Biomas concentram patrimônio estratégico para a inovação farmacêutica e a Amazônia desponta como patrimônio estratégico para a bioeconomia mundial
As florestas tropicais deixaram de ser vistas apenas como reservas de biodiversidade para ocupar posição estratégica na economia do conhecimento. Uma análise da organização Zero Carbon Analytics estima que esses ecossistemas concentram um potencial de até US$ 1,2 trilhão em novos medicamentos ainda não descobertos, além de um impacto social estimado em US$ 7 trilhões para a saúde global, considerando os benefícios futuros proporcionados por tratamentos capazes de reduzir custos hospitalares, ampliar a qualidade de vida e elevar a eficiência dos sistemas públicos e privados de saúde. O levantamento amplia o debate sobre o valor econômico da conservação ambiental.
O estudo parte do princípio de que a biodiversidade funciona como uma verdadeira biblioteca genética, reunindo milhões de espécies vegetais, fungos e microrganismos que armazenam estruturas químicas ainda desconhecidas pela ciência. Cada organismo representa uma possibilidade de descoberta para a indústria farmacêutica, cuja pesquisa depende cada vez mais da identificação de compostos naturais capazes de originar medicamentos inovadores. Sob essa perspectiva, a preservação das florestas passa a ser entendida como investimento estratégico em ciência, inovação, desenvolvimento econômico e segurança sanitária, e não apenas como política ambiental.
A dimensão financeira impressiona. Segundo a análise, o valor farmacêutico ainda preservado nas florestas tropicais equivale a quase cinco vezes o custo da resposta mundial à pandemia de Covid-19, estimada em aproximadamente US$ 246,2 bilhões. A comparação demonstra que o patrimônio biológico existente nesses ecossistemas possui relevância econômica comparável aos maiores investimentos globais em saúde pública. Para pesquisadores e formuladores de políticas ambientais, essa relação evidencia que o desmatamento representa não apenas uma perda ecológica, mas também um risco crescente para a inovação biomédica nas próximas décadas.

de plantas, fungos e microrganismos, apenas duas das 15 maiores
farmacêuticas anunciaram aportes específicos para biodiversidade
Foto: Mario Tama
A Amazônia reúne uma das maiores reservas mundiais de inovação biomédica
Entre todas as regiões analisadas, a Bacia Amazônica aparece como uma das áreas de maior potencial farmacêutico do planeta, reunindo um valor estimado de aproximadamente US$ 214,7 bilhões associado à descoberta de novos medicamentos. A região concentra uma das maiores diversidades biológicas conhecidas e abriga milhares de espécies vegetais ainda pouco estudadas sob a ótica da química medicinal. Para o Brasil, esse patrimônio amplia a importância estratégica da floresta, conectando conservação ambiental, bioeconomia, pesquisa científica e oportunidades futuras de desenvolvimento tecnológico.
O levantamento alerta, porém, que parte desse patrimônio científico pode já ter sido comprometida pelo avanço do desmatamento. Desde 2001, entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões do potencial farmacêutico da Amazônia podem ter sido perdidos antes mesmo de serem conhecidos pela ciência. A estimativa considera que inúmeras plantas, fungos e microrganismos desaparecem juntamente com áreas convertidas para outros usos do solo, eliminando moléculas naturais que poderiam servir de base para novos tratamentos contra doenças ainda sem terapias plenamente eficazes.
Em escala global, os impactos tornam-se ainda mais expressivos. A pesquisa calcula que o desmatamento tropical ocorrido desde 2001 pode ter eliminado cerca de US$ 86 bilhões em valor comercial farmacêutico, dentro de um intervalo estimado entre US$ 46 bilhões e US$ 142 bilhões. Quando incorporados os benefícios sociais relacionados à melhoria da saúde humana, a perda alcança aproximadamente US$ 860 bilhões. Os autores ressaltam ainda que a estimativa permanece conservadora, pois contempla apenas compostos presentes em plantas de florestas tropicais e subtropicais, sem incluir organismos marinhos, ambientes de água doce, fungos ou outros ecossistemas igualmente promissores para a pesquisa farmacêutica.

