Apicultura em alerta: pragas eliminam até 50% das colônias na América Latina

A apicultura latino-americana enfrenta um cenário de perdas que chega a eliminar entre 20% e 50% das colônias a cada ano, segundo levantamento consolidado por pesquisadores da Sociedade Latino-Americana de Pesquisa Apícola (SoLatInA). O trabalho, publicado na revista científica Apidologie, reúne décadas de dados sobre doenças e pragas que atingem as abelhas melíferas nas Américas e se apresenta como a primeira revisão regional com esse alcance. O alerta ganha ainda mais relevância diante do papel estratégico das abelhas na produção global de alimentos, já que atuam como polinizadoras de dezenas de culturas agrícolas.

A dimensão econômica do problema é expressiva. A América Latina abriga mais de 6 mil espécies de abelhas nativas, mantém cerca de 8 milhões de colmeias e produz aproximadamente 70 mil toneladas de mel por ano. Qualquer avanço de pragas sobre esse patrimônio afeta diretamente a renda dos apicultores, a oferta de mel e derivados e, sobretudo, os serviços de polinização que sustentam lavouras inteiras. Nesse contexto, a saúde das colmeias deixou de ser uma preocupação restrita ao setor apícola para se tornar tema de interesse agrícola, ambiental e sanitário.

O estudo chega em momento oportuno, quando a agenda regional se volta para o tema. A saúde das abelhas esteve no centro do XVII Congresso Latino-Americano de Apicultura (FILAPI 2026), realizado em Mar del Plata, na Argentina, que reuniu cerca de 80 pesquisadores em torno do VII Workshop da SoLatInA. O encontro transformou a revisão científica em pauta prática, aproximando a academia das decisões de manejo e das políticas públicas voltadas à apicultura.

Congresso Latino-Americano de Apicultura coloca a saúde das abelhas na agenda regional
Congresso Latino-Americano de Apicultura coloca
a saúde das abelhas na agenda regional

As principais ameaças às colmeias

Entre os inimigos das colmeias, o ácaro Varroa destructor segue como o principal vilão da apicultura regional. O ectoparasita se alimenta das abelhas adultas e de suas crias, enfraquece as colônias e abre porta para infecções secundárias. Além dele, o estudo aponta o microsporídio Nosema ceranae e diversos vírus, entre eles o vírus da asa deformada, como agentes que reduzem a produtividade e comprometem a sobrevivência das colmeias.

O quadro se agrava com a chegada de novas pragas ao continente. O pequeno besouro da colmeia (Aethina tumida), originário da África, já foi detectado no Brasil, na Bolívia e no Paraguai, o que exige alertas rápidos e respostas coordenadas entre os países. A presença do inseto em diferentes regiões demonstra que as fronteiras não são barreira para a disseminação de pragas, sobretudo em um continente com forte fluxo comercial e trânsito de materiais apícolas.

A natureza, porém, também oferece caminhos. A pesquisa identificou mecanismos naturais de resistência e coexistência com o ácaro Varroa em populações de abelhas da Argentina, do Uruguai e de Cuba, observados sem a necessidade de tratamentos químicos sintéticos. Compreender esses processos representa uma oportunidade para desenvolver estratégias de manejo mais sustentáveis e adaptadas às condições da região, reduzindo a dependência de defensivos e os custos de produção.

América Latina mantém cerca de 8 milhões de colmeias e produz 70 mil toneladas de mel e vigilância ativa permite detectar doenças precocemente, evitando a disseminação entre países
América Latina mantém cerca de 8 milhões de colmeias e produz
70 mil toneladas de mel e vigilância ativa permite detectar
doenças precocemente, evitando a disseminação entre países

Vigilância integrada como estratégia

Diante desse cenário, a recomendação central do estudo é a implantação de sistemas de monitoramento permanente, com vigilância ativa capaz de detectar precocemente novas doenças e emitir alertas antes que os problemas se espalhem entre regiões ou cruzem fronteiras. A experiência já comprova o acerto dessa abordagem. Na Argentina e no Uruguai, programas de acompanhamento reduziram a cria pútrida americana, uma das doenças bacterianas mais graves que afetam as abelhas, a níveis mínimos.

O êxito desses programas decorre da combinação de diagnósticos sistemáticos e boas práticas de manejo, que contiveram a disseminação da doença e minimizaram seu impacto sobre a apicultura. O modelo demonstra que a vigilância não é apenas uma medida de contenção, mas uma ferramenta de gestão capaz de gerar evidências para aprimorar estratégias de prevenção, manejo e resposta a novas ameaças.

Para o agronegócio brasileiro, o recado é claro. Conhecer a distribuição e a evolução de pragas e doenças permite antecipar riscos e proteger tanto a produção de mel quanto os serviços de polinização que sustentam culturas como frutas, hortaliças e oleaginosas. A apicultura, cada vez mais integrada à agricultura, depende de políticas sanitárias robustas e de cooperação regional para garantir sua sustentabilidade. O estudo da Apidologie, ao reunir décadas de conhecimento, oferece o ponto de partida para que produtores, entidades e governos transformem informação em ação.

Leia também: