Manchetes da semana – 12 a 18-09-2026

Brasil conquista novos mercados com cota chinesa no centro do debate

Duas frentes simultâneas movimentaram a agenda sanitária brasileira em setembro. De um lado, as autoridades de Cuba e do México comunicaram ao Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) o aceite dos requisitos para novos fluxos de exportação: Cuba aprovou frutos frescos de maçã, uva, pera e laranja, enquanto o México liberou proteínas de bovinos não hidrolisadas, o colágeno, item de maior valor agregado que amplia a pauta da indústria de origem animal. De outro, uma missão de autoridades sanitárias chinesas iniciou auditoria em frigoríficos brasileiros, com inspeções previstas nas unidades da JBS em Vilhena (RO), da Minerva Foods em Rolim de Moura (RO) e da Marfrig em Promissão (SP). O objetivo declarado é reabilitar plantas suspensas ao longo de 2026, habilitar novos estabelecimentos e ampliar a venda de miúdos, segmento de margem relevante para a indústria. A leitura do mercado, porém, pede cautela, porque a visita é etapa técnica e a decisão final cabe à Administração-Geral das Alfândegas da China. Com a cota brasileira de 1,106 milhão de toneladas preenchida e o excedente sujeito a tarifa adicional de 55%, o boi-China seguiu cotado em torno de R$ 350 por arroba em São Paulo, o que indica que a abertura de plantas não altera de imediato o prêmio pago ao pecuarista.

Ig Nobel 2026 reconhece estudo brasileiro sobre o comportamento defensivo das jararacas

Um experimento conduzido no Brasil com jararacas (Bothrops jararaca) rendeu ao país o Ig Nobel de Biologia de 2026(NEG), premiação organizada pela revista Annals of Improbable Research que reconhece estudos capazes de provocar o riso antes da reflexão. A pesquisa reuniu mais de 40 mil contatos controlados com 116 serpentes da espécie jararaca, sempre com apoio de bota de proteção, para medir como temperatura, horário e características individuais dos animais influenciam a resposta defensiva diante da aproximação humana. A pergunta por trás do desenho experimental é menos exótica do que sugere o prêmio: entender as circunstâncias que elevam a probabilidade de acidentes ajuda a orientar rotinas de trabalho no campo, no manejo de áreas de vegetação nativa e em atividades que colocam trabalhadores rurais em contato direto com a fauna. Assinaram o trabalho João Miguel Alves-Nunes, Adriano Fellone, Selma Maria Almeida-Santos, Carlos Roberto de Medeiros, Ivan Sazima e Otavio Augusto Vuolo Marques, laureados na cerimônia de 3 de setembro de 2026. O reconhecimento, no entanto, convive com uma controvérsia relevante para o debate científico: o artigo foi retratado em 2025 por questões éticas e metodológicas por uma revista do grupo Scientific Reports, decisão da qual os autores discordaram, sem que isso tenha retirado o grupo da lista de vencedores do Ig Nobel.

Holandesa MJ Filhos Favorita alcançou 129,250 kg de leite em 24 horas
Holandesa MJ Filhos Favorita alcançou 129,250 kg de leite em 24 horas

Favorita entra para a história dos torneios leiteiros com média inédita

A pecuária leiteira do Sul de Minas ganhou um novo marco numérico neste mês. A vaca holandesa MJ Filhos Favorita, registrada sob o número HOBRAF149711, produziu média de 118,462 quilos de leite por dia ao longo do torneio leiteiro da Agroshow Itajubá 2026, encerrando a competição com a maior média diária já registrada em disputas do tipo no país. Em sua melhor aferição, o animal alcançou 129,250 quilos em 24 horas, e os três dias de prova somaram aproximadamente 355,386 quilos. O evento ocorreu entre 3 e 6 de setembro, no Expo Center Park, em Itajubá, e projetou também o Sítio Santa Luzia, propriedade responsável pela preparação do animal. A leitura técnica exige separar duas métricas que o público costuma confundir. O recorde de Favorita está na regularidade, ou seja, na média sustentada ao longo da competição. Em pico diário isolado, o Brasil já registrou marcas superiores: em 2023, a holandesa Poesia produziu 144,2 quilos em três ordenhas no Torneio Aberto de Leite de Passos (MG), superando os 132,2 quilos da também holandesa Baleia. Outro caso recente foi o da vaca Eva Eros Campos Lima 19043, com mais de 343 quilos em três dias, média acima de 114 quilos e pico de cerca de 120,8 quilos. Os números confirmam o avanço do melhoramento genético e do manejo nutricional em rebanhos de alta performance.