Medicamentos que nasceram da biodiversidade comprovam o valor da conservação
A relação entre biodiversidade e desenvolvimento farmacêutico não pertence apenas ao campo das projeções. Diversos medicamentos consagrados pela medicina moderna tiveram origem em espécies vegetais encontradas na natureza, demonstrando que a conservação dos ecossistemas gera benefícios concretos para a sociedade. Um exemplo emblemático é a pilocarpina, utilizada no tratamento do glaucoma e da xerostomia, extraída do jaborandi (Pilocarpus microphyllus), planta nativa das florestas brasileiras. O caso reforça como recursos genéticos presentes em ambientes naturais podem transformar conhecimento científico em soluções terapêuticas de elevado impacto econômico e social.
Outro exemplo amplamente conhecido é o paclitaxel, comercializado como Taxol, originalmente isolado do teixo-do-Pacífico (Taxus brevifolia), uma espécie de árvore da família Taxaceae nativa da América do Norte, e hoje utilizado em diferentes protocolos oncológicos. Segundo os dados reunidos pelo estudo, o medicamento já beneficiou mais de um milhão de pacientes e registrou vendas de aproximadamente US$ 1,7 bilhão em 2025. Também integram essa trajetória moléculas como a vincristina, a vimblastina e a quinina, além de terapias modernas cuja estrutura química foi inspirada em compostos naturais. Esses casos demonstram que proteger a biodiversidade significa preservar oportunidades futuras para a medicina, a ciência e a economia.

Amazônia essencial para a medicina moderna, única fonte
natural conhecida da pilocarpina, medicamento usado no
tratamento de glaucoma, síndrome de Sjögren e xerostomia.
A espécie tem sido pressionada pelo manejo e coleta
inadequados e pela perda de habitat
Investimentos ainda não acompanham a dependência da indústria farmacêutica da biodiversidade
Apesar da estreita relação entre biodiversidade e inovação biomédica, o estudo aponta um descompasso entre a importância estratégica dos recursos naturais e o volume de investimentos destinados à sua conservação. Entre as 15 maiores empresas farmacêuticas do mundo, apenas a AstraZeneca e a Novo Nordisk Foundation anunciaram aportes financeiros específicos voltados à biodiversidade. Os compromissos divulgados somam US$ 400 milhões e entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões, respectivamente, enquanto as demais companhias analisadas apresentam metas ambientais, mas sem valores claramente destinados à proteção dos ecossistemas.
O contraste torna-se mais evidente quando comparado à dimensão econômica do setor. A indústria farmacêutica movimentou cerca de US$ 1,7 trilhão em 2025, sustentando parte de sua capacidade de inovação na identificação de produtos naturais e no acesso às chamadas Informações de Sequências Digitais (DSI), que reúnem dados genéticos armazenados em bancos públicos e privados. Essas informações permitem acelerar pesquisas sem a coleta física do material biológico, ampliando o alcance da biotecnologia. Ainda assim, a conservação das áreas que originam esse patrimônio genético continua concentrando custos elevados para os países detentores da biodiversidade.
Segundo a análise, a continuidade das atuais taxas de desmatamento poderá eliminar até US$ 145 bilhões adicionais em potencial farmacêutico até 2050. Em um cenário alternativo, interromper a perda de florestas até 2030 reduziria significativamente esse prejuízo, limitando as perdas comerciais a aproximadamente US$ 9 bilhões. A diferença representa cerca de US$ 79 bilhões preservados em valor privado e aproximadamente US$ 800 bilhões em benefícios sociais relacionados à saúde, evidenciando que políticas eficazes de conservação produzem retorno econômico muito superior ao custo necessário para sua implementação.

