Manchetes da semana – 31-10 a 06-11-2026

Acordo Mercosul-UE já rende 21% mais exportações ao Brasil

A aplicação provisória das preferências tarifárias do acordo Mercosul-União Europeia, iniciada em 1º de maio de 2026, já produz efeitos mensuráveis na pauta exportadora brasileira. Nos cinco primeiros meses de vigência, de maio a setembro, as vendas dos produtos contemplados por redução ou eliminação de tarifas cresceram 21% sobre igual período de 2025, segundo levantamento do MDIC. A aritmética impressiona pela concentração setorial: abacate fresco subiu 421%, mel 367% e óleo de milho 266%, desempenho que revela quanto o obstáculo tarifário, e não a competitividade intrínseca, limitava a presença brasileira naquele mercado. O etanol avançou 95,2% e o óleo essencial de laranja 75,8%, enquanto transformadores elétricos, sem registro de venda no período comparativo, somaram US$ 39 milhões. O bloco reúne cerca de 720 milhões de consumidores e PIB superior a US$ 22 trilhões, escala que explica o esforço de duas décadas de negociação e a relevância da regra de origem para o exportador.

México reabre portas à avicultura brasileira e isola SC

O reconhecimento da regionalização sanitária pelo México, oficializado em 30 de outubro de 2026, restabelece o fluxo de produtos avícolas brasileiros para aquele mercado e concentra as restrições exclusivamente em Santa Catarina. A decisão, resultado de articulação técnica do Mapa com o Ministério das Relações Exteriores e o setor produtivo, altera a lógica comercial aplicada ao setor: o país importador passa a considerar a localização do foco e a delimitação das áreas afetadas, em lugar do embargo generalizado por origem nacional. Para a avicultura industrial, o alcance da medida é amplo, porque preserva automaticamente as unidades federativas habilitadas que não registraram ocorrência sanitária. O ministério reforçou que o consumo de produtos submetidos à inspeção oficial permanece seguro. A regionalização já é a base técnica dos protocolos da Organização Mundial de Saúde Animal e reduz a assimetria entre países com sistemas de vigilância estruturados e mercados sem capacidade equivalente de verificação.

Projeto estabelece supervisão dos pais e frequência escolar obrigatória, com formação técnica antecipada para gestão que pode reduzir o êxodo de jovens do campo
Projeto estabelece supervisão dos pais e frequência escolar
obrigatória, com formação técnica antecipada para gestão
que pode reduzir o êxodo de jovens do campo

Projeto cria regra para formar o herdeiro antes de entregar a fazenda

O PL 3448/26, em análise na Câmara dos Deputados, institui critérios para a participação de filhos de produtores e trabalhadores rurais nas atividades da família, com natureza formativa, colaborativa e de apoio à economia familiar, expressamente sem configuração de vínculo empregatício. A proposta autoriza a colaboração a partir dos 14 anos, condicionada à compatibilidade com a frequência escolar, garantia de repouso, lazer e tempo de estudo, além de supervisão dos pais. Veda o trabalho noturno, perigoso ou insalubre e as atividades listadas na Lista TIP (Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil), regulamentada pelo Decreto Nº 6.481, de 12 de junho de 2008. O diagnóstico é objetivo: no Censo Agropecuário de 2017, apenas 2% dos produtores tinham menos de 25 anos e 9,3% estavam entre 25 e 35 anos, enquanto a faixa de 45 a 55 anos concentrava 24,2% dos estabelecimentos. O texto tramita na CAPADR, CPASF e CCJ.

Brasil abre dois mercados e chega a 721 novas portas desde 2023

Duas novas autorizações sanitárias ampliaram o acesso de produtos brasileiros ao exterior. Em Bangladesh, foram liberados embriões bovinos e bubalinos produzidos por técnicas in vivo e in vitro, sêmen bovino e bovinos vivos para reprodução. Na Colômbia, a abertura contempla produtos mastigáveis desidratados de origem bovina e suína para alimentação de cães. As negociações foram conduzidas pelo Mapa e pelo MRE, e com elas o agronegócio brasileiro acumula 721 aberturas de mercado desde o início de 2023. O valor estratégico reside na composição da pauta: genética animal e pet food ilustram a migração do país para segmentos de maior valor agregado, menos expostos à volatilidade de commodities. Bangladesh importou mais de US$ 2,66 bilhões do Brasil em 2025, enquanto as compras colombianas de produtos agropecuários brasileiros superaram US$ 873 milhões no mesmo ano.

Quarto foco de Newcastle em Santa Catarina pressiona o calendário de embarques

O Mapa confirmou o quarto foco de doença de Newcastle em Santa Catarina, em estabelecimento avícola de Nova Erechim, no Oeste do estado, com cerca de 9.600 aves em um único plantel. O caso é o segundo no mesmo município e ocorreu em área já incluída na zona de restrição sanitária, o que sinaliza que a malha de vigilância conseguiu interceptar a ocorrência dentro do perímetro controlado. Os três primeiros focos foram registrados em granjas de perus em Nova Itaberaba, Coronel Freitas e Nova Erechim, todas em vazio sanitário. A fiscalização mantém barreiras ativas e reforço de educação sanitária na região. A avicultura catarinense responde por parcela relevante dos embarques nacionais, e a suspensão dos mercados internacionais desde 18 de outubro já vinha mobilizando negociação técnica para restabelecer o fluxo.

Navio cargueiro atracado no Porto de Murmansk, no Ártico, que inaugura via ártica para o trigo russo com carregamento experimental de 29,5 mil toneladas seguindo para o Marrocos
Navio cargueiro atracado no Porto de Murmansk, no Ártico,
que inaugura via ártica para o trigo russo com carregamento
experimental de 29,5 mil toneladas seguindo para o Marrocos

Rússia desvia trigo pelo Ártico para driblar a guerra

A logística russa de grãos encontrou um desvio de emergência no Porto Comercial de Murmansk, quase 2 mil quilômetros ao norte de Moscou. Em 28 de outubro de 2026, um trem com 47 vagões e 3.400 toneladas de trigo iniciou o carregamento experimental de 29.500 toneladas com destino a Casablanca, no Marrocos. A operação envolve a trading Demetra Holding e o operador portuário local, e ainda aguardava 396 vagões graneleiros para completar a carga. A motivação é objetiva: as exportações russas de trigo entre julho e outubro somam cerca de 10,26 milhões de toneladas, recuo de 39,6% frente ao mesmo período de 2025, segundo a Rusagrotrans. O Mar Negro concentrava historicamente o escoamento, e os ataques a instalações portuárias desde julho comprometeram esse corredor. Os terminais do Báltico absorveram 38,3% do volume, taxa que chegou a 65% em outubro, mas já operam no limite.

Soja brasileira caminha para o terceiro recorde consecutivo

O primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado pela Conab, projeta produção brasileira de grãos de 367,1 milhões de toneladas, crescimento de 1,4% sobre o ciclo anterior, com área semeada de 85,4 milhões de hectares, alta de 2,3%. A soja concentra o movimento: estimativa de 181,6 milhões de toneladas, 0,7% acima da safra anterior e potencial terceiro recorde consecutivo, sobre 49,3 milhões de hectares, expansão de 1,4%. O dado compõe um quadro de margem apertada e preço volátil, em que o ganho de escala é o que sustenta a rentabilidade. A variável climática permanece decisiva, com o El Niño no centro das análises de produtividade e risco de lavoura. O plantio avança de forma acelerada em Mato Grosso e no Paraná, mas o regime de chuvas na reta final de instalação da cultura definirá se a projeção será confirmada ou revista.