Acordo com Marrocos pode cobrir 76% do déficit brasileiro de fosfatados

A dependência brasileira de fertilizantes importados voltou ao centro da agenda diplomática com a missão do ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, ao Marrocos. O compromisso em negociação prevê o fornecimento de 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados ao mercado brasileiro na safra 2026/27, volume equivalente a 76% do déficit de 5 milhões de toneladas estimado pelo governo. Para soja, milho, algodão, trigo e cana, o fósforo é nutriente decisivo na formação de raízes e de estruturas reprodutivas, o que torna o insumo componente direto do custo de produção e da margem do produtor. A pauta, porém, vai além do adubo. Em agosto, o governo marroquino suspendeu até dezembro de 2026 as tarifas de importação de carnes bovina, ovina, caprina e camelídea, além de ovinos vivos, medida que interessa à indústria frigorífica brasileira em busca de diversificação de destinos. Segundo dados do Ministério da Agricultura, o Brasil respondeu por 27% das importações marroquinas de carnes vermelhas em 2024, ocupando a segunda posição entre os fornecedores. O acordo reforça a lógica de segurança de insumos e de abertura comercial simultânea, duas frentes que dependem de negociação estável para se converterem em contrato.

Operação internacional investiga tráfico de cavalos e falsificação de identidade animal

Uma operação internacional de combate ao tráfico de animais mobilizou quase 200 agentes em quatro países europeus, com foco em uma rede suspeita de adulterar a identidade e o histórico de equinos e de encaminhar parte dos animais ao abate de forma irregular. A investigação é conduzida pela Bélgica com apoio da Europol e alcançou 24 buscas em território belga, francês, irlandês e holandês. O balanço divulgado após a ação registra mais de mil cavalos inspecionados, mais de 100 mil euros apreendidos e três pessoas presas na Bélgica. O caso expõe uma fragilidade que interessa diretamente ao agronegócio e à sanidade animal: a rastreabilidade de equinos, espécie cujo valor individual pode justificar operações sofisticadas de falsificação documental. Quando origem, histórico reprodutivo e uso do animal deixam de ser verificáveis, abre-se espaço para fraudes que afetam desde o mercado de genética e dos esportes equestres até o controle sanitário e a segurança alimentar. As autoridades indicam que a investigação segue em andamento e que novos desdobramentos podem surgir a partir do material apreendido, o que tende a pressionar por sistemas de identificação mais robustos e por integração entre bases de dados no continente.

Lei de Bioinsumos foi sancionada em dezembro de 2024 e aguarda regulamentação e decreto define conceito, classificação, registro e regras para estabelecimentos
Lei de Bioinsumos foi sancionada em dezembro de 2024
e aguarda regulamentação e decreto define conceito,
classificação, registro e regras para estabelecimentos

Regulamentação de bioinsumos deve sair ainda em setembro

O governo federal prepara o decreto que regulamenta a Lei de Bioinsumos (Lei nº 15.070, de 23 de dezembro de 2024), texto aguardado pelo setor produtivo há mais de um ano e meio e cuja publicação deve ocorrer ainda em setembro. De acordo com a minuta em discussão no Ministério da Agricultura e Pecuária, o decreto tem três funções centrais: refinar o conceito de bioinsumos e sua classificação, definir os procedimentos de registro dos produtos e estabelecer as regras aplicáveis aos estabelecimentos da cadeia, dos laboratórios de multiplicação às unidades industriais. O ponto mais sensível está no tratamento dos defensivos biológicos produzidos nas próprias fazendas, prática conhecida como produção on farm. O texto em análise prevê hipóteses de isenção de registro para determinados produtos e para bioinsumos destinados exclusivamente ao uso próprio, o que divide a indústria de insumos e o produtor rural. A indústria de fertilizantes e biológicos tende a ganhar com regras mais claras de categorização e com a previsibilidade jurídica que faltava desde a sanção da lei. A regulamentação do uso agrícola dentro da porteira segue como o trecho mais controverso, com entidades do agronegócio pedindo acesso à redação final antes da publicação no Diário Oficial.

