Manchetes da semana – 26-09 a 02-10-2026

Brasil amplia fronteiras comerciais abrindo portas para o agro

A semana consolidou o agronegócio brasileiro como protagonista da agenda comercial do país, com uma sequência de aberturas que alcançou destinos da Ásia ao Oriente Médio. Na frente asiática, Brasil e China revisaram o protocolo sanitário bilateral para miúdos suínos, movimento que, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal, pode adicionar mais de US$ 100 milhões em receitas anuais e direcionar cerca de 100 mil toneladas do produto a um mercado avaliado em US$ 2,5 bilhões. A cadeia do milho também ganhou terreno: a Síria autorizou a entrada do grão brasileiro, enquanto Bangladesh liberou o DDG, coproduto do etanol de milho que já somou 825 mil toneladas exportadas em 2025, alta de 4,3% sobre o ano anterior. No Oriente Médio, o Kuwait abriu espaço para o mamão fresco nacional, e a Nicarágua ampliou o leque com sementes de berinjela. O pacote soma-se à confirmação de acesso para carnes, derivados de suínos, DDG e fibra de coco em cinco novos mercados, em um contexto em que as exportações do agro atingiram US$ 169,2 bilhões em 2025, avanço de 3% sobre 2024, e o país contabiliza 525 mercados abertos desde 2023, com meta de 700 até o fim de 2026. A diversificação geográfica reduz a dependência de poucos compradores e agrega valor a cada elo da cadeia produtiva, da fruticultura à indústria de etanol, consolidando a sanidade e a reputação como ativos estratégicos do comércio exterior brasileiro.

Produtores relatam falhas no sistema e FAEP pede mais prazo para o ITR

O Sistema FAEP encaminhou à Receita Federal pedido de prorrogação de 15 dias para a entrega da Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural de 2026, depois de relatos de produtores do Paraná sobre travamentos, lentidão e dificuldades para transmitir o documento. O prazo original terminava em 30 de setembro, após janela aberta em 10 de agosto. A entidade argumenta que falhas na plataforma comprometem o cumprimento da obrigação dentro do calendário e pede tratamento isonômico aos contribuintes que tentaram declarar dentro do período. O atraso na entrega expõe o produtor a multa de 1% ao mês sobre o imposto devido, com mínimo de R$ 50, além de riscos indiretos relevantes, como o bloqueio da Certidão Negativa de Débitos do imóvel e o impedimento de acesso ao crédito rural. A orientação das entidades é que os proprietários confiram os valores do Valor da Terra Nua antes da transmissão e busquem auxílio nos canais oficiais. A mobilização do setor também chama atenção para a capacidade de atendimento da declaração em ano de forte demanda, e a resposta da Receita ao pedido definirá o fechamento do calendário fiscal rural de 2026.

Recorde na pesca manejada, pirarucu gigante valoriza extrativistas de Rondônia, renovando a aposta na pesca sustentável
Recorde na pesca manejada, pirarucu gigante
valoriza extrativistas de Rondônia, renovando
a aposta na pesca sustentável

Pirarucu gigante é capturado em reserva na Amazônia

A pesca manejada do pirarucu (Arapaima gigas) voltou a ocupar o centro das atenções com uma captura histórica: um exemplar de 137,9 kg e 2,46 metros de comprimento foi retirado do Rio Cautário, na Reserva Extrativista Estadual Rio Cautário, em Costa Marques, Rondônia, no fim de setembro. O registro, divulgado pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Ambiental, não representa apenas um número de impacto. Ele evidencia o amadurecimento do modelo de manejo participativo, no qual moradores da reserva participam de toda a cadeia, da captura ao processamento do pescado, com apoio de frigorífico parceiro responsável pela conservação e pelo transporte. A espécie, endêmica da Bacia Amazônica e historicamente pressionada pela pesca predatória, encontrou no manejo comunitário um caminho de conservação com geração de renda: o controle da captura e o monitoramento das populações transformaram o pirarucu em ativo econômico para as comunidades ribeirinhas. Recordes como o de Rio Cautário reforçam a tese de que a preservação ambiental e a produção podem operar no mesmo ciclo, com resultado mensurável em peso, valor e conservação do estoque. Para o setor pesqueiro nacional, o caso serve de referência da pesca de base comunitária e da rastreabilidade do pescado amazônico como vantagens competitivas ante o mercado de proteínas.

