Pesquisa com brasileiros analisou gatos selvagens da América do Sul e descoberta reforça o papel da biodiversidade como ativo estratégico para o meio ambiente
A ciência acaba de ampliar o mapa da biodiversidade sul-americana. Publicado em setembro de 2026 na revista Current Biology, um estudo internacional com participação de pesquisadores brasileiros descreveu uma nova espécie de felino selvagem, a primeira catalogada em mais de um século. Batizado de Leopardus tilcayo, o pequeno felino, conhecido como tilcayo pelas comunidades locais, habita as florestas nubladas dos Yungas, na Bolívia, região de transição entre a Cordilheira dos Andes e a Floresta Amazônica. Com cerca de 46 centímetros e aproximadamente 1,5 quilo, o animal é menor que um gato doméstico e apresenta pelagem marrom clara com rosetas de formato irregular. Até o momento, apenas dois indivíduos da espécie são conhecidos, um deles protegido no santuário Senda Verde.

que não existem em nenhum outro lugar do planeta.
Neblina permanente e vegetação densa caracterizam
o corredor ecológico entre Andes e Amazônia

meio de pesquisa liderada pela exploradora Paola Nogales
Ascarrunz, no refúgio de animais Senda Verde, na região de
Yungas, Bolívia – Foto – Fernando Faciole/National Geographic

margens do rio Yolosa, na região de Yungas, Bolívia. O refúgio
abriga o único tilcayo (Leopardus tilcayo) em cativeiro conhecido
e sob proteção – Foto – Fernando Faciole/National Geographic
O tilcayo e as florestas nubladas dos Yungas
Os Yungas formam um corredor ecológico de riqueza extraordinária na encosta oriental dos Andes bolivianos. A combinação de altitude, umidade e temperatura gera um ambiente de neblina quase permanente e vegetação densa, capaz de abrigar espécies que não ocorrem em nenhum outro lugar do planeta. Foi nesse cenário que o tilcayo passou séculos despercebido pela ciência, conhecido apenas pelas populações locais, que já o chamavam pelo nome que hoje batiza a espécie.
O primeiro indivíduo identificado chegou ao santuário Senda Verde em 2017, depois de ter sido acolhido por uma família da região. A pesquisadora que liderou o estudo, Paola Nogales Ascarrunz, encontrou o animal durante trabalho voluntário no local e percebeu que as características da pelagem e do crânio não se encaixavam em nenhuma espécie conhecida de gato selvagem sul-americano. O que parecia ser apenas mais um gato-maracajá (Leopardus wiedii) era, na verdade, uma linhagem evolutiva independente, separada dos demais felinos do continente há cerca de 1,4 milhão de anos.
Três pesquisadores brasileiros fizeram parte do grupo que realizou o estudo. O pesquisador e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Eduardo Eizirik, a pesquisadora da Universidade de Oxford, Caroline Charão Sartor, e a professora da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Larissa Rosa de Oliveira. A descoberta reforça a importância de regiões de transição como os Yungas para a conservação. Áreas de ecótono, onde diferentes biomas se encontram, costumam concentrar alta diversidade e espécies endêmicas, e a perda desses territórios representa um risco silencioso para a biodiversidade ainda desconhecida.

altitude da região de Yungas em busca de vestígios do
pequeno felino e locais adequados para instalar armadilhas
fotográficas – Foto – Fernando Faciole/National Geographic

Nogales Ascarrunz instala armadilhas fotográficas na floresta
de Yungas com o objetivo de documentar o esquivo felino em
seu habitat natural – Foto – Fernando Faciole/National Geographic
A genética que reescreveu a taxonomia dos felinos
Por muito tempo, a ciência tratou os pequenos felinos selvagens da América do Sul como uma única espécie, o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus), devido à semelhança visual entre eles. Esses animais são o que os biólogos chamam de espécies crípticas, que não podem ser diferenciadas apenas pela aparência. Foi a análise genética que permitiu desvendar a diversidade escondida por trás de pelagens quase idênticas.
A equipe analisou amostras de DNA de 38 gatos selvagens de diferentes regiões do continente. O resultado mostrou que o que se acreditava ser uma espécie única era, na verdade, um conjunto de cinco espécies distintas: além do Leopardus tigrinus, foram identificados o Leopardus guttulus, o Leopardus emiliae, o Leopardus pardinoides e o recém-descrito Leopardus tilcayo. O estudo também revelou uma nova subespécie peruana, o Leopardus tigrinus antisuyo. O tilcayo não apenas é uma espécie nova, mas representa uma linhagem que seguiu seu próprio caminho evolutivo por mais de um milhão de anos.
A ausência de registros em museus e coleções científicas ajuda a explicar por que o animal permaneceu invisível por tanto tempo. Sem exemplares coletados, a ciência não tinha como reconhecer a espécie, e a genética tornou-se a ferramenta capaz de revelar o que a observação direta não alcançava.

uma espécie de felino selvagem. O DNA foi sequenciado para
análise biométrica – Foto – Fernando Faciole/National Geographic

na região de Yungas, Bolívia, o único indivíduo conhecido
dessa espécie vivendo em cativeiro sob proteção. Ele
chegou ao santuário por volta de 2017, após ser entregue
por uma família local que o mantinha em casa
Foto – Fernando Faciole/National Geographic

tilcayo) como uma nova espécie, observa o felino no Santuário de
Vida Selvagem Senda Verde, na região de Yungas, Bolívia
Foto – Fernando Faciole/National Geographic
Conservação e o valor estratégico da biodiversidade
A descoberta ocorre em um momento em que a Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classifica os gatos selvagens da América Latina como vulneráveis, com populações em declínio. A identificação de uma nova espécie amplia a responsabilidade do continente com a preservação de seus ecossistemas, especialmente em áreas de transição como os Yungas, que enfrentam pressão crescente da expansão agrícola, do desmatamento e das mudanças climáticas
Para o setor produtivo brasileiro, a conservação da biodiversidade deixou de ser uma pauta exclusivamente ambiental para se tornar um ativo econômico. A rastreabilidade ambiental, a manutenção de corredores ecológicos e a preservação de habitats são fatores cada vez mais exigidos por mercados internacionais, que condicionam a compra de commodities à comprovação de origem sustentável. Cada nova espécie descrita reforça o argumento de que o Brasil e seus vizinhos operam em um dos territórios de maior diversidade biológica do planeta.
Proteger essa riqueza é também proteger a competitividade do agro na economia global. O conhecimento científico gerado por descobertas como a do tilcayo alimenta políticas públicas, decisões empresariais e a construção de uma imagem de produção responsável, em que o desenvolvimento econômico caminha junto com a conservação.