Brasil e China ampliam energia eólica na caatinga

A cooperação sino-brasileira em energia renovável avançou no semiárido com um projeto de geração eólica que combina financiamento internacional, tecnologia e aproveitamento de um recurso natural ainda subutilizado. O empreendimento recebeu, em setembro de 2025, 1,4 bilhão de yuans em moedas locais do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco do BRICS, e prevê a instalação de 23 parques eólicos distribuídos em cinco municípios na região da caatinga. A capacidade instalada deve abastecer o equivalente a 720 mil residências e evitar a emissão de mais de 2 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono por ano. O interesse técnico está no perfil de vento do bioma: velocidades médias elevadas e regime regular sustentam altos fatores de capacidade, condição que melhora a previsibilidade da geração e a atratividade econômica dos ativos. Para o agronegócio, o efeito é indireto, mas relevante. Parques eólicos no semiárido ampliam a oferta de eletricidade em uma região estratégica para a produção de frutas, de grãos e para a pecuária, além de dialogarem com a agenda de transição energética que ganha peso nas exigências de compradores internacionais. A execução, no entanto, depende de licenciamento ambiental, conexão à rede e cronograma de obras, etapas que costumam definir o ritmo real de projetos desse porte.

Brasil e EUA marcam a primeira reunião presencial sobre o tarifaço

Brasil e Estados Unidos marcaram para 30 de setembro e 1º de outubro a primeira reunião presencial desde a retomada das negociações sobre o tarifaço. O encontro ocorrerá em Milwaukee, nos Estados Unidos, à margem da agenda preparatória do G20, com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e o representante comercial americano, Jamieson Greer, à frente das conversas. O Brasil chega à mesa sob pressão concreta. De janeiro a agosto de 2026, as exportações brasileiras aos Estados Unidos somaram o equivalente a R$ 123,6 bilhões, recuo de 9,7% na comparação com o mesmo período de 2025, o que representa aproximadamente R$ 13,3 bilhões em vendas não realizadas. Os valores foram convertidos a uma taxa de R$ 5,13 e têm como base dados do Mdic compilados pela Amcham Brasil. A sobretaxa americana acrescenta de 25% a 37,5% ao custo de entrada de diferentes produtos brasileiros, o que encarece a mercadoria para o importador e reduz a competitividade do fornecedor. A pauta deve incluir a redução das sobretaxas, eventuais exceções por produto e as exigências apresentadas pelo USTR. Para o agronegócio, cada ponto percentual negociado tem efeito direto sobre volume embarcado e sobre a rentabilidade dos embarques.

Quatorze animais testaram positivo entre 16 amostras coletadas no estado e vacinação alcançou cerca de 23 mil animais e 516 propriedades, com bloqueio sanitário em raio de 12 km
Quatorze animais testaram positivo entre 16 amostras coletadas
no estado e vacinação alcançou cerca de 23 mil animais e 516
propriedades, com bloqueio sanitário em raio de 12 km

Foco de raiva dos herbívoros mobiliza a defesa sanitária em Rondônia

A defesa sanitária de Rondônia entrou em regime de mobilização após a confirmação de um foco de raiva dos herbívoros no estado. Segundo a Agência de Defesa Sanitária Agrosilvopastoril do Estado de Rondônia (Idaron), 14 animais apresentaram resultado positivo entre 16 amostras coletadas, sendo uma negativa e uma ainda em análise no momento do balanço. O protocolo adotado pelas equipes abrange um raio de aproximadamente 12 quilômetros ao redor dos casos confirmados, área em que já foram notificadas 516 propriedades e vacinados cerca de 23 mil animais, incluindo bovinos, equinos, suínos, caprinos e ovinos. A doença é causada por vírus, tem letalidade elevada em animais infectados e representa risco também para seres humanos, o que explica a resposta rápida e o bloqueio da área. Do ponto de vista econômico, focos dessa natureza afetam o comércio local de animais vivos, restringem a movimentação de rebanhos e pressionam os custos com vacinação e vigilância. O controle de morcegos hematófagos, a manutenção da caderneta de vacinação em dia e a notificação imediata de sinais neurológicos em bovinos seguem como as três medidas centrais de prevenção, e a ampliação da cobertura vacinal é o caminho técnico para reduzir a circulação viral no ambiente rural.

Copom corta Selic pela quinta vez

Em meio ao agravamento da guerra no Oriente Médio e ao retorno do fenômeno El Niño, o Comitê de Política Monetária (Copom) decidiu, por unanimidade, reduzir a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 13,75% ao ano, o quinto corte consecutivo do ciclo de afrouxamento iniciado em abril. A decisão, já esperada pelo mercado financeiro, sucede um período em que a taxa básica permaneceu em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, o maior patamar em quase duas décadas. O movimento foi amparado pela desaceleração da inflação: o IPCA registrou deflação de 0,32% em agosto, o melhor resultado em quatro anos, com os preços de alimentos recuando 0,34% no mês e o acumulado em 12 meses caindo de 4,44% para 4,22%. Para o agronegócio, o novo patamar tende a baratear o custo do crédito rural, reduzindo o custo financeiro do custeio, das aquisições de máquinas e da comercialização da safra. O alívio, porém, vem acompanhado de cautela: o efeito do El Niño sobre a oferta de alimentos e a pressão cambial podem recolocar a inflação acima do teto de 4,5% da meta contínua perseguida pelo Banco Central, que projeta crescimento de 2% para a economia brasileira neste ano.

O fantasma de 2024: a nova seca amazônica tende a ser pior

O retorno do El Niño em 2026 recoloca a amazônia no centro do alerta climático nacional, e os números deste mês confirmam a gravidade do cenário. Mapeamento do Mapbiomas mostra que 2.172 localidades do bioma, cerca de 38% dos territórios analisados pelo IBGE, estiveram altamente expostas à seca durante o fenômeno de 2024, e a expectativa dos pesquisadores é de que o evento deste ano seja ainda mais severo, elevando a probabilidade de nova estiagem nas mesmas regiões, sobretudo no sul do Amazonas e em Santarém (PA). Na prática, a seca compromete diretamente as atividades que dependem dos rios, como a agricultura de várzea, a pesca e o transporte de cargas, além do abastecimento de comunidades isoladas. Os efeitos já aparecem nos indicadores: o Rio Negro recuou 2,57 metros somente em setembro, e o Amazonas contabiliza 11 municípios em emergência, 12 em alerta e 14 em atenção, segundo a Defesa Civil estadual, que mantém monitoramento hidrológico permanente e prepara a distribuição de cestas básicas e purificadores de água. Lideranças ribeirinhas, reunidas em audiência promovida pela Cáritas de Manaus, cobram investimentos estruturais, como poços, sistemas de irrigação e alternativas de transporte, em uma carta que sintetiza a demandas: cestas emergenciais não substituem o direito de produzir.

Chamamento público abre caminho para novos operadores ferroviários e reativação de trilhos ociosos pode baratear o frete dos grãos
Chamamento público abre caminho para novos
operadores ferroviários e reativação de trilhos
ociosos pode baratear o frete dos grãos