Liminar obriga fornecedora de Nestlé e 3Corações a prevenir escravidão

A 13ª Vara do Trabalho de Vitória determinou, em liminar, que a Cooabriel, cooperativa capixaba de café conilon com cerca de 10 mil associados, deixe de adquirir café de produtores envolvidos em trabalho escravo e suspenda compras de propriedades onde houve resgate de trabalhadores até comprovação de regularização. A decisão, em ação civil pública do Ministério Público do Trabalho, exige plano de prevenção e fiscalização de fornecedores, com auditorias periódicas, inclusive sem aviso prévio, e envio da relação completa da cadeia produtiva ao órgão. O descumprimento prevê multa diária de R$ 30 mil por obrigação violada. O pedido de R$ 10 milhões por danos morais coletivos ainda será julgado. O MPT sustenta que consultas à Lista Suja e a cadastros privados são insuficientes, porque a inclusão do empregador ocorre anos após o flagrante, período em que o café segue sendo comercializado sem qualquer identificação de irregularidade.

Wagyu ganha gôndola própria em 51 redes de supermercados no país com cortes porcionados que transformam produto de nicho em categoria de varejo
Wagyu ganha gôndola própria em 51 redes de supermercados
no país com cortes porcionados que transformam
produto de nicho em categoria de varejo

Wagyu desce da vitrine da alta gastronomia para a gôndola do supermercado

A carne Wagyu, historicamente restrita a restaurantes de alta gastronomia e butiques, ganhou escala no varejo brasileiro. A Guidara, detentora do maior rebanho da raça no país, opera com 51 redes do norte ao sul, incluindo Pão de Açúcar e Zaffari, e inicia o fornecimento a seis lojas do Sam’s Club. A estratégia responde a uma restrição de custo objetiva: o marmoreio, formado por suplementação proteica no terço final da gestação e alimentação especial dos bezerros com óleos essenciais e extratos naturais, além de castração precoce, eleva o custo de produção. A arroba do Wagyu vale 2,5 vezes a do boi convencional, cotado a R$ 390. O portfólio migrou para almôndegas, linguiças, hambúrgueres e porções menores de ancho, chorizo e picanha, com preços de R$ 28,50 a R$ 950 o quilo no atacado. O mercado interno absorve 90% da produção, e 60% desse volume vai ao varejo.

Mercosul-EFTA entra em vigor e abre a Europa de alta renda

Entrou em vigor em 1º de novembro de 2026 o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a Noruega, no âmbito do tratado firmado com a EFTA (European Free Trade Association), bloco que reúne ainda Islândia, Suíça e Liechtenstein. A zona de livre comércio criada abrange cerca de 290 milhões de consumidores e PIB superior a US$ 4,3 trilhões, e prevê que aproximadamente 99% das exportações brasileiras ao bloco sejam beneficiadas por eliminação ou redução tarifária ao longo da implementação. Além de alimentos, o texto contempla energia, tecnologia verde, atividades marítimas e offshore, pescados e frutos do mar e fertilizantes, setores de interesse direto para a cadeia agrícola nacional. As cotas para o mercado norueguês, que incluem carne bovina, carne de frango, milho, mel natural, melaço de cana, farinha de soja e suco de maçã, são solicitadas no módulo LPCO do Portal Único Siscomex. Para a Islândia, a vigência começou em 1º de outubro.

Câmara aprova programa de armazenagem e ataca gargalo histórico do agro

A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara aprovou o PL 1.621/2026, que institui o Programa Nacional de Armazenagem e Secagem da Produção Agropecuária. O diagnóstico que sustenta a proposta é aritmético: o Brasil encerrou 2025 com capacidade de armazenagem de 233,8 milhões de toneladas, segundo o IBGE, enquanto a safra de grãos 2025/26 alcançou 361,7 milhões de toneladas, conforme a Conab. O resultado é um déficit que obriga o escoamento imediato da colheita, pressiona preços no pico da oferta, sobrecarrega a logística e comprime a margem do produtor. O substitutivo do relator incluiu empresas cerealistas entre os beneficiários, ao lado de produtores, associações e cooperativas. O programa prevê linhas de crédito com condições favorecidas, incentivos à construção e modernização de silos, armazéns e unidades de secagem, estímulo a novas tecnologias e prioridade a pequenos e médios produtores.

