Pantanal perde 84% da savana alagada e acende alerta sobre segurança hídrica e futuro econômico

O pantanal atravessa uma transformação ambiental que já ultrapassa a percepção de períodos isolados de estiagem. Dados recentes do MapBiomas mostram que a savana alagada perdeu 84% de sua área entre 1985 e 2025, passando de aproximadamente 1,1 milhão para 174 mil hectares. A redução de mais de 900 mil hectares representa uma mudança profunda na paisagem de uma das maiores áreas úmidas tropicais do planeta. O fenômeno exige atenção não apenas pela dimensão ecológica, mas também pelos efeitos sobre atividades econômicas dependentes da disponibilidade e regularidade da água.

A perda dessa formação vegetal ocorre dentro de um processo mais amplo de redução das áreas úmidas. Estudos científicos indicam que a superfície de áreas alagáveis do pantanal diminuiu cerca de 30% entre 1985 e 2021, enquanto pastagens avançaram significativamente no mesmo período. A relação entre vegetação, solo e água é decisiva nesse sistema, porque a cobertura natural das áreas de cabeceira contribui para regular o escoamento e reduzir processos erosivos. Quando a paisagem perde capacidade de reter e distribuir água, os impactos alcançam a planície pantaneira.

A situação também precisa ser analisada sob a perspectiva territorial. O pantanal recebe influência direta de ecossistemas que o circundam, especialmente do cerrado, além de conexões com outros biomas brasileiros e regiões da Bolívia e do Paraguai. Por isso, a segurança hídrica do pantanal começa muito antes de suas áreas inundáveis. Alterações nas cabeceiras, ocupação inadequada do solo, assoreamento, redução da cobertura vegetal e mudanças no regime de chuvas interferem no volume e na velocidade com que a água alcança a planície. A gestão ambiental, portanto, precisa considerar toda a bacia hidrográfica.

Plantio de mudas na Área de Proteção Ambiental Baía Negra, em Ladário (MS) - Foto: Victor Hugo Sanches/Arquivo Ecoa
Plantio de mudas na Área de Proteção Ambiental Baía Negra,
em Ladário (MS) – Foto: Victor Hugo Sanches/Arquivo Ecoa

Água, produção e economia regional

Para Mato Grosso do Sul, a questão possui dimensão econômica evidente. A pecuária, o turismo de natureza e diversas atividades associadas ao território dependem de rios, nascentes, campos e áreas sazonalmente inundáveis. A redução da disponibilidade hídrica pode alterar a produtividade das pastagens, elevar custos de manejo, comprometer ambientes naturais e aumentar a exposição a incêndios. A conservação da água passou a ser também uma variável de competitividade regional, especialmente em um cenário climático marcado por maior irregularidade das chuvas e eventos extremos mais frequentes.

O problema não se restringe à planície. O avanço de usos antrópicos nas áreas de planalto representa uma pressão adicional sobre o funcionamento hidrológico do bioma. Segundo o MapBiomas, a parcela antropizada do planalto passou de 33% em 1985 para quase 60% em 2024, enquanto a área natural da planície caiu de 96% para 84%. Essa mudança demonstra que a conservação do pantanal depende da integração entre planalto e planície, com políticas capazes de proteger nascentes, corredores ripários, solos e áreas de recarga.

Nesse contexto, restauração ambiental deixa de ser apenas uma agenda de conservação e passa a integrar uma estratégia de gestão de riscos. A recomposição de matas ciliares, a recuperação de nascentes e a adoção de práticas de manejo capazes de reduzir erosão e assoreamento contribuem para preservar a funcionalidade das bacias. Para o setor produtivo, isso significa proteger um ativo que não aparece diretamente nos balanços empresariais, mas condiciona a continuidade das operações. Água em quantidade e qualidade é infraestrutura natural essencial para a economia pantaneira.

A redução das áreas úmidas está associada tanto à variabilidade climática quanto a transformações provocadas pela ocupação humana - Foto: Riccardo Pravettoni/Grid-Arental
A redução das áreas úmidas está associada tanto à variabilidade
climática quanto a transformações provocadas pela ocupação
humana – Foto: Riccardo Pravettoni/Grid-Arental

Planejamento precisa considerar toda a bacia

A resposta institucional precisa acompanhar a dimensão do problema. O monitoramento por satélite, os sistemas de alerta climático, os inventários de uso da terra e as informações hidrológicas oferecem instrumentos para identificar mudanças antes que seus efeitos se tornem irreversíveis. Estudos recentes mostram que a redução das áreas úmidas está associada tanto à variabilidade climática quanto a transformações provocadas pela ocupação humana. Separar clima e uso da terra em análises isoladas pode esconder a complexidade do processo, dificultando políticas públicas mais eficientes.

Para o agronegócio, a agenda passa por conciliar produção, conservação de recursos naturais e planejamento territorial. A adoção de práticas de conservação do solo, proteção de nascentes, manutenção de vegetação nativa e manejo adequado das pastagens pode reduzir riscos ambientais e operacionais. Ao mesmo tempo, investimentos em infraestrutura hídrica precisam respeitar a dinâmica natural dos rios e das áreas de inundação. A sustentabilidade econômica da produção depende cada vez mais da capacidade de administrar riscos ambientais, sobretudo em territórios sujeitos a secas prolongadas e alterações no regime hidrológico.

A perda de 84% da savana alagada funciona, portanto, como um indicador de uma transformação muito mais ampla. O pantanal não pode ser tratado apenas como uma planície que recebe água, mas como parte de um sistema hidroambiental conectado às áreas de cabeceira e aos territórios vizinhos. Recuperar nascentes, conservar vegetação e melhorar o planejamento do uso da terra são medidas que interessam simultaneamente ao meio ambiente e à economia. Preservar a dinâmica da água significa proteger biodiversidade, produção, turismo e segurança econômica para as próximas décadas.

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