Governo quer reativar 10 mil km de ferrovias ociosas

A logística brasileira ganhou um novo horizonte com a carteira de projetos apresentada pelo Ministério dos Transportes para a reativação de cerca de 10 mil quilômetros de ferrovias atualmente ociosas, desativadas ou em processo de devolução. A proposta, que será viabilizada por meio de chamamento público, tem como referência a estrutura de exploração desenvolvida para o Corredor Minas-Rio, um modelo que combina investimento privado, segurança jurídica e metas de desempenho. Para o agronegócio, o impacto potencial é expressivo: grande parte desses trechos atravessa regiões produtoras de grãos e a retomada do modal ferroviário reduziria a dependência do transporte rodoviário, barateando o frete e ampliando a competitividade das cargas brasileiras nos portos. A medida dialoga com o movimento mais amplo de expansão da malha nacional, que prevê novos leilões e investimentos bilionários nos próximos anos. O desafio, como apontam especialistas, está na engenharia financeira dos contratos e na necessidade de compatibilizar a reativação dos trechos com a demanda efetiva de cargas, evitando que o passivo de infraestrutura se converta apenas em custo de manutenção. O anúncio, de todo modo, indica prioridade estratégica do governo para o escoamento da produção e para a redução do custo Brasil.

UE aceita protocolos e frango volta ao radar europeu

Depois de meses de negociação, a União Europeia enviou correspondência oficial ao governo brasileiro informando que aprovou os protocolos e controles sanitários adotados pelo país no uso de antimicrobianos na produção de alimentos, etapa considerada decisiva para a relistagem do Brasil e a retomada das exportações de carne de frango ao bloco. A confirmação, anunciada pelo secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Cleber Oliveira Soares, encerra o ciclo de avaliações iniciado com a auditoria técnica realizada em frigoríficos e no sistema de defesa agropecuária nacional. A suspensão, aplicada pela Comissão Europeia em maio e em vigor desde 3 de setembro, havia retirado o país da lista de exportadores autorizados de produtos de origem animal, atingindo também bovinos, ovos, mel e pescados. Agora o mercado aguarda a divulgação do protocolo detalhado com os trâmites práticos para o reembarque das cargas. A reabertura tem peso econômico relevante, sobretudo para o Paraná, maior produtor e exportador nacional de aves, que pode recuperar um mercado de quase US$ 400 milhões. Antes da restrição, as vendas de frango brasileiro ao bloco haviam crescido 73% entre janeiro e julho deste ano, ritmo que evidencia a importância do destino europeu para a avicultura nacional.

China volta ao jogo: compradores já negociam carne brasileira para 2027

Após praticamente desaparecer do mercado em agosto, quando importou apenas 18,9 mil toneladas de carne bovina brasileira, queda de 88,2% na comparação anual, a China volta a ocupar o centro das atenções dos pecuaristas. A avaliação de especialista do setor é de que os compradores chineses devem intensificar as aquisições entre o fim de setembro e o início de outubro, negociando cargas com chegada prevista para janeiro de 2027, quando passa a valer a nova cota de 1,128 milhão de toneladas. A retração de agosto ocorreu porque a cota de 2026, de 1,106 milhão de toneladas, ficou praticamente comprometida antes do fim do ano, com tarifa adicional de 55% sobre os volumes excedentes. No mercado físico, a arroba chegou a recuar para a casa dos R$ 325 no período mais crítico, mas a oferta controlada de animais terminados evitou quedas mais acentuadas e sustenta a cotação. No mercado futuro, a B3 já precifica o boi gordo em R$ 386,15 por arroba para janeiro de 2027, sinal de que os agentes enxergam espaço para recuperação. A retomada do fluxo com a China, somada à redução do descarte de fêmeas e à transição do ciclo pecuário, compõe um cenário de firmeza para a atividade, ainda condicionado ao câmbio, ao consumo doméstico e à missão técnica chinesa que chega ao Brasil para novas habilitações.

Tanques de criação de tilápia em sistema intensivo de produção. O peixe responde por cerca de 70% da piscicultura brasileira
Tanques de criação de tilápia em sistema intensivo
de produção. O peixe responde por cerca de 70%
da piscicultura brasileira

Mercado bilionário da tilápia entra no radar da maior processadora de carnes do mundo

