CAMPO -  A importância dos trabalhadores rurais brasileiros

Produção agrícola do quilombo Cafundó

A palavra quilombo é originária do idioma africano quimbundo e significa “sociedade formada por guerreiros que pertenciam a grupos étnicos desenraizados de suas comunidades”. Glória Moura, em “Quilombos Contemporâneos no Brasil”, define quilombo como “comunidade negra rural habitada por descendentes de africanos escravizados, com laços de parentesco, que vivem da agricultura de subsistência, em terra doada, comprada ou secularmente ocupada por seus antepassados, os quais mantêm suas tradições culturais e as vivenciam no presente, como suas histórias e seu código de ética, que são transmitidos realmente de geração em geração”.

Um lugar que carrega na etimologia da palavra o significado de algo muito distante. O nome “Cafundó” é conhecido entre algumas expressões populares e “brincadeiras” como uma referência a um local no “fim do mundo”. No entanto, o quilombo chamado de Cafundó está apenas a 30 Km de Sorocaba (SP), localizada na área rural de Salto de Pirapora, a 12 Km do centro. Na área vivem cerca de 38 famílias que mantém as tradições africanas de um povo que foi escravizado. A história e cultura que resistiram ao tempo são passadas entre as gerações por meio da oralidade e pesquisas acadêmicas.

Vista aérea da comunidade
Vista aérea da comunidade

A Comunidade Quilombola do Cafundó existe oficialmente desde pelo menos 1888. É uma comunidade rural iniciada por Joaquim Congo e Ricarda que herdaram as terras do seu senhor, José Manoel de Oliveira, após ganharem a alforria do mesmo. Joaquim Congo e Ricarda tiveram duas filhas Antônia e Ifigênia mantendo-se assim no local, fazendo um pedido, que nunca se desfizessem das terras, que não abandonassem a luta pela cultura trazida da África, sendo a maior riqueza a língua africana, o dialeto “cupópia”. Desde então, grileiros invadem parte do território e, também, desde então até hoje as terras são habitadas por seus descendentes. Historicamente a comunidade sempre lutou pelas suas terras e chegou a perder figuras importantes que morreram defendendo os limites territoriais.

Por volta de 1985, o CONDEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) tombou parte do território como Patrimônio. Em 2009 foi oficialmente reconhecida como área demarcada após uma ampla articulação contra a disputa de terras e grilagem na região e em 2012, após muitas lutas, a comunidade quilombola conseguiu regularizar boa parte de seu território junto ao INCRA, a qual perdura ainda hoje, compreendendo uma área de 209,64 ha (Itesp).

No Cafundó tradições culturais africanas são transmitidas de geração em geração até os dias de hoje. A comunidade teve destaque no final dos anos 70 devido ao fato de que praticamente todas as pessoas falavam uma língua própria, algumas expressões derivadas do Banto, proveniente de Angola, conhecidas por “cupópia”, que significa conversa. O idioma era usado pelos escravizados para se comunicarem sem que o homem branco os entendesse.

Placa do reconhecimento pelo governo de SP

As atividades no quilombo

O Cafundó vive da produção de hortaliças, comercializadas na venda de cestas e pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), além disso a comunidade trabalha com polinização de abelhas, para incrementar a produção.

O pessoal também trabalha com artesanato. O quilombo busca manter viva a tradição dos ancestrais, caso da fabricação da boneca abayomi, a primeira de pano a entrar no Brasil. No passado, ela era feita pelas mães escravizadas, ainda no navio negreiro, para que fosse entregue aos filhos que seriam separados delas. A ideia é que o tecido, retirado da própria saia da mãe, daria pistas às crianças sobre de onde vieram.

Atualmente recebe visitantes através de agendamento prévio e tem desenvolvido atividades turísticas que auxiliam na preservação histórico-cultural da comunidade. O local possui uma excelente infraestrutura receptiva e conta com centro de visitantes, loja de artesanato, pousada, restaurante, área de plantio de hortifruti orgânico, Capela de Santa Cruz e o Centro da Memória.

Vivência cultural no Quilombo Cafundó
Vivência cultural no Quilombo Cafundó
Artesanato
Artesanato
Boneca abayomi
Boneca abayomi

O centro de visitantes acolhe os turistas que agendam a visita ao quilombo e possui dois alojamentos com capacidade para 32 pessoas se hospedarem, equipados com banheiros, além de uma cozinha e um salão onde os visitantes podem fazer suas refeições. A visitação oferece um roteiro que insere o visitante na história e na cultura quilombola ali existente, com oficina de artesanato, oficina sobre cultura orgânica, plantio e colheita, apresentação da história do quilombo através de fotos presentes na capela. O local conta ainda com uma loja onde são comercializados os artesanatos produzidos pela comunidade.

A comunidade é autossustentável, sendo que a maior parte de sua receita vem da venda de hortifrutis. O turismo surge como uma alternativa para incrementar a receita dos moradores da comunidade e também como forma de preservar a sua história. O local já recebe há anos visitas de escolas de São Paulo e da região de Sorocaba, através de agendamento prévio. Atendem também os turistas que praticam o cicloturismo em Salto de Pirapora.