Leite bate recorde mesmo com menos vacas ordenhadas

A pecuária leiteira brasileira confirmou novo recorde histórico: a produção alcançou 36,7 bilhões de litros em 2025, alta de 2,7% sobre o ano anterior, mesmo com a redução de 2,7% no número de vacas ordenhadas, conforme levantamento do IBGE. O dado carrega leitura econômica direta: o setor cresce por ganho de eficiência, e não por expansão de rebanho, o que reduz custos por litro e melhora o desempenho ambiental da atividade. A produtividade média por animal segue como o principal motor, com destaque para a região sul, que registra 4,3 mil litros por vaca ao ano, ante 2,9 mil no sudeste, 2 mil no centro-oeste, 1,7 mil no nordeste e 957 no norte. Minas Gerais segue como maior estado produtor, sustentando a força da cadeia láctea na região. O resultado reforça o papel da genética, da nutrição e da gestão de rebanho na modernização do setor, e coincide com a ampliação da demanda por derivados no mercado interno. Para o produtor, o cenário de oferta maior exige atenção à comercialização e à agregação de valor, com derivados e rastreabilidade como caminhos de remuneração. A série de recordes consecutivos confirma que a pecuária de leite brasileira atravessa a fase mais produtiva de sua história, com margem para evoluir ainda mais nas regiões de menor desempenho.

Jegue Land é o primeiro polo de ciência e tecnologia de asininos do Brasil

O Brasil ganhou o primeiro polo de ciência e tecnologia voltado a asininos do ecótipo nordestino, batizado de Jegue Land, iniciativa que une pesquisa, conservação de recursos genéticos e desenvolvimento de modelos sustentáveis de produção. Concebido como um laboratório a céu aberto, o projeto aproxima o conhecimento científico dos saberes tradicionais do campo e desenvolve tecnologias adaptadas às condições da caatinga, em parceria com universidades públicas como a Universidade Federal de Viçosa, a Universidade Federal do Agreste de Pernambuco e a Universidade Federal Rural de Pernambuco. As atividades estão organizadas em cinco frentes: conservação e genética; nutrição com uso de forragens do semiárido; manejo reprodutivo e sanitário; bem-estar animal; e avaliação da viabilidade econômica da cadeia produtiva. A iniciativa tem valor estratégico para a pecuária regional, pois o asinino nordestino, historicamente subutilizado, reúne potencial para trabalho, leite, pele e tração, com relevância cultural e econômica no sertão. Estruturar a cadeia significa gerar renda para comunidades do semiárido e assegurar a preservação de um patrimônio genético próprio do bioma, combinando sustentabilidade, conhecimento tradicional e ciência aplicada. O polo inaugura, na prática, um novo olhar sobre uma espécie que integra a paisagem e a história do campo brasileiro.

Touro Bravon com pelagem avermelhada típica, herda do zebuíno a alta resistência ao calor intenso em climas tropicais e a ectoparasitas
Touro Bravon com pelagem avermelhada típica,
herda do zebuíno a alta resistência ao calor intenso
em climas tropicais e a ectoparasitas

Bravon é reconhecida como nova raça nacional

A pecuária de corte brasileira ganhou um novo capítulo oficial: o Ministério da Agricultura e Pecuária reconheceu formalmente o Bravon como raça bovina no Brasil, por meio da Portaria SDA/MAPA nº 1.691, de 24 de setembro de 2026. O ato também autorizou a Associação Nacional de Criadores HerdBook Collares a realizar o registro genealógico oficial dos animais da raça, reunindo informações de ascendência, desempenho e avaliação que dão segurança ao melhoramento genético. A Bravon nasceu do cruzamento entre gado Devon e zebuínos, proposta que busca combinar a qualidade de carcaça e a precocidade das raças europeias com a rusticidade, a adaptação ao calor e a resistência a parasitas dos zebuínos, perfil valioso para os sistemas de criação brasileiros. O reconhecimento oficial não é apenas simbólico: ele estrutura o mercado da raça, facilita a seleção de reprodutores, organiza a base de dados genealógicos e abre espaço para programas de melhoramento com critérios técnicos. Para o criador, a segurança jurídica e zootécnica do registro valoriza o plantel e amplia as opções de biotipos adaptados às condições tropicais. O avanço se soma ao movimento de diversificação genética da pecuária nacional, cada vez mais orientada por eficiência, adaptabilidade e resposta ao mercado de carne de qualidade.