registrou aumento alarmante no desmatamento
Governança internacional busca ampliar a repartição dos benefícios da biodiversidade
A proteção das florestas tropicais também ocupa posição central na agenda internacional sobre clima e biodiversidade. Mais de 140 países assumiram, durante a COP26, o compromisso de deter e reverter a perda de florestas até 2030, reconhecendo que esses ecossistemas exercem papel decisivo na estabilidade climática, na segurança hídrica e na preservação do patrimônio genético mundial. Além da Amazônia, o Sudeste Asiático e a Bacia do Congo concentram aproximadamente 54% do potencial farmacêutico identificado pelo estudo, tornando essas regiões prioritárias para estratégias globais de conservação.
O levantamento também chama atenção para uma assimetria econômica entre quem conserva a biodiversidade e quem obtém os maiores ganhos financeiros com sua utilização. Grande parte dos recursos naturais encontra-se em países do Sul Global, frequentemente preservados por povos indígenas e comunidades tradicionais. Entretanto, as maiores empresas farmacêuticas e de biotecnologia permanecem sediadas principalmente na Europa, nos Estados Unidos e no Japão. A expansão dos bancos digitais de informações genéticas ampliou esse cenário, permitindo o desenvolvimento de pesquisas sem a necessidade de acessar fisicamente os territórios onde os recursos biológicos foram originalmente identificados.
Nesse contexto, ganha relevância o Fundo Cali, criado durante a COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica para estabelecer mecanismos de repartição mais equilibrada dos benefícios econômicos provenientes do uso das Informações de Sequências Digitais. A proposta prevê que empresas que comercializam esses dados contribuam com 1% do lucro global ou 0,1% da receita anual. Metade dos recursos deverá ser destinada diretamente aos povos indígenas e comunidades locais responsáveis pela conservação dos ecossistemas. Apesar do avanço institucional, os pesquisadores observam que os recursos efetivamente comprometidos ainda permanecem muito abaixo do necessário para atender à dimensão desse desafio.

e ricos, estendendo-se por países como Indonésia, Malásia e Mianmar,
áreas de grande biodiversidade que sustentam uma fauna única,
mas enfrentam graves ameaças decorrentes da exploração
madeireira e da produção de óleo de palma
Conservação ambiental ganha novo significado para a economia do conhecimento
Para estimar o valor econômico das florestas tropicais, os pesquisadores utilizaram metodologias semelhantes às adotadas pela própria indústria farmacêutica. Cada medicamento potencial recebeu um valor presente líquido ajustado ao risco, indicador amplamente empregado para calcular a probabilidade de sucesso comercial de moléculas em desenvolvimento. Esses resultados foram distribuídos conforme a diversidade de plantas existente em cada região tropical e cruzados com imagens de satélite que monitoram o avanço do desmatamento, produzindo um modelo capaz de mensurar os efeitos econômicos da perda de biodiversidade.
O relatório reconhece limitações inerentes ao modelo estatístico, mas ressalta que as simulações foram executadas repetidas vezes, gerando uma estimativa central acompanhada de um intervalo de confiança de 90%. Uma das premissas considera que cada composto natural possui caráter insubstituível, assumindo que sua eliminação pelo desmatamento representa a perda definitiva daquele potencial terapêutico. Mesmo adotando parâmetros conservadores e contabilizando apenas o período protegido por patentes para estimar o retorno privado, os resultados reforçam a dimensão econômica associada à conservação dos ecossistemas tropicais.
Mais do que atribuir cifras à biodiversidade, o estudo amplia a compreensão sobre o papel estratégico das florestas no desenvolvimento científico, tecnológico e econômico. A conservação deixa de ser vista apenas como uma responsabilidade ambiental e passa a integrar uma agenda de inovação, competitividade e segurança sanitária global. Para países megadiversos como o Brasil, onde a Amazônia reúne uma das maiores reservas genéticas do planeta, preservar o patrimônio natural significa proteger oportunidades futuras para a bioeconomia, estimular novas cadeias de valor e consolidar uma posição de protagonismo em um mercado que tende a ganhar importância nas próximas décadas.