Tecnologia desenvolvida pela Embrapa e pela Efense permite produzir bioinseticida à base de fungos em poucos dias e se apresenta como alternativa para o manejo de pragas agrícolas
A agricultura brasileira atravessa uma fase em que produtividade, eficiência operacional e responsabilidade ambiental precisam avançar de forma integrada. Nesse cenário, um novo processo tecnológico para a produção de bioinseticidas à base de fungos entomopatogênicos chama atenção por enfrentar um dos principais obstáculos à expansão dos produtos biológicos: a transição entre a pesquisa experimental e a fabricação em escala comercial. Desenvolvida pela Embrapa em parceria com a empresa Efense, a solução apresentou taxas de mortalidade entre 70% e 93% contra pragas relevantes para diferentes cadeias agrícolas.
Os ensaios foram conduzidos contra a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), uma das principais ameaças à produtividade do milho, e a mosca-branca (Bemisia tabaci), inseto associado a perdas em soja, hortaliças e outras culturas. A maior taxa foi observada em condições controladas, com aplicação de 10 milhões de blastosporos por mililitro. O resultado, portanto, deve ser interpretado dentro dos parâmetros experimentais, sem transformar o índice em promessa universal de desempenho. A efetividade no campo dependerá de clima, alvo biológico, momento da aplicação, tecnologia de pulverização e integração com outras práticas de manejo.
A base da inovação está no uso de blastosporos produzidos por fermentação líquida, processo que permite obter grandes volumes de estruturas fúngicas em períodos reduzidos. Em testes de escalonamento, a produção alcançou mais de um bilhão de unidades por mililitro em poucos dias. O cultivo também foi transferido para biorreatores de maior capacidade, chegando a 1.200 litros, mantendo rendimento elevado. Para a indústria, essa estabilidade operacional pode representar uma etapa relevante na redução de gargalos e na construção de uma cadeia nacional mais robusta de bioinsumos.

expansão dos produtos biológicos. Biorreatores industriais
ampliam a capacidade de produção de bioinsumos
Tecnologia, formulação e desempenho no campo
A fermentação líquida oferece vantagens industriais em relação a métodos tradicionais baseados em substratos sólidos. O processo tende a ser mais uniforme, automatizável e compatível com protocolos de controle de qualidade exigidos por operações comerciais. A definição das fontes de carbono e nitrogênio, o ajuste das condições de cultivo e o controle dos biorreatores fazem parte de uma arquitetura tecnológica que precisa funcionar de maneira integrada. A escala produtiva não depende apenas do microrganismo, mas também da engenharia do processo e da formulação final.
Outro ponto crítico é a preservação da viabilidade dos fungos após a fabricação. A pesquisa avaliou formulações oleosas combinadas com sílica amorfa, buscando reduzir a necessidade de secagem prévia por convecção. Essa alternativa pode simplificar a linha industrial, diminuir custos e ampliar a estabilidade do produto durante o armazenamento. A formulação também apresentou capacidade de preservar os blastosporos por até 90 dias, embora a vida útil comercial dependa de validações adicionais, condições logísticas, embalagem e exigências regulatórias.
Nos testes biológicos, os blastosporos aderiram rapidamente ao corpo dos insetos, germinaram e iniciaram o processo de infecção poucas horas depois da aplicação. Esse comportamento ajuda a explicar o desempenho observado em laboratório e casa de vegetação. Em áreas de soja avaliadas durante duas safras, aplicações sucessivas reduziram as populações de mosca-branca. Ainda assim, a tecnologia deve ser entendida como uma ferramenta para o manejo integrado de pragas, e não como substituta automática de todo o sistema de proteção de cultivos.

comercial dos produtos biológicos, incluindo fermentação
líquida, escalonamento em biorreatores industriais,
formulação, armazenamento e validação no campo
Mercado brasileiro exige integração e previsibilidade
A expansão dos bioinsumos ocorre em um mercado agrícola pressionado por resistência de pragas, necessidade de racionalização de custos e exigências crescentes relacionadas à sustentabilidade. Dados indicam que o mercado brasileiro de bioinsumos movimentou R$ 5 bilhões na safra 2023/2024, com crescimento de 15% em relação ao ciclo anterior. Também registrou-se avanço da adoção de bioinseticidas por área, sinal de que o segmento deixou de ocupar apenas um espaço experimental e passou a integrar decisões comerciais de produtores e empresas agrícolas.
Para o setor empresarial, o valor dessa tecnologia está na possibilidade de combinar desempenho agronômico, produção nacional e maior previsibilidade industrial. A disponibilidade de produtos biológicos em escala pode ampliar o leque de alternativas para programas de manejo, reduzir a dependência de determinadas moléculas químicas e contribuir para estratégias de rotação de mecanismos de ação. O benefício econômico, contudo, dependerá do custo por hectare, da estabilidade do produto, da logística, do suporte técnico e da consistência dos resultados em diferentes ambientes.
A consolidação desse mercado também exige pesquisa continuada, regulamentação adequada, capacitação profissional e monitoramento ambiental. O controle biológico funciona melhor quando associado à amostragem das lavouras, à identificação correta da praga, à preservação de inimigos naturais e ao uso criterioso de outras ferramentas. O avanço dos bioinseticidas será medido menos pelo volume de lançamentos e mais pela capacidade de entregar resultado confiável dentro de sistemas agrícolas complexos. Nesse sentido, o novo processo representa uma oportunidade tecnológica relevante, ainda dependente das etapas de registro, validação comercial e adoção em larga escala.