A indústria brasileira de proteínas pode estar diante de um marco de consolidação. A JBS, maior empresa de processamento de carnes do mundo, estuda ingressar na piscicultura nacional em grande escala, combinando ativos próprios e aquisições. O alvo natural do movimento é a tilápia, espécie que alcançou 707.495 toneladas em 2025, alta de 6,83% sobre o ano anterior, e responde por cerca de 70% da produção aquícola do país. O mercado brasileiro de peixes movimenta mais de R$ 10 bilhões por ano. A estratégia encontra terreno fértil no Paraná, principal polo produtor, onde a companhia já opera com milho e soja em suas cadeias de aves e suínos, insumos que compõem a ração da piscicultura intensiva. A experiência internacional reforça o interesse: a JBS controla a Huon Aquaculture na Austrália, uma das maiores produtoras de salmão do mundo. Caso o projeto avance, o movimento pode inaugurar nova etapa de industrialização do setor, com efeitos sobre cooperativas e empresas verticalizadas já estabelecidas, embora a companhia não confirme negociações, valores ou prazos. A leitura do mercado é de que a concentração de capital e tecnologia tende a elevar os padrões sanitários e produtivos de toda a cadeia.

Abipesca leva ao Mapa demanda por retomada das exportações à Europa

A cadeia brasileira de pescados levou ao Ministério da Agricultura uma pauta dupla e urgente: acelerar a reabertura do mercado europeu e conter a pressão das importações sobre a tilapicultura nacional. Em encontro realizado em agosto, o presidente da Abipesca, Eduardo Lobo, e representantes de empresas associadas cobraram do secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Augusto Luis Billi, celeridade nos trâmites diplomáticos e sanitários após a auditoria europeia realizada no país. Para a indústria, a recuperação do destino europeu representa oportunidade estratégica de diversificar o escoamento da produção e ampliar a presença do pescado brasileiro no comércio internacional. Em paralelo, o setor alerta para o crescimento expressivo das importações de filés de tilápia, com volumes relevantes vindos do Vietnã, que pressionam os preços internos e as margens dos produtores em um momento de dificuldades pontuais nas vendas externas. A manutenção de condições justas de concorrência é apontada como condição para a sustentabilidade da tilapicultura nacional, que segue como principal frente de expansão da aquicultura brasileira. A sinalização do governo de priorizar o tema indica que a agenda sanitária e comercial do pescado deve avançar em paralelo nos próximos meses.

Governo define áreas prioritárias do cerrado para proteger a segurança hídrica

A segurança hídrica do país ganhou um novo instrumento de planejamento com a definição de áreas prioritárias de conservação no cerrado, anunciada pelo governo federal. As chamadas APRHICs, voltadas à proteção de regiões estratégicas de recarga hídrica, nascem para suprir uma lacuna da Lei de Proteção da Vegetação Nativa(Código Florestal – Lei nº12.651, de 25 de maio de 2012), que resguarda margens de rios e nascentes, mas não cobre com a mesma eficácia as áreas responsáveis por alimentar aquíferos e manter o fluxo dos mananciais nos períodos secos. A relevância do bioma é estrutural: mais de 3 mil nascentes do cerrado contribuem para o abastecimento de bacias como São Francisco, Paraná, Araguaia, Tocantins e Paraguai, além das bacias da margem esquerda do Amazonas, que sustentam a agricultura irrigada, o abastecimento urbano e a geração de energia em boa parte do país. O novo instrumento, segundo o Ministério do Meio Ambiente, poderá direcionar recursos e programas governamentais de proteção e restauração, antecipando ações antes que o passivo do desmatamento se converta em escassez de água. A expectativa é que o mapeamento sirva de base para políticas estaduais e projetos de pagamento por serviços ambientais, conectando conservação e rentabilidade para o produtor rural.

Pesquisadora carrega um mico-leão-caiçara em uma gaiola, pouco após a captura para fins de pesquisa e vacinação - Foto: Gabriel Marchi
Pesquisadora carrega um mico-leão-caiçara em uma
gaiola, pouco após a captura para fins de pesquisa
e vacinação – Foto: Gabriel Marchi