Jockey Club negocia dívida municipal e viabiliza parque público de 85 mil m², conciliando turfe, lazer e requalificação urbana
Jockey Club negocia dívida municipal e viabiliza parque público
de 85 mil m², conciliando turfe, lazer e requalificação urbana

Turfe paulista ganha fôlego com acordo entre BTG e Prefeitura

O Jockey Club de São Paulo firmou acordo com a Prefeitura e parceria financeira com o BTG Pactual que regulariza o passivo tributário municipal e redefine o futuro do Hipódromo de Cidade Jardim. As dívidas com o município superavam R$ 900 milhões, incluindo cerca de R$ 500 milhões de IPTU e R$ 300 milhões de ISS. Pelo programa de transação tributária, o valor negociado para quitação ficou em R$ 228 milhões, com pagamento à vista. O projeto prevê um parque público de 85 mil m2 na área interna da pista, com investimento privado de cerca de R$ 100 milhões e entrega prevista para outubro de 2028, preservando a continuidade das corridas. O passivo total da instituição é estimado em R$ 1,3 bilhão. O modelo econômico anterior se esgotou. O clube chegou a ter oito mil associados, hoje são cerca de 580, e o déficit operacional de 2025 atingiu R$ 14,2 milhões. A área é tombada pelo Condephaat e pelo Conpresp.

Copom segura Selic em 13,75% e contraria o mercado

Por unanimidade, o Copom manteve a taxa Selic em 13,75% ao ano, decisão que contrariou parte do mercado financeiro, que projetava corte de 0,25 ponto percentual. O comitê justificou a pausa pelo aumento das incertezas e por expectativas de inflação acima da meta, em ambiente de tensão cambial e do fenômeno El Niño. A sequência anterior havia sido de cinco cortes desde abril, em trajetória iniciada após o período em que os juros ficaram em 15% ao ano, entre junho de 2025 e março de 2026. O IPCA-15 de outubro ficou em 0,32%, mas o acumulado em 12 meses subiu de 4,5% para 4,62%, acima do teto de 4,5% do sistema de meta contínua. A decisão tem leitura direta para o agro: a Selic é referência do custo de captação e do crédito rural, e sua manutenção pressiona despesas de custeio, investimento e comercialização em um ciclo de margens apertadas.

JBS é alvo de 12 denúncias na Europa por desmatamento e lavagem

A JBS, maior processadora de carne do mundo, foi alvo de denúncias apresentadas a reguladores financeiros e autoridades de combate à lavagem de dinheiro do Reino Unido, Irlanda, Alemanha e Países Baixos. A coalizão Transnational Legal Coalition apontou que a JBS N.V., controladora sediada nos Países Baixos, e a JBS Global (UK) Limited teriam usado recursos obtidos com a venda de gado supostamente criado em áreas desmatadas ilegalmente na amazônia para remunerar financiadores e facilitadores europeus. Um relatório da AidEnvironment estimou possível associação da empresa a mais de 6,5 milhões de hectares desmatados entre 1988 e 2026, metade por fornecedores diretos e metade por indiretos, com mais de 80% dos casos em Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente. A empresa afirma monitorar mais de 600 mil km² do território nacional diariamente, com bloqueio automático de fazendas irregulares.

Receita apreende 17 toneladas de barbatanas no Porto de Itapoá em carga declarada como sardinha. Anualmente, entre 70 e 100 milhões de tubarões são mortos por "shark finning" - Foto: Receita Federal
Receita apreende 17 toneladas de barbatanas no Porto de Itapoá em
carga declarada como sardinha. Anualmente, entre 70 e 100 milhões
de tubarões são mortos por “shark finning” – Foto: Receita Federal

Carga declarada como sardinha escondia barbatana de tubarão

A Receita Federal interceptou, no Porto de Itapoá, em Santa Catarina, um contêiner com mais de 17 toneladas de barbatanas de tubarão declaradas como sardinhas congeladas, com destino à Malásia. O Ibama autuou a empresa em R$ 50 milhões por tentativa de exportação ilegal. A identificação apontou predominância de tubarão-azul (Prionace glauca) e parte das nadadeiras de tubarão-anequim (Isurus oxyrinchus), espécie constante da lista de ameaçadas de extinção. A estimativa técnica é de que cerca de 5,7 mil animais tenham sido abatidos para a obtenção da carga, destinada a consumo humano em um mercado onde o quilo da iguaria alcança US$ 3 mil em países asiáticos. O “shrak finnig” é a prática de captura de tubarões para posterior remoção e retenção das barbatanas, em que o resto do corpo é geralmente descartado no oceano ainda vivo. O episódio se soma à apreensão de 28,7 toneladas em 2023, então a maior já registrada no país. Em março de 2026, o governo endureceu regras de exportação, importação e reexportação do tubarão-azul.

Senado abre caminho para retomar atividades em áreas embargadas

A Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado aprovou o PL 290/2025, que atribui efeito suspensivo aos embargos ambientais enquanto o produtor cumpre o Programa de Regularização Ambiental (PRA), e o texto seguiu para a Comissão de Meio Ambiente, onde aguarda designação de relator. O substitutivo do relator Jaime Bagattoli (PL-RO) alcança infrações anteriores a 22 de julho de 2008 em Áreas de Preservação Permanente, Reserva Legal e áreas de uso restrito, mantendo o marco temporal do Código Florestal e condicionando o alívio jurídico à adesão formal ao programa. Na prática, a proposta reconhece um problema que a gestão ambiental arrasta há mais de uma década: a inscrição no Cadastro Ambiental Rural gerou expectativa de regularização, mas a capacidade de análise dos órgãos estaduais não acompanhou a demanda, deixando milhares de imóveis em indefinição entre a intenção declarada e a sanção efetiva. O texto endereça essa lacuna ao fixar prazo de 60 dias para corrigir inconsistências cadastrais, como sobreposição de áreas e coordenadas incompatíveis, restabelecendo o embargo se a pendência persistir, e ao autorizar o credenciamento de empresas especializadas para análise do CAR e do PRA, com validação final do órgão competente. O ponto sensível está no equilíbrio entre celeridade e rigor: a habilitação de terceiros amplia a capacidade operacional, mas transfere para o setor privado uma função de fé pública que exige protocolos claros de auditoria. Para o produtor, o ganho imediato é previsibilidade financeira, condição indispensável para acessar crédito com garantia de conformidade.

Brasil leva resposta sobre Newcastle ao Cone Sul e pressiona por regionalização

O Ministério da Agricultura e Pecuária apresentou em Assunção, durante a 28ª Conferência Regional da OMSA para as Américas e a reunião do Conselho Agropecuário do Sul, o conjunto de medidas adotado após os focos de doença de Newcastle em Santa Catarina e defendeu que as restrições comerciais sejam limitadas à área afetada. O primeiro caso foi confirmado em 18 de outubro, em granja comercial de perus, e outros três se seguiram, o último em Nova Erechim, dentro da zona de restrição já delimitada, o que reinicia a contagem de prazos sanitários. Entre as ações executadas estão restrição de trânsito, sacrifício sanitário dos plantéis, limpeza e desinfecção das instalações e reforço da vigilância, com os três primeiros estabelecimentos já em vazio sanitário. O esforço diplomático tem resultado concreto: China, Japão, União Europeia, Reino Unido, Coreia do Sul e México reconheceram algum grau de regionalização, e o México converteu a suspensão nacional em restrição somente a Santa Catarina. Argentina e Bolívia delimitaram as medidas à área afetada, enquanto Paraguai e Chile mantêm restrições ao estado catarinense e o Uruguai segue com bloqueio ao país inteiro, ainda que as tratativas técnicas tenham avançado. O episódio expõe a fragilidade estrutural de um sistema exportador concentrado em poucos estados e reforça a tese de que sanidade animal é infraestrutura comercial, não apenas segurança de rebanho.