China nega uso da cota uruguaia e Brasil paga sobretaxa de 55% no excedente

A expectativa criada em torno da cessão do excedente da cota uruguaia de carne bovina à China não se confirmou no plano diplomático: Pequim não autorizou o uso da parcela não embarcada do país vizinho pelo Brasil neste ano nem no próximo. Com isso, vale a regra anunciada desde janeiro: a partir de 1º de outubro, remessas brasileiras que ultrapassarem 1,1 milhão de toneladas pagam sobretaxa de 55%, que, somada à tarifa padrão de 12%, eleva para 67% a carga sobre o excedente. A fatura é pesada em planejamento, já que o Uruguai deixaria de embarcar cerca de 80 mil toneladas de uma cota total de 324 mil toneladas para o mercado chinês. A movimentação uruguaia surgiu justamente para absorver volumes que o Brasil deixará de direcionar à União Europeia, após o bloco retirar o país da lista de fornecedores de produtos de origem animal por divergências no controle de antimicrobianos. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes estima queda de 10% nas exportações de carne bovina em 2026 diante das restrições combinadas da China e da UE. Em 2027, a cota brasileira se renova e cresce ligeiramente, para 1,128 milhão de toneladas, o que mantém o Brasil como maior detentor de cota da proteína junto ao mercado chinês, mas não elimina a necessidade de diversificar destinos e resolver as pendências sanitárias com o bloco europeu.

Queda na venda de máquinas agrícolas reflete aperto financeiro no campo

A indústria brasileira de máquinas e equipamentos agrícolas acumulou retração de 22,4% na receita líquida entre janeiro e agosto de 2026, somando R$ 36,3 bilhões, conforme dados da Abimaq. O mercado interno concentrou a queda, com recuo de 25,7% no período, enquanto as exportações cresceram 12,7%, a US$ 1,15 bilhão, reduzindo parcialmente o impacto sobre o setor. O desempenho reflete o aperto financeiro do produtor: endividamento elevado, custo alto do financiamento e efeitos do câmbio sobre as commodities reduziram a disposição de renovar o parque de máquinas. O segmento de colheitadeiras foi o mais atingido, com queda de 39,6% no acumulado e recuo de 43,1% na comparação de agosto com o mesmo mês de 2025, quando foram comercializadas 112 unidades ao usuário final. Para o agricultor, o cenário impõe maior seletividade nos investimentos e planejamento da renovação de tratores e colheitadeiras, com atenção às linhas de crédito disponíveis e ao momento de recomposição de margens. Historicamente, o mercado de máquinas acompanha o ciclo de renda da agricultura, e a recuperação depende da melhora dos preços das commodities e do acesso a financiamento em condições compatíveis com a rentabilidade das lavouras. O dado serve de termômetro da confiança do setor para as próximas safras.

Brasil amplia sua estrutura de exportação de carnes para a China com novas habilitações
Brasil amplia sua estrutura de exportação de carnes
para a China com novas habilitações

China habilita quatro novas plantas brasileiras e Brasil soma 150 unidades aptas a exportar carne

O Brasil ampliou sua estrutura de exportação de carnes para a China com a habilitação de quatro novas plantas industriais, anunciada pela Administração-Geral das Alfândegas do país asiático e confirmada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. No setor de carne bovina, entraram na lista a Supremo Carnes, em Carlos Chagas, Minas Gerais, e a Masterboi, em Canhotinho, Pernambuco. Para carne de frango, foram autorizadas a Avivar Alimentos, de São Sebastião do Oeste, também em Minas Gerais, e a Cooperativa Dália Alimentos, de Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul, que soma ao portfólio o acesso ao maior importador de proteínas do mundo. Com as novas habilitações, o Brasil passa a contar com 150 unidades aptas a exportar carnes à China, marca que consolida a posição do país como principal fornecedor de proteína animal do mercado chinês. O movimento ocorre em sintonia com a agenda de abertura comercial da semana, que incluiu o protocolo de miúdos suínos, e reflete a percepção das autoridades chinesas sobre a qualidade e a rastreabilidade do sistema sanitário brasileiro. Para as empresas habilitadas, o acesso direto ao mercado chinês significa ampliação de receita, melhor aproveitamento da capacidade instalada e ganho de competitividade. O resultado também demonstra que a continuidade dos investimentos em sanidade e defesa agropecuária é o ativo que sustenta a expansão do agro brasileiro nas rotas internacionais.