Vacinação inédita protege mico-leão-de-cara-preta contra febre amarela no Paraná

A conservação de primatas da Mata Atlântica registrou um avanço inédito: três micos -leão-de-cara-preta (Leontopithecus caissara), espécie que também recebe o nome de mico-leão-caiçara, dois machos e uma fêmea, foram vacinados contra a febre amarela no Parque Nacional do Superagui, no litoral norte do Paraná, e outros seis devem receber a dose na segunda quinzena de setembro no Parque Estadual do Lagamar de Cananéia, em São Paulo. A iniciativa, conduzida pela SPVS no Paraná e pela Fundação Florestal em território paulista, aplica pela primeira vez em ambiente natural um imunizante adaptado dos programas de vacinação do mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), desenvolvido com apoio da Fiocruz após o surto de febre amarela que atingiu a espécie entre 2017 e 2018. A relevância do manejo está na dimensão da população: estima-se que vivam cerca de 400 micos-leões-caiçara na Mata Atlântica, e a espécie, descrita na década de 1990, pesa entre 500 e 700 gramas e vive em grupos de dois a seis indivíduos. Cientistas, em parceria com órgãos como o ICMBio, já recapturaram os animais vacinados para coletar sangue e avaliar a resposta imunológica, com a expectativa de que uma única dose garanta proteção vitalícia, como ocorre em humanos. O plano é ampliar a vacinação a novos grupos ao longo do ano.

Cassiteria legalizada por garimpos fantasmas em Rondônia

Investigação da Repórter Brasil com o Greenpeace expôs o que pesquisadores classificam como garimpos fantasmas, áreas autorizadas a operar e comercializar minério, mas que não apresentam produção efetiva. Entre 2020 e 2025, a mineradora White Solder declarou a compra de 2,3 mil toneladas de cassiterita originárias de duas Permissões de Lavra Garimpeira em Campo Novo de Rondônia, onde imagens de satélite e sobrevoo não encontraram sinais de mineração, apenas pasto e criação de gado. O volume, parte do total de 2,9 mil toneladas atribuído às duas áreas, movimentou cerca de R$ 228,5 milhões em valores declarados de CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) à Agência Nacional de Mineração. A cassiterita é a principal matéria-prima do estanho, metal estratégico para a soldagem de componentes eletrônicos e para a indústria bélica, o que torna o rastreamento da origem uma questão de conformidade comercial internacional. A White Solder, que processa o minério em Ariquemes antes da exportação, já responde a ação na Justiça Federal por suposto esquema de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, que teria movimentado R$ 166 milhões segundo o Ministério Público Federal. As áreas sob suspeita ficam a apenas seis quilômetros da Terra Indígena Uru Eu Wau Wau, e cooperativas ligadas às permissões acumulam multas ambientais do Ibama.

Água escondida no interior da Terra pode ampliar ciclo hídrico

Estudo publicado na Nature Geoscience identificou dois compostos até então desconhecidos, capazes de reter hidrogênio nas condições extremas do manto inferior da Terra, camada que se estende de 660 a 2.900 quilômetros de profundidade, responde por mais da metade do volume do planeta e registra temperaturas que podem alcançar 2.300°C. Os novos minerais, classificados como oxihidróxidos de ferro, foram sintetizados em laboratório com células de bigorna de diamante aquecidas a laser, reproduzindo as condições de pressão e temperatura do interior terrestre. O achado oferece pistas sobre onde parte da água profunda do planeta estaria armazenada, uma vez que os minerais predominantes nessa camada, como a bridgmanita e a ferropericlásio, são considerados relativamente secos. A pesquisa demonstrou que os novos compostos conseguem incorporar hidrogênio mesmo quando o material de partida contém menos de 0,1% de água, o que sugere a existência de reservatórios significativos em profundidade. Para as geociências, a descoberta amplia a compreensão sobre o ciclo global da água e sua relação com a dinâmica do manto terrestre, com implicações de longo prazo para os modelos que estimam os estoques hídricos do planeta.

