Exposição na Expointer apresenta espécies nativas e mostra a importância das abelhas para a agricultura. Mandaçaia, jataí, manduri e mirim-guaçu estão entre as espécies apresentadas ao público da feira, com oficinas sobre manejo e produção de mel
A presença de abelhas nativas sem ferrão na 49ª Expointer chama a atenção para uma atividade que reúne conservação ambiental, produção e conhecimento técnico. No espaço dedicado à meliponicultura, visitantes têm contato com espécies como mandaçaia (Melipona quadrifasciata), jataí (Tetragonisca angustula), manduri (Melipona marginata) e mirim-guaçu (Plebeia remota), ampliando a percepção sobre a diversidade de polinizadores existente no Rio Grande do Sul. O estado registra 24 espécies nativas de abelhas sem ferrão, das quais 11 estão representadas na exposição. Mais do que uma atração educativa, a iniciativa coloca em evidência um recurso biológico diretamente relacionado à produtividade agrícola.
Entre as espécies apresentadas está a Plebeia wittmanni, conhecida como mirim-mosquito, encontrada no Brasil somente no Rio Grande do Sul e também presente na Argentina e no Uruguai. Considerada rara e oficialmente ameaçada de extinção desde 2002, a espécie apresenta uma adaptação particularmente interessante às condições climáticas do Sul. Durante períodos de frio intenso, as colônias reduzem a atividade reprodutiva e entram em diapausa, estratégia fisiológica que diminui o gasto energético e contribui para a sobrevivência do enxame.
Esse comportamento evidencia que a conservação das abelhas nativas depende do conhecimento sobre suas características biológicas e ambientais. Para o setor produtivo, preservar essa diversidade também significa manter serviços ecossistêmicos que não aparecem necessariamente como uma linha direta de receita, mas interferem na eficiência dos sistemas agrícolas. A polinização, nesse contexto, deixa de ser apenas uma questão ambiental e passa a integrar uma visão mais ampla de gestão da biodiversidade e de sustentabilidade da produção.

e produtores do universo das abelhas nativas
Polinização como ativo produtivo
A relevância econômica das abelhas está diretamente associada à polinização de plantas nativas e culturas agrícolas. A transferência de pólen entre flores influencia a formação, o tamanho, o peso e a qualidade de frutos, grãos e sementes. Em determinadas culturas, a dependência dos polinizadores é elevada, enquanto em outras sua atuação pode contribuir para ganhos de produtividade e qualidade. A Embrapa destaca a importância das abelhas para a produção de alimentos e para sistemas agrícolas de base ecológica.
Essa relação abre espaço para uma abordagem empresarial da meliponicultura, especialmente em propriedades que buscam diversificar fontes de renda sem exigir grande estrutura de mão de obra. As colônias podem ser manejadas em pequenas áreas e integradas a sistemas produtivos, inclusive como recurso de polinização dirigida. Para a agricultura familiar, a atividade pode representar uma alternativa complementar, associando produção de mel à prestação de um serviço ambiental de relevância crescente.
A lógica econômica, portanto, vai muito além do mel. Própolis, pólen, cera e bebidas fermentadas, como o hidromel, ampliam as possibilidades de aproveitamento comercial. A criação de abelhas também pode dialogar com turismo rural, educação ambiental e estratégias de valorização da biodiversidade. Essa multiplicidade de produtos e serviços permite pensar a atividade dentro de uma cadeia de valor mais ampla, na qual conservação e geração de renda podem caminhar de forma integrada.

as espécies apresentadas ao público da feira
Manejo, clima e conservação
A expansão da meliponicultura exige, contudo, manejo técnico, regularização e atenção à conservação das espécies. No Rio Grande do Sul, a criação de meliponíneos nativos está submetida a regras ambientais específicas, com procedimentos de autorização e cadastro para meliponários. O cuidado institucional é especialmente relevante porque a criação comercial precisa ser conciliada com a proteção das populações naturais e com a manutenção da diversidade genética.
As mudanças climáticas acrescentam outro componente à gestão dos enxames. Eventos de chuva intensa, frio, vento e alterações no regime de floração podem interferir na disponibilidade de alimento e na estabilidade das colônias. Nesse cenário, boas práticas de manejo, proteção das colmeias e planejamento ambiental ganham importância tanto para reduzir perdas quanto para preservar a capacidade produtiva dos sistemas. A programação da Expointer chama atenção justamente para estratégias destinadas a enfrentar condições climáticas adversas.
Ao colocar as abelhas nativas diante de um público que reúne produtores, empresas, estudantes e consumidores, a Expointer contribui para aproximar ciência, produção agropecuária e conservação da biodiversidade. O interesse despertado pelas pequenas colônias revela uma mudança importante na percepção sobre esses insetos: elas não representam apenas uma fonte de mel, mas parte da infraestrutura ecológica que sustenta a agricultura. Para o agronegócio, compreender e preservar esse patrimônio biológico significa incorporar a biodiversidade às decisões produtivas e ampliar as possibilidades de uma agricultura mais resiliente e economicamente diversificada.