Tecnologia da Embrapa transforma castanhais amazônicos em mapas digitais para extrativistas

Uma nova etapa da digitalização da floresta amazônica começa a chegar às mãos de quem vive diretamente do extrativismo. Desenvolvido pela Embrapa Acre, o Netflora combina drones, inteligência artificial e georreferenciamento para identificar castanheiras-da-amazônia (Bertholletia excelsa) em imagens aéreas e transformar sua localização em informação acessível aos coletores. A tecnologia permite criar mapas digitais das áreas de coleta, nos quais cada árvore recebe uma posição geográfica precisa. Na prática, o recurso aproxima ciência e conhecimento tradicional, oferecendo uma ferramenta capaz de melhorar o planejamento da atividade sem retirar do extrativista o papel central na condução do manejo.

A aplicação ganha relevância diante das características da coleta de castanha, realizada em extensas áreas de floresta e frequentemente marcada por longos deslocamentos. Em comunidades que passaram a utilizar o sistema, os mapas podem ser consultados pelo celular mesmo quando não há conexão com a internet, permitindo localizar árvores e organizar trilhas com maior precisão. O recurso ajuda a reduzir caminhadas desnecessárias, ampliar a área efetivamente explorada e acompanhar a distribuição das castanheiras ao longo do território. Para uma atividade em que tempo, esforço físico e logística interferem diretamente na produtividade, transformar a floresta em uma base cartográfica acessível representa uma mudança relevante na rotina.

O aplicativo NetFlora tem 98% de assertividade e foi originalmente desenvolvido para a identificação de espécies madeireiras e agora reconhece castanheiras na Reserva do Uatumã - Foto: Evandro Orfanomo
O aplicativo NetFlora tem 98% de assertividade e foi
originalmente desenvolvido para a identificação de
espécies madeireiras e agora reconhece castanheiras
na Reserva do Uatumã – Foto: Evandro Orfanomo
Mapa das trilhas de coleta com a localização das castanheiras, com precisão por meio do celular mesmo quando não há conexão com a internet
Mapa das trilhas de coleta com a localização das
castanheiras, com precisão por meio do celular
mesmo quando não há conexão com a internet

O avanço tecnológico também altera a escala possível dos inventários florestais. Em uma demonstração realizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Uatumã, no Amazonas, o Netflora identificou 604 castanheiras e mais de 14 mil outras árvores em 1.150 hectares, após pouco mais de duas horas de sobrevoo. Pelo método convencional, a mesma área exigiria dezenas de dias de trabalho de campo. A metodologia já acumulava mais de 70 mil hectares mapeados na Amazônia em avaliação anterior e pode alcançar até 3.500 hectares por dia, segundo a Embrapa. A automação reduz custos e abre espaço para que inventários sejam incorporados com maior frequência ao planejamento produtivo.

Além da localização, as imagens processadas pelo sistema podem fornecer informações sobre características das árvores, como área de copa e outras métricas utilizadas na avaliação florestal. A inteligência artificial amplia a capacidade de transformar imagens em dados úteis para o manejo, permitindo reconhecer espécies de interesse econômico e ambiental. A metodologia já foi empregada para identificar castanheiras e também pode reconhecer outras espécies, entre elas palmeiras e árvores com potencial de aproveitamento. Esse banco de informações cria uma base para estimar recursos disponíveis, acompanhar mudanças na floresta e apoiar decisões relacionadas à exploração sustentável de produtos florestais não madeireiros.

Coletadoras mapeiam trilhas no aplicativo para localizar castanheiras na floresta e organizar a coleta - Foto: Maurícilia Pereira
Coletadoras mapeiam trilhas no aplicativo para
localizar castanheiras na floresta e organizar a coleta
Foto: Maurícilia Pereira
Com os mapas digitais, mesmo em áreas sem conexão com a internet, coletoras encontram a castanheira e avaliam quantidade de ouriços - Foto: Maurícilia Pereira
Com os mapas digitais, mesmo em áreas sem conexão
com a internet, coletoras encontram a castanheira e
avaliam quantidade de ouriços – Foto: Maurícilia Pereira

Para os extrativistas, entretanto, o principal ganho está na possibilidade de associar tecnologia ao conhecimento acumulado sobre a floresta. Ao visualizar novas castanheiras próximas às trilhas existentes, por exemplo, a comunidade pode reorganizar percursos e ampliar a área de coleta. O mapa digital passa a funcionar como uma ferramenta de planejamento da safra, inclusive em anos de menor produção, quando contar com um número maior de árvores conhecidas pode ajudar a compensar oscilações. A solução também pode contribuir para delimitar trilhas e áreas de uso, reduzindo dúvidas entre comunidades vizinhas e melhorando a gestão territorial.

O alcance econômico e ambiental da tecnologia vai além da produtividade imediata. A castanha-da-amazônia possui importância central para a economia de diversas comunidades e está associada à conservação da floresta em pé. Ao reduzir custos de inventário, ampliar a capacidade de monitoramento e facilitar o planejamento das rotas, o Netflora cria condições para uma gestão mais eficiente dos recursos florestais, ao mesmo tempo em que valoriza uma atividade tradicional. A experiência mostra como drones e inteligência artificial podem deixar de ser ferramentas restritas a grandes operações e chegar às comunidades, contribuindo para uma bioeconomia baseada em informação, uso responsável dos recursos naturais e geração de renda a partir da floresta preservada.

Leia também: