Obra gratuita defende a transição agroecológica como caminho para um agronegócio sustentável, um modelo para conciliar produção, clima e bem-estar animal
Lançado em 1º de setembro na Faculdade de Saúde Pública da USP, o livro “Bicho Livre, Terra Viva” chega ao mercado editorial brasileiro em um momento de convergência rara entre ciência, política pública e demanda empresarial. A obra, produzida pela Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis em parceria com a Proteção Animal Mundial, reúne pesquisadores e organizações da sociedade civil em torno de uma tese ousada: a criação animal de base agroecológica deixou de ser alternativa marginal para se tornar peça central de um projeto de transformação dos sistemas alimentares. O lançamento, com mesa de debate aberta ao público e exibição de documentário homônimo, marcou a entrada definitiva do tema na agenda institucional brasileira.
O diagnóstico que sustenta a publicação é direto e incômodo. Recordes de desmatamento, queimadas, secas históricas, enchentes inéditas e fome convivem com projeções alarmantes da agência norte-americana NOAA, que estima mais de 90% de chance de um El Niño muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Os sistemas alimentares respondem por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, e a expansão da agropecuária sobre biomas como amazônia e cerrado amplia a vulnerabilidade da produção às mudanças do clima. Para os autores, não há futuro possível para a alimentação que ignore os limites ambientais do planeta.

ciclos da terra e bem-estar animal
O livro não poupa o modelo industrial hegemônico. Organizado em torno de um único destino, a produção em larga escala de bens de origem animal baseada em monoculturas e uso intensivo de insumos, esse sistema há tempos deixou de ter como objetivo real enfrentar a fome. Seus custos, argumentam os capítulos, recaem sobre territórios, trabalhadores, saúde pública e sobre os próprios animais, submetidos a práticas que ignoram princípios básicos de bem-estar. A crítica, porém, não é panfletária: cada afirmação é ancorada em dados e em experiências concretas, o que aproxima a obra do rigor esperado pelo leitor técnico do agronegócio.

Diante desse quadro, a agroecologia aparece como resposta estruturada, e não como modismo. A obra apresenta as bases conceituais dessa abordagem, discute a dimensão ética do reconhecimento dos animais como seres sencientes e mapeia os obstáculos à expansão de alternativas. O ponto mais valioso para o público empresarial está nos capítulos dedicados a experiências reais de transição em sistemas integrados com animais, que demonstram na prática como é possível conciliar produtividade, conservação da natureza e bem-estar animal. É nesse território que a publicação deixa de ser teórica e se torna referência operacional.

conservação da natureza e bem-estar animal
A leitura ganha ainda mais relevância quando se considera o contexto econômico. A pressão de mercados internacionais por rastreabilidade, a valorização de produtos com selos socioambientais e o avanço de políticas de crédito ligadas a práticas sustentáveis criam incentivos concretos para a transição. O livro mostra que essa mudança já está em curso e pode ser ampliada, transformando o que hoje parece custo em oportunidade de posicionamento e de acesso a novos mercados. Para gestores e produtores, a obra funciona como um mapa das escolhas econômicas e políticas que moldam o que chega à mesa do consumidor.
Bicho Livre, Terra Viva chega, portanto, no momento certo para quem quer entender os desafios e as oportunidades de um setor em transformação. O documentário homônimo, com 20 minutos, mostra na prática onde essa criação mais respeitosa já acontece. Mais do que uma publicação, a obra é um convite a repensar a relação entre produção, clima e bem-estar animal, oferecendo ao agronegócio brasileiro um caminho concreto para conciliar competitividade e responsabilidade socioambiental.
Documentário mostra o cotidiano da transição agroecológica
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