Documento da Embrapa extrapola o fenômeno e enfatiza a necessidade de ações permanentes para gestão de riscos climáticos adversos detalhados em diferentes culturas e cadeias produtivas
A chegada do El Niño à safra 2026/27 coloca o agronegócio brasileiro diante de um desafio que ultrapassa o acompanhamento das previsões meteorológicas. O fenômeno altera a circulação atmosférica e pode provocar chuvas acima da média no Sul, enquanto amplia o risco de estiagens, calor intenso e irregularidade hídrica em áreas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Matopiba. As projeções indicam tendências regionais, mas não determinam isoladamente o resultado de cada cultura ou propriedade.
O cenário exige uma leitura empresarial do clima. A ocorrência de períodos secos, chuvas concentradas, ondas de calor, tempestades e incêndios pode afetar produtividade, calendário agrícola, qualidade dos produtos, disponibilidade de água e custos operacionais. Em cadeias integradas, os efeitos se propagam para o transporte, o armazenamento, o processamento industrial e o abastecimento de insumos. O risco climático, portanto, também é risco financeiro e logístico, com reflexos sobre margens, contratos e fluxo de caixa.
A Embrapa organizou 163 medidas para a gestão desses riscos, distribuídas entre ações transversais, recomendações específicas para cadeias produtivas e providências de apoio às políticas públicas. O documento considera prevenção, redução de impactos, transferência de riscos e administração das perdas remanescentes. A proposta indica uma mudança importante na tomada de decisão: o produtor precisa agir antes que a anomalia climática se transforme em prejuízo consolidado.

redução das chuvas no norte e nordeste, enquanto aumenta
os volumes no sul – Foto: Maurício Tonetto/Secom-RS
Manejo, informação e capacidade de resposta
Entre as medidas de aplicação mais ampla estão o monitoramento contínuo das previsões, o uso de dados meteorológicos locais e a adoção do Zoneamento Agrícola de Risco Climático. Também ganham relevância a diversificação de áreas e épocas de plantio, a rotação de culturas, os sistemas de plantio direto, a cobertura permanente do solo e a integração lavoura-pecuária ou lavoura-pecuária-floresta. A conservação do solo e da água passa a ser tratada como instrumento de gestão produtiva, e não apenas como prática ambiental.
A escolha de cultivares adaptadas, o ajuste do calendário operacional, o manejo da fertilidade e o planejamento de irrigação e drenagem devem considerar a exposição de cada sistema produtivo. Em regiões sujeitas à deficiência hídrica, a eficiência do uso da água será decisiva. Onde houver excesso de precipitação, a capacidade de drenagem, a proteção das estruturas e o acesso às áreas de produção poderão determinar a manutenção do ritmo operacional. Na pecuária, o planejamento alimentar, a reserva de forragem, a oferta de sombra e o controle da lotação ganham peso estratégico.
O mesmo raciocínio vale para culturas permanentes, como café, citros e cana-de-açúcar, cuja resposta ao clima se estende por mais de um ciclo produtivo. O calor e a irregularidade das chuvas podem comprometer floradas, formação de frutos e qualidade, enquanto o excesso de umidade pode dificultar colheita, transporte e processamento. A capacidade operacional precisa acompanhar o risco, com estruturas de secagem, armazenamento, irrigação, drenagem e resposta a emergências dimensionadas de acordo com a realidade da propriedade.

chuvas e aumento do risco de seca. No centro-oeste,
pode haver atraso no início da estação chuvosa e mais
ondas de calor. No sudeste, a expectativa é de temperaturas
elevadas e maior irregularidade das chuvas
Adaptação como agenda institucional
A gestão climática não depende apenas de decisões tomadas dentro da fazenda. Crédito, seguro rural, assistência técnica, pesquisa aplicada e infraestrutura hídrica são componentes necessários para transformar recomendações em prática. A nota técnica da Embrapa atribui às políticas públicas papel relevante na ampliação do acesso a tecnologias, no aperfeiçoamento do Zarc, na transferência de riscos e na recuperação de áreas vulneráveis. Sem instrumentos financeiros e assistência técnica, a adaptação tende a avançar de forma desigual.
As análises do INPE e do INMET também recomendam cautela na interpretação dos cenários. A intensidade do El Niño pode variar, os modelos apresentam limitações em períodos de transição e os efeitos regionais não são uniformes. Além disso, o fenômeno ocorre em um contexto de aquecimento global, que pode elevar a frequência e a intensidade de eventos extremos. Para as empresas do agronegócio, isso significa trabalhar com cenários, atualizar planos de contingência e integrar informações climáticas ao orçamento, à compra de insumos e à comercialização.

com tendência de chuvas abaixo da média no norte e
nordeste e volumes acima da média no sul
A safra 2026/27 deve ser acompanhada como um exercício de planejamento sob incerteza. A combinação entre monitoramento, manejo conservacionista, proteção financeira e coordenação institucional pode reduzir a exposição das cadeias produtivas e melhorar a capacidade de recuperação após eventos adversos. O desafio do El Niño não está apenas em atravessar uma temporada de maior instabilidade, mas em consolidar uma cultura permanente de gestão de riscos, capaz de proteger renda, produtividade, segurança hídrica e competitividade no longo prazo.
A nota técnica desenvolvida pela Embrapa faz parte de uma das frentes de ação do Grupo de Trabalho instituído por meio da Portaria MAPA nº 928, de 30 de junho de 2026, para tratar de medidas de prevenção de riscos causados pelo El Niño na agropecuária brasileira. O Grupo de Trabalho elaborou um relatório contendo informações de todas as frentes de atuação onde uma das recomendações é a implantação de um plano de comunicação coordenado entre as instituições. Em paralelo, a equipe de comunicação do Mapa vem trabalhando na elaboração de uma página especial, na produção de vídeos informativos e outros materiais de divulgação.
Acesse a Nota Técnica da Embrapa “El Niño 2026/2027: 163 Medidas para a Gestão de Riscos climáticos na Agropecuária Brasileira” CLICANDO AQUI.