Expansão do trigo tropical é ameaçada pela brusone

O trigo ocupa posição estratégica na agricultura brasileira, tanto pela relevância econômica quanto pelo papel na diversificação dos sistemas de produção e no uso mais eficiente das áreas agrícolas ao longo do ano. Historicamente concentrado no sul e no sudeste, o cereal expande-se agora para o Brasil central, onde a combinação de solo fértil, tecnologia e novas cultivares abriu espaço para o chamado trigo tropical. A movimentação é expressiva: a área apta ao cultivo em ambiente tropical saltou de cerca de 200 mil hectares em 2018 para mais de 360 mil hectares em 2025, um crescimento de 80% em poucos anos.

Essa expansão, porém, esbarra em um adversário silencioso e de alto poder destrutivo: a brusone, doença causada pelo fungo Pyricularia oryzae, patótipo Triticum. Capaz de comprometer a produtividade de forma severa, a enfermidade tornou-se o principal desafio fitossanitário dos trigais do cerrado, tanto em sistemas de sequeiro quanto em áreas irrigadas. Em safras de alta pressão de inóculo, as perdas podem inviabilizar economicamente a lavoura, o que explica a centralidade do tema para técnicos, pesquisadores e gestores do agronegócio.

A safra de 2026 acendeu o alerta. Temperaturas mais elevadas e umidade relativa do ar mais alta, cenário favorecido pela irrigação por aspersão, criaram condições propícias à multiplicação do patógeno e à ocorrência de epidemias de brusone, sobretudo em cultivares mais suscetíveis. A experiência recente reforça uma lição que o setor não pode ignorar: o sucesso do trigo tropical depende de uma combinação precisa entre genética, época de semeadura, disponibilidade de água, fertilidade do solo e manejo fitossanitário integrado.

Espiga de trigo com sintomas de brusone: grãos chochos resultam da interrupção do fluxo de nutrientes pela doença
Espiga de trigo com sintomas de brusone: grãos chochos
resultam da interrupção do fluxo de nutrientes pela doença
Colmo de trigo com lesões de brusone-do-trigo - Foto: Angelo A. B. Sussel
Colmo de trigo com lesões de brusone-do-trigo
Foto: Angelo A. B. Sussel

Uma doença que ataca folhas, espigas e colmos

Compreender a brusone exige olhar para a biologia do patógeno e para a sua interação com o ambiente. O fungo se desenvolve melhor em períodos de chuvas constantes, com temperatura entre 24 e 28 graus e alta umidade relativa do ar, condições típicas do verão tropical. O mesmo microrganismo afeta mais de 50 espécies da família das gramíneas, incluindo arroz, cevada, milheto e aveia, o que amplia o pool de hospedeiros e dificulta o manejo em paisagens agrícolas diversificadas.

Os sintomas aparecem nas folhas, onde as lesões reduzem a área fotossinteticamente ativa da planta, mas o impacto econômico mais grave está associado à infecção das espigas. Quando o patógeno atinge o ráquis, o eixo da espiga, ou regiões próximas à inserção das espiguetas, interrompe o fluxo de água e de fotoassimilados para a parte superior. O resultado são grãos chochos ou a ausência de formação de grãos, perda que se materializa justamente no componente de maior valor da colheita.

Outra forma de dano tem chamado a atenção dos técnicos: a infecção na base do colmo, que leva à morte da planta, principalmente em cultivares de maior suscetibilidade. O manejo da doença, por isso, precisa ser pensado em duas dimensões complementares, a proteção da parte aérea durante o ciclo vegetativo e a proteção da espiga no período de espigamento e florescimento. A primeira reduz o potencial de inóculo e a segunda preserva o rendimento, especialmente quando o clima favorece a infecção.

