Documento lista 37 soluções para quatro setores e aponta a agropecuária como principal fonte do gás no Brasil, abrindo espaço para ganhos de eficiência
O debate sobre emissões de gases de efeito estufa começa a incorporar, com maior intensidade, um componente que durante anos recebeu atenção inferior à destinada ao dióxido de carbono (CO2). O metano (CH₄) tem permanência atmosférica relativamente curta, entre 10 e 20 anos, mas apresenta potencial de aquecimento cerca de 28 vezes superior ao CO₂ em um horizonte de cem anos. Por isso, sua redução passou a ser considerada uma das medidas mais rápidas para conter o avanço do aquecimento global.
Um novo caderno do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), ligado ao Observatório do Clima, reúne 37 propostas para reduzir emissões de metano no Brasil, distribuídas entre agropecuária, resíduos, mudança de uso da terra e florestas e energia. O levantamento mostra que o desafio é amplo e envolve políticas públicas, financiamento, governança, assistência técnica, planejamento territorial, monitoramento e adoção de tecnologias capazes de transformar conhecimento científico em resultados mensuráveis.
Segundo os dados apresentados, o Brasil emitiu 21 milhões de toneladas de metano em 2024, volume correspondente a aproximadamente 571 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. O país aparece entre os maiores emissores globais do gás. Enquanto determinadas fontes de dióxido de carbono apresentaram redução em períodos associados à queda do desmatamento, as emissões de metano mantiveram trajetória de crescimento. A evolução reforça a necessidade de incorporar o CH₄ de maneira mais efetiva ao planejamento climático e às estratégias de desenvolvimento do agronegócio.

metano e entra no centro da agenda climática brasileira

Agropecuária concentra maior parcela das emissões
A agropecuária ocupa posição central no diagnóstico. Em 2024, o setor respondeu por 15,7 milhões de toneladas de metano, aproximadamente 75,8% das emissões brasileiras do gás. Mais de 90% desse volume esteve relacionado à pecuária, o que coloca a atividade no centro das discussões sobre mitigação. O desafio, porém, não se limita à redução de emissões: envolve encontrar soluções economicamente viáveis que conciliem desempenho produtivo, eficiência dos sistemas e menor intensidade de carbono na produção de alimentos.
Elaboradas pelo Imaflora, as 15 propostas direcionadas à agropecuária abrangem diferentes etapas da cadeia produtiva. As medidas contemplam manejo dos animais e de resíduos, planejamento territorial, ampliação da assistência técnica e melhoria do acesso ao crédito. A lógica apresentada pelo relatório é integrar políticas e instrumentos já conhecidos, permitindo que práticas de mitigação deixem de ser iniciativas pontuais e passem a fazer parte da gestão das propriedades, dos municípios e das regiões produtoras.
Para o setor empresarial, esse movimento traz uma questão que ultrapassa a agenda ambiental. Reduzir metano também pode significar elevar produtividade e eficiência, especialmente quando as medidas estão associadas à melhoria do manejo, da alimentação animal, da gestão de resíduos e da organização dos sistemas produtivos. A adoção das soluções dependerá, contudo, de condições econômicas adequadas, informação técnica, capacidade de investimento e mecanismos de financiamento que permitam transformar recomendações ambientais em decisões concretas dentro das propriedades rurais.

estratégias para reduzir emissões de metano
Compromissos internacionais exigem escala e execução
A discussão também está relacionada ao Compromisso Global de Metano, firmado pelo Brasil na COP26, em Glasgow, com a meta internacional de reduzir as emissões do gás em 30% até 2030. O levantamento aponta, entretanto, que as emissões brasileiras continuaram crescendo desde então. O cenário coloca pressão sobre o país para aproximar compromissos diplomáticos, políticas públicas e instrumentos de implementação, sobretudo em setores nos quais a mitigação depende de milhões de decisões produtivas descentralizadas.
As demais propostas apresentadas pelo documento incluem 12 ações para resíduos, cinco relacionadas à mudança de uso da terra e florestas e outras cinco voltadas ao setor de energia. Entre as medidas estão o aprimoramento do manejo de aterros, eliminação de lixões, prevenção e combate a incêndios em vegetação nativa e redução de vazamentos e desperdícios nas cadeias de combustíveis fósseis. A diversidade das propostas evidencia que a agenda do metano exige coordenação entre diferentes setores da economia.
Para o agronegócio brasileiro, a redução do CH₄ tende a ganhar relevância nas estratégias de sustentabilidade, acesso a mercados e gestão de riscos climáticos. O relatório apresenta um conjunto de caminhos que pode aproximar mitigação de emissões, produtividade e eficiência na produção de alimentos, desde que acompanhado por políticas consistentes e instrumentos financeiros compatíveis com a realidade do campo. O próximo passo está menos relacionado à disponibilidade de conhecimento e mais à capacidade de transformar soluções conhecidas em ações coordenadas, tecnicamente adequadas e executadas em escala.
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