Após 20 anos de pesquisa, nova cultivar brasileira de pera desenvolvida para as condições do sul do país, combina produtividade, qualidade e adaptação para ampliar a produção nacional
Depois de duas décadas de seleção, avaliação agronômica e validação em diferentes ambientes, a Embrapa apresenta a BRS Áurea, primeira cultivar de pera desenvolvida pela instituição, voltada às condições de cultivo do sul do Brasil. O lançamento ocorre em um segmento que ainda enfrenta limitações de oferta doméstica e significativa presença de frutas importadas. Resultado do cruzamento entre as cultivares asiática Hosui e europeia Abate Fetel, a nova genética reúne atributos agronômicos e comerciais que podem ampliar as alternativas disponíveis aos produtores brasileiros.
O principal diferencial técnico está na combinação entre produtividade, qualidade dos frutos e adaptação climática. Nos ensaios conduzidos em Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul, a BRS Áurea apresentou potencial produtivo estimado entre 25 e 30 toneladas por hectare em pomares adultos, quando enxertada no marmeleiro Adams e conduzida em espaçamento de 4 metros entre fileiras por 1 metro entre plantas. A cultivar também apresenta arquitetura adequada ao cultivo em média e alta densidade, característica relevante para projetos comerciais que buscam melhor aproveitamento da área.
A adaptação regional é outro aspecto central da tecnologia. A BRS Áurea é recomendada para áreas do sul com 400 a 600 horas de frio abaixo de 7,2 °C durante o inverno, abrangendo regiões produtoras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A exigência climática precisa ser considerada no planejamento dos pomares, sobretudo diante da variabilidade das condições de inverno. A cultivar apresentou bom desempenho nas áreas experimentais avaliadas, indicando potencial para integrar sistemas produtivos especializados de fruticultura de clima temperado.

(B) ramo do ano; (C) ramo de ano; (D) pilosidade na parte
apical do ramo de ano; (E) gema vegetativa; (F) gemas
floríferas – Fotos: João Caetano Fioravanço

cultivar BRS Áurea enxertada no porta-enxerto ‘Adams’ (4º ano).
Caxias do Sul, RS, 2024 – Partes reprodutivas da planta da
cultivar BRS Áurea/Adams: (A) Cacho floral; (B) flor; (C) posição
dos estigmas em relação às anteras; (D) cacho floral exibindo a
ordem de abertura das flores – Fotos: João Caetano Fioravanço

sabor equilibrado – Foto: João Caetano Fioravanço
Qualidade e janela comercial ampliam o potencial
Do ponto de vista comercial, a BRS Áurea foi desenvolvida para atender tanto às exigências do consumidor quanto às necessidades de armazenamento e distribuição. Os frutos são médios a grandes, com peso entre 145 e 190 gramas, coloração amarelo-alaranjada a dourada na maturação e polpa branca, crocante, suculenta e de sabor equilibrado. Essas características ajudam a posicionar a cultivar em um mercado no qual aparência, textura, doçura e regularidade são elementos importantes para a aceitação da fruta e para a formação de valor ao longo da cadeia.
Outro atributo relevante é a precocidade. A colheita ocorre normalmente entre 5 e 20 de janeiro, com ciclo aproximado de 106 dias, antecedendo a entrada de diversas cultivares tradicionais. Essa janela pode representar uma oportunidade comercial para organizar a oferta e ampliar o período de disponibilidade de peras produzidas no país. Em cadeias de frutas frescas, o calendário de colheita tem impacto direto sobre logística, armazenamento, formação de preços e relacionamento com compradores, tornando a época de maturação um componente importante da estratégia de produção.
A conservação pós-colheita acrescenta outra variável de interesse empresarial. Em condições experimentais, os frutos mantiveram boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado, ampliando as possibilidades de gestão dos estoques e comercialização. A cultivar também apresentou resistência à entomosporiose e à sarna-da-pereira, além de menor suscetibilidade à mosca-das-frutas em comparação com a cultivar Rocha nos estudos realizados. Para o produtor, atributos fitossanitários e de conservação podem contribuir para reduzir perdas e melhorar a previsibilidade da operação.

Vacaria, RS, 2025 – Fotos: João Caetano Fioravanço

e qualidade dos frutos amplia as possibilidades de uso da
cultivar em sistemas comerciais – Foto: Fábio Ribeiro
Tecnologia, manejo e competitividade
O desempenho econômico de um pomar, entretanto, não depende exclusivamente do potencial genético. A escolha do porta-enxerto e o sistema de condução interferem diretamente no vigor das plantas, na precocidade produtiva e nos custos de manejo. Nos estudos, o marmeleiro Adams apresentou características favoráveis à BRS Áurea, proporcionando menor crescimento vegetativo, entrada mais precoce em produção e maior regularidade quando comparado a porta-enxertos mais vigorosos. A cultivar pode ser conduzida em densidades de aproximadamente 1.667 a 2.857 plantas por hectare.
Esse comportamento também apresenta reflexos sobre a mão de obra, um dos componentes que mais pressionam a fruticultura. A arquitetura da BRS Áurea, quando enxertada no Adams, permite intervenções de poda relativamente leves, com retirada principalmente de ramos excedentes, mal posicionados ou excessivamente verticalizados. A possibilidade de racionalizar operações no pomar é relevante para a formação do custo de produção, sobretudo em regiões onde a disponibilidade e o preço da mão de obra constituem restrições crescentes à expansão da atividade.
A chegada da BRS Áurea representa, assim, mais do que o lançamento de uma nova variedade. Trata-se de uma tecnologia voltada a um segmento que busca ampliar a produção nacional, melhorar a adaptação das cultivares às condições brasileiras e reduzir a dependência do produto importado. Produtividade, qualidade, conservação e adequação ao ambiente de cultivo formam a base de uma proposta com potencial econômico, embora sua adoção comercial deva considerar custos de implantação, disponibilidade de mudas, mercado regional e desempenho em escala. O próximo passo será transformar os resultados da pesquisa em produtividade e rentabilidade nos pomares brasileiros.