Terras raras: australiana Lynas compra Meteoric e Projeto Caldeira em MG

A cadeia global de minerais críticos ganhou contornos novos no Brasil com o anúncio de que a australiana Lynas Rare Earths fechou acordo vinculante para adquirir 100% da Meteoric Resources, dona do Projeto Caldeira, em Minas Gerais, em operação avaliada em US$ 672 milhões, cerca de R$ 3,4 bilhões na cotação atual. O negócio, feito por troca de ações, depende de aprovação dos acionistas e dos reguladores brasileiros, e será o primeiro grande teste do conselho criado pela nova Política Nacional de Minerais Críticos, recém-sancionada. O Projeto Caldeira concentra os elementos de maior valor da indústria: neodímio e praseodímio, essenciais para ímãs permanentes de veículos elétricos e turbinas eólicas, além de disprósio e térbio, aplicados em defesa e equipamentos de alta tecnologia. A Lynas é a única produtora fora da Ásia capaz de comercializar terras raras com elementos separados individualmente, etapa de maior valor agregado da cadeia, e a companhia sinaliza avaliar o processamento no Brasil, o que poderia posicionar o país na rota de refino dos minerais da transição energética. A produção do projeto está prevista para começar em 2028. Para o Brasil, o caso expõe a oportunidade e o desafio da política industrial mineral: atrair capital estrangeiro sem abrir mão de agregação de valor e soberania tecnológica, em setor estratégico para a descarbonização global. A Associação de Minerais Críticos do Brasil reúne cerca de 20 empresas com R$ 60 bilhões em projetos.

Justiça suspende ICMS na importação de pescado de SP e destrava fluxo de caixa do setor

O setor de importação de pescado conquistou importante alívio tributário em São Paulo. O Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo concedeu liminar suspendendo a cobrança antecipada do ICMS no desembaraço aduaneiro, em ação movida pela Associação Brasileira de Fomento ao Pescado, beneficiando de forma expressa todos os seus associados. A controvérsia começou com o Decreto Estadual nº 70.667 de 03 de junho de 2026, que alterou a regra de operações internas para saídas internas, afastando as importações do regime de diferimento e obrigando as empresas a recolher o tributo assim que a mercadoria chegasse à aduana. A defesa argumentou que mudança no momento de exigência tributária não poderia ser feita por decreto, e o tribunal acolheu o pedido com base no Tema 456 do Supremo Tribunal Federal, que condiciona a antecipação da cobrança à aprovação de lei específica. A decisão também reconheceu a realidade econômica da cadeia, marcada por produtos perecíveis, em que o pagamento antecipado compromete capital de giro e fluxo de caixa. O efeito é provisório e o processo segue em andamento, mas o precedente sinaliza avanço na segurança jurídica de um setor que disputa competitividade diante do avanço das importações e das pressões fiscais sobre a aquicultura nacional.

Setor apícola produziu 71,3 mil toneladas , valor 18,5% maior em 2025, com Rio Grande do Sul retomando a liderança na produção nacional de mel
Setor apícola produziu 71,3 mil toneladas , valor 18,5%
maior em 2025, com Rio Grande do Sul retomando
a liderança na produção nacional de mel

Apicultura renova recorde pelo oitavo ano

A apicultura brasileira renovou, pelo oitavo ano consecutivo, o recorde de produção. Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, o Brasil produziu 71,3 mil toneladas de mel em 2025, alta de 4,5% sobre o ano anterior, o maior volume da série histórica, com o valor da atividade alcançando R$ 1,2 bilhão, crescimento de 18,5% em um ano. As condições climáticas favoráveis ampliaram a oferta de recursos alimentares para as abelhas, viabilizando o avanço em escala nacional. O destaque regional veio do sul, que respondeu por 37,1% do mel produzido no país, com expansão de 18,8%, e devolveu ao Rio Grande do Sul a liderança entre os estados: 10,9 mil toneladas, avanço de 36,7% e 15,3% de participação nacional. Paraná aparece logo atrás, com 10,7 mil toneladas e alta de 7,1%, seguido pelo Piauí, com 8,6 mil toneladas e 12% do total, posição que confirma a força do nordeste na atividade. Minas Gerais e São Paulo completam a lista dos cinco maiores produtores. O resultado consolida a apicultura como cadeia estratégica do agro brasileiro, com capilaridade territorial, relevância exportadora e papel central na polinização de culturas, e reforça a trajetória de crescimento de volume e valor que sustenta renda no campo.