aprimoramento do manejo agrícola.
O estudo evidencia que o uso dessas espécies extrapola os benefícios tradicionalmente associados à conservação do solo. Além de favorecerem a fixação biológica de nitrogênio, especialmente por meio das leguminosas, as plantas de cobertura intensificam a atividade microbiológica, estimulam a ciclagem de nutrientes e ampliam a infiltração e o armazenamento de água no perfil do solo. Esses processos contribuem para reduzir a dependência de fertilizantes minerais, aumentar a eficiência dos sistemas de produção e ampliar a capacidade das lavouras de enfrentar períodos de estresse climático, cenário cada vez mais frequente na agricultura brasileira.
Entre os resultados de maior relevância está a capacidade de determinadas espécies em preservar os estoques de carbono no solo e contribuir para a mitigação das emissões de gases de efeito estufa. As avaliações realizadas ao longo dos anos mostram que gramíneas como sorgo e trigo apresentaram desempenho expressivo na manutenção da matéria orgânica, principalmente pela elevada produção de biomassa e pela decomposição mais lenta dos resíduos vegetais. A pesquisa também aponta que o uso de mix de plantas de cobertura representa uma alternativa promissora, ao combinar espécies com diferentes velocidades de decomposição, favorecendo tanto a reciclagem de nutrientes quanto a estabilidade do carbono armazenado no solo.

Sistema Plantio Direto. A braquiária destaca-se na reciclagem
de nitrogênio – Foto: Luis Wagner Rodrigues Alves/Embrapa
Outro avanço observado pela Embrapa refere-se à redução das emissões de óxido nitroso (N₂O), um dos gases de maior potencial de aquecimento global. Durante quatro anos de monitoramento em áreas cultivadas com milho, algumas espécies apresentaram desempenho relevante na mitigação dessas emissões, especialmente o guandu (Cajanus cajan), cuja composição química interfere na velocidade de decomposição da matéria orgânica. Para ampliar a precisão das análises, os pesquisadores desenvolveram um sistema de câmaras estáticas de baixo custo capaz de quantificar simultaneamente dióxido de carbono, metano e óxido nitroso diretamente no campo, ampliando a geração de dados nacionais sobre a contribuição da agropecuária para o balanço de emissões.
Os estudos também demonstram que uma parcela significativa do nitrogênio absorvido pelo milho tem origem na mineralização da palhada deixada pelas plantas de cobertura, reduzindo a dependência dos fertilizantes nitrogenados. Nesse processo, a braquiária destacou-se como uma das espécies mais eficientes na reciclagem desse nutriente, reforçando sua importância dentro dos sistemas de produção. Os resultados confirmam que o Sistema Plantio Direto, quando adotado em sua concepção completa, baseada em rotação de culturas, cobertura permanente do solo e ausência de revolvimento, representa uma das principais estratégias para elevar a eficiência produtiva e ambiental da agricultura tropical.
Apesar dos avanços científicos, os pesquisadores destacam que o maior desafio permanece na ampliação da adoção do Sistema Plantio Direto em sua plenitude. Embora aproximadamente 45 milhões dos 70 milhões de hectares de culturas temporárias do país utilizem a semeadura direta, apenas 6,4 milhões de hectares cumprem efetivamente os três princípios do sistema. Barreiras econômicas, maior complexidade de manejo e a ausência de mecanismos amplos de remuneração pelos serviços ambientais ainda limitam essa evolução. Nesse contexto, instrumentos como o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), incorporando níveis de manejo que valorizem rotação de culturas e plantas de cobertura, associados a políticas de incentivo ao carbono e aos serviços ecossistêmicos, podem acelerar a adoção de práticas capazes de elevar a competitividade e a sustentabilidade do agronegócio brasileiro.