Esferas da Expointer, um símbolo que nasceu de uma exposição internacional

Poucos elementos da Expointer carregam tanta força simbólica quanto as três grandes esferas instaladas na entrada do Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio. Presentes no local desde 1974, as estruturas passaram a integrar a paisagem da feira em um momento de expansão das exposições agropecuárias gaúchas e de abertura crescente para o intercâmbio internacional. Hoje, as esferas da Expointer representam memória, tradição e identidade, funcionando também como uma referência visual imediata para quem chega a um dos principais eventos do agronegócio brasileiro.

A história começou antes mesmo de elas chegarem a Esteio. As estruturas foram produzidas para uma exposição agropecuária realizada em Ijuí, município marcado pela presença de diferentes comunidades e por uma forte tradição de intercâmbio cultural. A então Alemanha Ocidental participou do evento e planejou utilizar as esferas também na segunda edição da Expointer. Concebidas originalmente como estruturas de exposição, elas foram transportadas desmontadas e posteriormente montadas no parque, onde passaram a cumprir uma função institucional durante a feira.

Naquele período, a Expointer ainda consolidava seu caráter internacional. A primeira edição, realizada em 1972, havia reunido representantes de 13 países, além de expositores de diferentes estados brasileiros, sinalizando uma nova dimensão para as exposições rurais do Rio Grande do Sul. Dois anos depois, a chegada das esferas coincidiu com esse processo de internacionalização. O episódio revela como relações institucionais e intercâmbios comerciais também ajudaram a construir a identidade histórica da feira, que gradualmente ampliou sua presença no calendário econômico e agropecuário nacional.

Um presente da então Alemanha Ocidental tornou-se patrimônio permanente da Expointer e do povo gaúcho
Um presente da então Alemanha Ocidental tornou-se
patrimônio permanente da Expointer e do povo gaúcho

De estruturas estrangeiras a patrimônio gaúcho

Ao término da exposição de 1974, surgiu uma questão prática: desmontar as três estruturas, transportá-las novamente e devolvê-las à Europa representaria um custo elevado. A solução encontrada foi deixá-las no Rio Grande do Sul como presente ao estado. Com isso, um conjunto concebido para uma participação internacional temporária passou a integrar definitivamente o patrimônio público, estabelecendo uma conexão duradoura entre a história da Expointer e a presença alemã no estado.

As esferas chegaram originalmente pintadas nas cores da bandeira da Alemanha Ocidental, em preto, amarelo e vermelho. Depois da incorporação ao patrimônio gaúcho, uma delas teve a cor preta substituída pelo verde, criando uma composição visual associada às cores do Rio Grande do Sul. A alteração ajudou a transformar as estruturas em algo maior do que simples estandes de uma exposição internacional. Ao longo das décadas, elas adquiriram identidade própria e passaram a ser reconhecidas como uma das marcas visuais da Expointer, acompanhando a evolução do evento e do próprio parque.

O percurso das estruturas também demonstra como um patrimônio pode ganhar novas funções sem perder sua referência histórica. Depois de um período em que foram pouco utilizadas, os espaços internos passaram a receber artesanatos e produtos produzidos por entidades e instituições filantrópicas. As estruturas, ocas por dentro e construídas em fibra de vidro, permitem circulação entre os ambientes por meio de passarelas. A transformação das esferas em espaços de visitação aproximou patrimônio, cultura e participação social, ampliando o significado de um elemento que poderia ter permanecido apenas como referência arquitetônica.

As esferas em 1974. Símbolos da Expointer, as estruturas acompanham a evolução econômica e tecnológica do agronegócio, conectando memória, cultura e tradição na paisagem do Parque Assis Brasil
As esferas em 1974. Símbolos da Expointer, as estruturas
acompanham a evolução econômica e tecnológica do
agronegócio, conectando memória, cultura e tradição
na paisagem do Parque Assis Brasil
Mais de 50 anos depois, as esferas continuam recebendo visitantes durante a Expointer e preservando parte da história da internacionalização do evento
Mais de 50 anos depois, as esferas continuam recebendo
visitantes durante a Expointer e preservando parte da
história da internacionalização do evento

Memória de uma feira que também se transformou

A trajetória das esferas acompanha, em muitos aspectos, a própria evolução da Expointer. O parque de Esteio foi inaugurado em 1970 para receber exposições de animais e, a partir de 1972, passou a sediar a Exposição Internacional de Animais. Em 1984, a feira deixou de ocorrer em intervalos bienais e tornou-se anual. Mais tarde, em 1998, a área do Parque Estadual de Exposições Assis Brasil foi ampliada de 64 para 141 hectares. A expansão física acompanhou a crescente diversidade de atividades, setores e negócios reunidos pela Expointer.

Esse processo também alterou profundamente o papel econômico da feira. O evento deixou de ser associado predominantemente à exposição de animais e passou a reunir máquinas, implementos, genética, agricultura familiar, tecnologia, inovação, serviços e diferentes segmentos da cadeia produtiva. Na edição de 2026, por exemplo, estão participando 7.926 animais de argola e rústicos e 509 expositores no Pavilhão da Agricultura Familiar, evidenciando a dimensão alcançada pela estrutura instalada em Esteio. Nesse cenário, preservar elementos históricos ajuda a conectar a modernização do setor às suas origens.

Mais de cinco décadas depois de sua chegada ao parque, as três esferas continuam ocupando um lugar singular na paisagem da Expointer. Não representam apenas uma lembrança de uma antiga participação estrangeira, mas uma parte concreta da história institucional da feira e das relações que ajudaram a moldar sua identidade. As esferas se tornaram patrimônio afetivo e visual do agronegócio gaúcho, testemunhando gerações de produtores, visitantes e empresas e acompanhando a transformação tecnológica e econômica do setor. Em uma feira que se reinventa a cada edição, elas permanecem como um elo silencioso entre passado, presente e futuro.

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