A certificação artesanal avança de forma concentrada e revela oportunidades pouco exploradas no Brasil, com Santa Catarina liderando o ranking do Selo Arte, mas quatro estados detêm quase todo o mercado de artesanais certificados do país
O levantamento de setembro do Ministério da Agricultura e Pecuária confirma a maturação de um mercado que vinha crescendo em ritmo discreto: 3.080 produtos artesanais já contam com o Selo Arte em todo o país. O número consolida a certificação como instrumento concreto de formalização para pequenos produtores e desenha um mapa de produção bastante assimétrico, no qual quatro estados concentram quase três quartos dos registros nacionais. Para o setor, o dado transforma o cadastro oficial em leitura obrigatória sobre para onde caminha o mercado de artesanais alimentares.
Santa Catarina assumiu a liderança isolada do ranking, com 638 produtos certificados, o equivalente a 20,7% do total. São Paulo aparece logo atrás, com 613 registros (19,9%), seguido por Minas Gerais, com 539 (17,5%), e pelo Rio Grande do Sul, com 498 (16,2%). Juntos, os quatro estados somam 2.288 produtos, ou 74,3% de todo o cadastro brasileiro. A disputa pelo topo foi acirrada: dois meses antes, os paulistas haviam alcançado os catarinenses, e a atualização de setembro recolocou Santa Catarina 25 registros à frente.
O levantamento também expõe os limites geográficos do programa. Apenas 20 das 27 unidades da federação figuram na relação oficial, e estados com vocação para o artesanato alimentar seguem com números modestos. Bahia, Pará e Ceará, por exemplo, somam juntos pouco mais de uma dezena de registros. O dado sugere que a certificação artesanal ainda é um fenômeno regional, e não um movimento nacional consolidado, o que deixa espaço relevante para expansão em praças hoje praticamente inexploradas.

a liderança de Santa Catarina (638) e a concentração da produção
certificada nos cinco primeiros colocados

dos registros do Selo Arte no cadastro oficial do Mapa
Concentração regional reflete estrutura produtiva e capacidade institucional
A leitura do ranking precisa considerar que o número de registros não mede, por si só, a dimensão econômica da produção artesanal de cada estado. Ele reflete, em boa medida, a maturidade dos serviços de inspeção locais, a existência de cadeias produtivas organizadas e a proximidade histórica entre produtores e órgãos de fomento. Onde há estrutura sanitária instalada e quadros técnicos disponíveis, a formalização avança em ritmo visivelmente mais rápido.
Sul e sudeste reúnem quase 90% dos registros, e a explicação combina fatores técnicos e institucionais. Tradição queijeira, cooperativas ativas, universidades e serviços de extensão rural consolidados criaram um ambiente favorável à regularização. Nos estados do norte e do nordeste, a distância entre o produtor e o órgão certificador, somada à carência de laboratórios e de inspetores, eleva o custo de entrada no mercado formal e adia a conversão de produção informal em negócio estruturado.
Para o empresário do setor, o mapa tem valor prático imediato. Regiões com baixa penetração do Selo Arte indicam nichos pouco explorados, nos quais a certificação pode funcionar como vantagem competitiva de primeiro movimento. Ao mesmo tempo, a concentração atual sinaliza que a disputa por espaço nas prateleiras já é real nos mercados do sul e sudeste, onde produtos certificados competem por atenção do consumidor e por canais de distribuição cada vez mais seletivos.

representam mais da metade dos produtos certificados
Lácteos puxam a expansão e regulamentação amplia o alcance do selo
Os derivados do leite dominam o cadastro: queijos e outros lácteos representam mais da metade dos produtos certificados no país. O dado acompanha a trajetória recente da regulamentação, que simplificou a comercialização interestadual do queijo artesanal e destravou um gargalo histórico do setor. O programa alcança ainda carnes e derivados, mel e produtos de abelhas, além de pescados, categorias com potencial de crescimento expressivo nos próximos ciclos de atualização do registro.
Do ponto de vista institucional, o Selo Arte pode ser concedido por órgãos de agricultura e pecuária municipais, estaduais, distritais ou federais, observadas as normas aplicáveis. Essa descentralização reduz burocracia e aproxima o produtor do serviço de inspeção. Para o agronegócio, o efeito prático é a ampliação do mercado formal para produtos que antes circulavam apenas no varejo local, com ganhos de escala, rastreabilidade e acesso a novos canais de venda.
A tendência aponta para continuidade do crescimento, ainda que em ritmo desigual entre as regiões. Enquanto os estados líderes refinam processos e ampliam categorias, o desafio das demais unidades da federação será estruturar capacidade técnica de inspeção. Para quem opera no setor, acompanhar o cadastro do Mapa passou a ser exercício estratégico: o selo deixou de ser detalhe regulatório e virou ativo comercial, capaz de abrir portas no varejo, no food service e, no horizonte próximo, na exportação.