As pequenas vacas cachena, uma raça autóctone conhecida localmente como “vacas-cabra”, juntamente com as ovelhas galegas, comem quase tudo e conseguem percorrer terrenos montanhosos onde vacas maiores não alcançam
A paisagem rural da Galícia, no noroeste da Espanha, passa por uma transformação que une conservação da biodiversidade, manejo sustentável da vegetação e prevenção de incêndios florestais. Após registrar em 2025 um dos períodos mais severos de queimadas de sua história recente, comunidades rurais voltaram a investir na criação de raças autóctones para recuperar áreas abandonadas e reduzir o acúmulo de biomassa inflamável. Entre elas está a (NEG)cachena(NEG), conhecida popularmente como “vaca-cabra”, cuja rusticidade vem recolocando a pecuária extensiva no centro das estratégias de gestão territorial.
O retorno desses animais ocorre após décadas marcadas pela expansão de plantações comerciais de pinheiros e eucaliptos, espécies amplamente utilizadas pela indústria florestal e reconhecidas por sua elevada inflamabilidade. Paralelamente, o êxodo rural reduziu a presença humana no campo, favorecendo o crescimento desordenado de arbustos e gramíneas que funcionam como combustível durante os períodos de seca. Nesse cenário, o pastoreio voltou a ser tratado como ferramenta de manejo ambiental, associando produção agropecuária, conservação da paisagem e redução dos riscos de propagação do fogo.
Esse movimento representa uma mudança importante na forma como a pecuária é integrada às políticas públicas ambientais. Em vez de atuar apenas como atividade produtiva, o rebanho passa a exercer funções ecossistêmicas relevantes, contribuindo para o controle natural da vegetação, a manutenção de áreas abertas, a conservação da biodiversidade e a redução dos custos com intervenções mecânicas de limpeza. O modelo também amplia o debate sobre soluções baseadas na natureza, cada vez mais valorizadas em programas de adaptação às mudanças climáticas.

Gondomar, Espanha – Foto: REUTERS/Miguel Vidal

à medida que comunidades reintroduzem animais nativos
para reequilibrar ecossistemas e reduzir incêndios florestais
Raças tradicionais recuperam importância econômica e ambiental
Considerada a menor raça bovina da Península Ibérica, a cachena reúne características que explicam sua crescente valorização. Seu porte reduzido, a pelagem avermelhada, os longos chifres e, principalmente, sua extraordinária adaptação às áreas montanhosas permitem que alcance locais inacessíveis para bovinos convencionais. A capacidade de consumir uma ampla variedade de arbustos e vegetação espontânea lhe rendeu o apelido regional de “vaca-cabra”, tornando-se uma aliada natural no controle da biomassa combustível.
Além do valor ambiental, a cachena representa um patrimônio genético e cultural da pecuária espanhola. Durante séculos participou da rotina das pequenas propriedades da Galícia, sendo utilizada para tração, transporte e produção de alimentos. A modernização da agricultura e a substituição dos sistemas tradicionais provocaram uma forte redução do efetivo da raça. Nas últimas décadas, entretanto, programas de conservação, bancos genéticos e incentivos governamentais passaram a recuperar esse patrimônio zootécnico, reconhecendo sua importância para a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Outro destaque desse processo é a ovelha galega (Ovis aries celtibericus), raça autóctone reconhecida por sua rusticidade, fertilidade, longevidade e elevada adaptação às condições climáticas da região. Tradicional produtora de lã entrefina (tipo de lã de espessura média, diâmetro dos fios costuma ficar entre 24 e 36 micrômetros), apresenta dois ecótipos adaptados às áreas de planície e de montanha. Mesmo após significativa redução populacional nas últimas décadas, a raça continua sendo considerada estratégica para sistemas extensivos de produção, graças à sua resistência sanitária, eficiência reprodutiva e capacidade de aproveitar recursos forrageiros naturais.

perfeita adaptação ao terreno e ao clima da Galícia, tornando-a uma
verdadeira especialista na utilização dos recursos naturais da região
A Ovelha Galega
Modelo inspira novas estratégias de prevenção de incêndios
O processo de recuperação das raças nativas ganhou intensidade após os grandes incêndios registrados na comunidade de Vincios, em 2017. A partir desse episódio, associações locais retomaram práticas históricas de manejo, utilizando bovinos e ovinos para reduzir a vegetação rasteira composta por espécies altamente inflamáveis, como tojo, giesta e amoreiras silvestres. Ao consumir essa cobertura vegetal, os animais diminuem a continuidade do material combustível, reduzindo a possibilidade de que o fogo alcance a copa das árvores e se propague rapidamente.
Os resultados alcançados estimularam uma ampla mobilização regional. Segundo dados da associação Boaga, a população de raças autóctones passou de pouco mais de 1.800 animais no fim da década de 1990 para mais de 30 mil no início de 2026, incluindo aproximadamente oito mil exemplares da raça cachena. Incentivos públicos para retenção de novilhas, programas de reprodução assistida e fornecimento subsidiado de reprodutores ampliaram significativamente a recuperação dos rebanhos, consolidando um modelo que alia preservação genética, atividade econômica e gestão ambiental.
Nas áreas de pastagem comunitária, os animais utilizam coleiras equipadas com tecnologia GPS, permitindo o monitoramento remoto dos deslocamentos e reduzindo a necessidade de cercamentos permanentes. Em Vincios, uma das aproximadamente três mil comunidades que administram cerca de 700 mil hectares de terras comunais na Galícia, a integração entre produtores, cooperativas e poder público demonstra que a prevenção de incêndios depende de planejamento contínuo. Especialistas destacam que o pastoreio controlado apresenta resultados mais consistentes quando associado ao desbaste mecânico, à poda da vegetação e às queimadas prescritas realizadas por equipes técnicas. Em um contexto de mudanças climáticas e aumento da frequência de eventos extremos no sul da Europa, a combinação entre pecuária extensiva, conservação ambiental e gestão territorial emerge como uma estratégia capaz de gerar benefícios econômicos, ecológicos e sociais, oferecendo uma referência para outras regiões sujeitas aos mesmos desafios.