O Sol em 17 de setembro de 2026. Observatório solar registra o Sol com manchas em período ativo. A atividade solar continua a atingir novos níveis mínimos
O Sol em 17 de setembro de 2026. Observatório solar
registra o Sol com manchas em período ativo. A atividade
solar continua a atingir novos níveis mínimos

Sol fora do padrão supera previsões e acende alerta

O Sol voltou a chamar a atenção da comunidade científica com um comportamento atípico registrado nos últimos dias, em um momento em que o ciclo solar 25 já surpreendia os pesquisadores por sua intensidade. Segundo o Laboratório de Astronomia Solar do Instituto de Pesquisas Espaciais da Rússia, há quatros dias consecutivos nenhuma erupção é registrada no sol. As projeções iniciais indicavam uma fase de ascensão moderada, mas as observações têm registrado números de manchas solares acima das curvas oficiais de previsão, reforçando a impressão de que o Sol está entrando em declínio significativamente mais rápido do que o previsto. Vale ressaltar que, segundo o entendimento científico atual, uma fase de declínio rápida em um ciclo, frequentemente precede ciclos subsequentes particularmente intensos, com picos de atividade que antecipam o período de máximo do ciclo. Esses picos concentram o potencial de emissão de tempestades solares com capacidade de afetar satélites, sinais de GPS e redes elétricas, infraestruturas das quais a agricultura moderna se tornou dependente para agricultura de precisão, telecomunicações no campo e rastreamento de operações logísticas. Observatórios ao redor do mundo seguem monitorando as regiões ativas do astro e as ejeções de massa coronal, que podem provocar tempestades geomagnéticas na Terra. Para o setor produtivo, a sinalização é de prudência operacional: sistemas embarcados, comunicação por rádio e serviços de internet rural podem registrar instabilidades pontuais durante os eventos mais intensos, o que reforça a importância de planos de contingência tecnológica nas operações agrícolas.

Banqueiros viram fazendeiros com inadimplência rural

A inadimplência do agronegócio brasileiro atingiu R$ 48 bilhões em junho, um salto de 2.300% sobre os cerca de R$ 2 bilhões verificados cinco anos antes. Os atrasos saíram de 0,54% para 5,63% da carteira, escancarando o que analistas descrevem como a mais severa crise de endividamento rural em mais de duas décadas, alimentada por preços deprimidos de commodities, custos de produção elevados e perdas climáticas recorrentes. Metade da fatura, R$ 29 bilhões, concentra-se entre produtores de alta renda, o que indica que nem os grandes operadores escaparam do aperto financeiro. Diante do cenário, bancos retomam fazendas dadas em garantia e passaram a exigir lastros mais robustos em novas operações, enquanto os pedidos de recuperação judicial disparam no campo. A pressão recai sobre uma carteira de crédito rural de R$ 881,7 bilhões e reabre o debate sobre instrumentos de proteção: menos de 3,5% da área plantada no Brasil conta com seguro rural, ante cerca de 90% nos Estados Unidos. O desafio imediato para o setor é renegociar passivos sem comprometer o custeio do próximo ciclo de safra.

Missão aproxima a ciência brasileira e chinesa

A Embrapa desembarcou em Pequim esta semana, para uma missão institucional na China, liderada pela presidente Silvia Massruhá, com foco na prospecção de parcerias científicas em agroecologia, bioinsumos, agricultura digital e aproveitamento de resíduos orgânicos. A agenda começou na China Agricultural University, referência mundial em ciências agrárias, onde a delegação discutiu compostagem, microbiologia e intercâmbio acadêmico com o College of Resources and Environmental Sciences, que reúne 136 docentes. O roteiro incluiu ainda a visita a uma planta de compostagem acelerada em Shunyi e a reunião com o grupo VOTO Biotech, que abre caminho para escalonar a produção de bioinsumos no Brasil em projeto com Finep, BNDES e Embrapa. O ponto alto é a participação na WAFI 2026, conferência mundial de inovação agroalimentar(NEG), em Pinggu, sob o tema da transformação verde e saudável dos sistemas agroalimentares, com plenárias sobre inteligência artificial, biotecnologia e sustentabilidade e encontro bilateral com a Chinese Academy of Agricultural Sciences. Depois de Pequim, a comitiva segue para Nanjing e Xangai, onde a pauta inclui agricultura digital e tratores autônomos. A aproximação acontece no momento em que a China, principal destino das exportações agropecuárias brasileiras, busca segurança alimentar com baixa emissão de carbono, abrindo espaço para a ciência tropical do Brasil.