Zoneamento Agrícola de Risco Climático orienta o posicionamento do trigo tropical e reduz a exposição à brusone e escolha da época de semeadura é ferramenta de controle da doença tão importante quanto a aplicação de fungicidas
Zoneamento Agrícola de Risco Climático orienta o posicionamento
do trigo tropical e reduz a exposição à brusone e escolha da época
de semeadura é ferramenta de controle da doença tão importante
quanto a aplicação de fungicidas
Somatório de horas com temperatura mínima abaixo de 15°C entre os meses de Maio e Agosto - Fonte: Embrapa Cerrados
Somatório de horas com temperatura mínima abaixo de 15°C
entre os meses de Maio e Agosto – Fonte: Embrapa Cerrados
Somatório de horas com temperatura máxima acima da média entre os meses de Maio e Agosto - Fonte: Embrapa Cerrados
Somatório de horas com temperatura máxima acima da média
entre os meses de Maio e Agosto – Fonte: Embrapa Cerrados
Somatório de horas de precipitação entre os meses de Maio e Agosto - Fonte: Embrapa Cerrados
Somatório de horas de precipitação entre os meses de Maio e Agosto
Fonte: Embrapa Cerrados

Manejo integrado começa antes da semeadura

A lição mais importante da triticultura tropical é que o controle da brusone não pode depender exclusivamente de fungicidas. O manejo eficiente começa antes da semeadura, com a escolha da cultivar. Materiais com maior resistência ou menor suscetibilidade à doença oferecem vantagem significativa em ambientes de risco elevado, e a pesquisa pública tem respondido a essa demanda: entre os lançamentos recentes para o cerrado figuram cultivares desenvolvidas justamente com foco em resistência à brusone para o sistema de sequeiro.

Ainda assim, a resistência genética não deve ser tratada como proteção absoluta, pois o desempenho das cultivares varia conforme o ambiente e a pressão da doença. A segunda decisão estratégica é a época de semeadura, ferramenta de controle tão importante quanto a aplicação de produtos. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático, o Zarc, orientado pelo Ministério da Agricultura, cruza dados de clima, solo, ciclo da cultivar e probabilidade de eventos adversos para indicar as janelas de plantio mais seguras em cada município.

Completam o conjunto o manejo racional da irrigação, evitando criar condições desnecessariamente favoráveis ao patógeno, e o controle químico integrado às demais medidas. A eficiência dos fungicidas depende do produto, da dose, da tecnologia de aplicação, do momento, da cobertura das plantas e da sensibilidade do patógeno. A Embrapa coordena uma rede de ensaios cooperativos que avalia anualmente a eficiência de fungicidas contra a brusone, fornecendo ao setor referências técnicas atualizadas para a tomada de decisão.

Colheita de trigo no Cerrado: expansão da cultura reduz dependência externa e diversifica a renda do produtor
Colheita de trigo no cerrado: expansão da cultura reduz
dependência externa e diversifica a renda do produtor

Economia, institucionalidade e o futuro do trigo tropical

Do ponto de vista econômico, a aposta no trigo tropical faz sentido estratégico. O Brasil consome mais trigo do que produz e depende de importações para equilibrar a oferta, o que torna a expansão da cultura no centro-oeste e no Matopiba uma oportunidade de redução da dependência externa. A proximidade dos mercados consumidores do centro-sul, os custos logísticos competitivos e a possibilidade de rotação com soja e milho agregam atrativos para o produtor que busca diversificação de renda.

O ambiente institucional acompanha a evolução. A Embrapa mantém programas dedicados ao melhoramento de trigo para o Brasil central, com mais de 15 hectares de experimentos na sua unidade do cerrado, e o Mapa atualiza periodicamente o zoneamento climático da cultura. Cooperativas e empresas do sul do país enviam técnicos para conhecer o sistema de produção tropical, sinal de que a cadeia produtiva enxerga na região uma fronteira agrícola real, e não um experimento passageiro.

O que a safra de 2026 deixou registrado é que o clima continua determinando o risco. O desenvolvimento da brusone resulta da interação entre temperatura, umidade, duração do molhamento, estádio fenológico, suscetibilidade da cultivar e presença de inóculo, variáveis que nenhum produtor controla integralmente. Por isso, a gestão de riscos deve ser tratada como sistema: clima, planta, patógeno e manejo permanecem interligados, e quem antecipa decisões, posicionando cultivares e semeaduras com base em dados técnicos, colhe a vantagem competitiva de produzir trigo tropical com previsibilidade e rentabilidade.

Fonte: Embrapa Cerrados

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