As Ligas Camponesas do Pará são anistiadas politicamente e a decisão desloca o reconhecimento do plano individual para o coletivo, abrindo caminho para que centenas de famílias acessem os instrumentos de memória e reparação
As Ligas Camponesas do Pará são anistiadas politicamente e
a decisão desloca o reconhecimento do plano individual para
o coletivo, abrindo caminho para que centenas de famílias
acessem os instrumentos de memória e reparação

Ligas Camponesas do Pará conquistam anistia política coletiva

A Comissão de Anistia aprovou por unanimidade o reconhecimento de anistia política coletiva às Ligas Camponesas do Pará, em requerimento apresentado pelo Memorial das Ligas Camponesas, pela Contag e pela Defensoria Pública da União, com apoio de outras organizações do campo. O processo documenta a violência na Gleba Cidapar, no Alto Guamá, onde camponeses, posseiros, quilombolas e indígenas resistiram à ação de empresas e de agentes do Estado em disputa pela terra, e registra entre 1980 e 1984 um total de 222 ocorrências e ao menos 108 mortes de trabalhadores rurais e lideranças sindicais, episódios que se estenderam pelo governo de transição. A decisão tem efeito material sobre a burocracia da reparação, porque desloca o reconhecimento do plano individual para o plano coletivo e abre caminho para que centenas de famílias acessem os instrumentos de memória e reparação sem precisar comprovar, uma a uma, a perseguição sofrida. A leitura técnica do caso interessa ao setor pela governança fundiária: conflitos agrários não resolvidos permanecem como passivo jurídico e reputacional sobre cadeias produtivas inteiras, e a formalização da memória tende a antecipar exigências de due diligence de compradores e financiadores.

Rio de Janeiro entra no mapa da produção nacional de fertilizantes

O estado do Rio de Janeiro reúne mais de R$ 25 bilhões em projetos de petroquímica e fertilizantes previstos até 2030, segundo o estudo Petroquímica e Fertilizantes no Rio de Janeiro 2026, da Firjan, que reúne condições para reduzir a dependência externa de insumos agrícolas. A lógica econômica é direta: o País importa entre 80% e 90% de todos os fertilizantes que consome, o que converte cada oscilação de frete, câmbio ou oferta internacional em custo dentro da porteira. O estado dispõe de infraestrutura portuária, polo petroquímico consolidado desde 1992 em Duque de Caxias, disponibilidade de matéria-prima e base universitária para sustentar a cadeia, combinação que explica o diagnóstico de potencial estratégico. O gargalo apontado no evento não é de vocação, mas de tecnologia e propriedade intelectual: cerca de 80% das patentes em fertilizantes pertencem à China, o que posiciona o Brasil como comprador de tecnologia justamente no elo em que pretende ganhar autonomia. Para o produtor, o efeito prático é de médio prazo e passa por previsibilidade de preço de N, P e K, um dos poucos custos que ele controla apenas parcialmente.

Minha Casa, Minha Vida Rural chega a 716 moradias em 12 municípios

O governo federal autorizou a contratação de 716 unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida Rural, destinadas a agricultores familiares, trabalhadores rurais e famílias quilombolas de 12 municípios em três estados, dentro do eixo Cidades Sustentáveis e Resilientes do Novo PAC. As 15 propostas contempladas concentram-se no Maranhão, com 620 moradias, seguidas pelo Piauí, com 50, e pelo Rio Grande do Sul, com 46, e a operação é analisada e contratada pela Caixa Econômica Federal. O desenho de execução por entidades revela o alcance social da medida: associações quilombolas de Caxias, Colinas e Formigueiro respondem por 146 unidades, enquanto sindicatos de trabalhadores e trabalhadoras na agricultura familiar de quatro municípios somam outras 300. Sob a ótica da produção, a política dialoga com um problema recorrente na agricultura familiar, o da sucessão e da fixação do jovem no meio rural: moradia adequada é variável de permanência no território e, portanto, de continuidade da atividade produtiva. O programa já ultrapassou 2,7 milhões de moradias entregues no país, e a capilaridade rural é o teste mais exigente de sua engenharia operacional, porque envolve licenciamento, acesso viário e assistência técnica em áreas dispersas.