Estudo foi apresentado na sede da FAO, em Roma, e teve como proposta embasar a sustentabilidade global do setor, destacando avanços em sustentabilidade e produtividade
A pecuária de corte brasileira ganhou projeção internacional com a apresentação do estudo “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil 2025 a 2050”, desenvolvido pelo FGV Agro e apresentado na sede da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em Roma. O trabalho foi debatido durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura (Coag) e trouxe uma análise científica sobre os desafios relacionados às mudanças climáticas, à segurança alimentar e ao futuro da produção de proteína animal em escala global.
O levantamento mostra que a pecuária mundial atravessa um momento estratégico. Enquanto a demanda por proteína animal continua crescendo, importantes regiões produtoras registram retração de seus rebanhos. Mercosul, América do Norte e União Europeia apresentam reduções históricas em seus efetivos, cenário que contrasta com a posição do Brasil, que consolidou em 2024 o maior rebanho comercial bovino do mundo, com 192,6 milhões de cabeças. Esse contexto reforça a relevância do país no abastecimento global e amplia a responsabilidade do setor em avançar em práticas cada vez mais sustentáveis.
O estudo destaca ainda que a expansão da produção brasileira ocorreu paralelamente ao fortalecimento dos mecanismos de conservação ambiental. Atualmente, 66,3% da vegetação nativa do território nacional permanece preservada, enquanto apenas 30,2% da área do país é destinada às atividades agropecuárias. Na pecuária de corte, o desacoplamento entre produção e uso da terra tornou-se um dos principais indicadores de eficiência. Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina cresceu mais de 240%, enquanto a área ocupada por pastagens foi reduzida em aproximadamente 11%.

reforçando papel estratégico do agronegócio nacional
Essa evolução resultou no chamado efeito “poupa-terra”, estimado em 397 milhões de hectares preservados graças aos ganhos de produtividade alcançados nas últimas décadas. As projeções matemáticas do estudo indicam que as tecnologias já adotadas pelo setor podem reduzir em até 60% as emissões absolutas até 2050. Em termos de intensidade de carbono, a redução pode alcançar 80%, diminuindo significativamente a quantidade de emissões por quilo de carne produzida. Nos cenários mais avançados, alinhados às diretrizes do Plano ABC+, essa redução poderá chegar a expressivos 92,6%.
Grande parte desse desempenho está associada à adoção de sistemas produtivos mais eficientes, especialmente a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF) e a recuperação de pastagens degradadas. Esses modelos ampliam a capacidade de sequestro de carbono no solo, melhoram o aproveitamento da terra e aumentam a produtividade dos sistemas pecuários. As projeções indicam que, até 2050, a produção poderá permanecer em patamares elevados, alcançando 18,2 milhões de toneladas de carcaça, ao mesmo tempo em que a área de pastagens poderá ser reduzida em mais de 35%, sustentada pelo aumento da eficiência zootécnica.
A apresentação do estudo na FAO fortalece a credibilidade internacional da cadeia produtiva da carne bovina brasileira e amplia a visibilidade dos avanços alcançados pelo setor. O debate evidenciou que ciência, inovação, biotecnologia, recuperação de pastagens e sistemas integrados de produção são ferramentas essenciais para conciliar produtividade, segurança alimentar e mitigação das mudanças climáticas. Ao demonstrar resultados concretos e embasados tecnicamente, o Brasil reforça sua posição como fornecedor estratégico de alimentos e como protagonista na construção de uma pecuária cada vez mais sustentável e competitiva no cenário global.