A agricultura orgânica

A algum tempo atrás, a agricultura local era de subsistência. Apenas em 2012 com a concessão de uso da terra conseguiram plantar. Desta forma, obtiveram acesso a Programas do Governo tais como: PPAIS (Programa Paulista da Agricultura de Interesse Social); PAA (Programa de Aquisição de Alimentos) e PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar), conseguindo assim transformar uma agricultura de subsistência em sustentável.

Produtos orgânicos do Quilombo Cafundó
Produtos orgânicos do Quilombo Cafundó
Produtos orgânicos do Quilombo Cafundó

As terras do quilombo não são marcadas somente pela resistência de quilombolas, pela vivência e pela memória de seis gerações, mas também, mais recentemente, pelo sonho de Alex Aguiar, de 31 anos, de transformar antigas hortas em estufas e plantações de alimentos orgânicos que se espalhem pela propriedade. A comunidade está ganhando destaque pela produção de alimentos orgânicos, sendo uma das 36 identificadas e reconhecidas pelo Governo de São Paulo e que recebe assistência técnica e extensão rural da Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp), órgão vinculado à Secretaria da Justiça e Cidadania.

Os alimentos orgânicos são aqueles cultivados de maneira sustentável mediante a agricultura biológica (ou orgânica). Esse sistema não utiliza agrotóxicos, adubos químicos, aditivos sintéticos, antibióticos, hormônios, nem técnicas de engenharia alimentar. Em outras palavras, os alimentos orgânicos são aqueles que estão isentos de produtos químicos e insumos artificiais.

Nascido e criado no quilombo, Alex cresceu ajudando os pais, avós e tios a plantar para o próprio sustento. Mas a prática não tem relação apenas com a alimentação. O propósito do Quilombo Cafundó, explica o agricultor, é manter a cultura de seus ancestrais viva, plantar seu alimento e compartilhar com o próximo.

Alex Aguiar lidera os avanços tecnológicos na prática agrícola do Quilombo Cafundó
Alex Aguiar lidera os avanços tecnológicos na prática agrícola do Quilombo Cafundó

Aos 20 anos, Alex deixou a construção civil e, com ajuda dos irmãos, decidiu fazer cursos para melhorar a produção agrícola do quilombo com uso da mecanização, sem deixar de lado os cuidados com a terra, como ensinaram seus antepassados. Foi assim que a comunidade recebeu a certificação orgânica, já que o Cafundó produz tudo sem utilizar agroquímicos.

As mãos ganharam o reforço dos tratores, que ajudaram a melhorar a produção e permitiram o cultivo de outras culturas, como feijão, mandioca, milho e alface, além de 45 outros itens. Possuem três estufas que produzem hortaliças, uma horta, um pomar que produz laranja, mexerica, limão, banana, manga e abacate. Segundo o produtor, os mais velhos resistiram às tecnologias, ao uso de tratores, por exemplo, mas eles hoje veem que deu certo, que, com as máquinas, eles conseguem produzir ainda mais.

Além de servir ao consumo próprio, os agricultores, através da OCS (Organismo de Controle Social) “Curima no Turivimba”, que neste momento conta com a participação de 12 agricultores orgânicos, comercializam os alimentos produzidos na comunidade através de cestas para venda direta aos consumidores de entorno e pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), como também a mercados institucionais, empresas do ramo alimentício e ongs. Também fazem doações de cestas básicas de orgânicos a escolas, penitenciárias, outros quilombos e comunidades indígenas. Vale ressaltar a considerável participação das mulheres da comunidade, que são maioria dos integrantes da OCS, e de jovens filhos dos agricultores, garantindo assim a sucessão, a preocupação com o meio ambiente e com bem-estar social da comunidade.

Líder quilombola do Cafundó, Regina Aparecida Pereira, numa das estufas - Foto: Erick Pinheiro
Líder quilombola do Cafundó, Regina Aparecida Pereira, numa das estufas
Foto: Erick Pinheiro

Alex pretende não só continuar distribuindo alimentos orgânicos para quem precisa, como também passar adiante o que aplicou no Quilombo Cafundó.

Para o reconhecimento dos alimentos orgânicos produzidos pela OCS, a Superintendência do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Estado de São Paulo – MAPA, órgão responsável pelo credenciamento das OCS’s no Estado de São Paulo, exige o cumprimento de alguns requisitos como reuniões e visitas periódicas entre os agricultores para assegurar a rastreabilidade e qualidade dos alimentos orgânicos, através do controle social e do cumprimento da legislação do sistema orgânico de produção regulamentado pelo MAPA. A Fundação Itesp oferece apoio na estruturação da OCS, na articulação, logística, vendas institucionais e suporte técnico na produção, com assistência técnica e extensão rural, aplicada por um corpo técnico multidisciplinar que identifica os pontos fortes, fomenta o desenvolvimento a partir das inclinações e habilidades naturais e os anseios daqueles que compõe o território.

Contato para agendamento de visitas – Tel.: (11) 99623-8918

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