Estudo da UFRJ mostra os efeitos da reintrodução realizada há mais de meio século do tucano-de-bico-preto que volta a exercer papel essencial na regeneração florestal no Parque Nacional da Tijuca
Pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) publicaram na revista científica Oikos um estudo que avaliou os resultados da reintrodução do tucano-de-bico-preto (Ramphastos vitellinus ariel) no Parque Nacional da Tijuca, mais de cinco décadas após a soltura das primeiras aves. A iniciativa, conduzida entre 1970 e 1971 pelo primatólogo Adelmar Faria Coimbra-Filho, representou a primeira reintrodução documentada da espécie na região e teve como objetivo recuperar parte da fauna perdida em consequência do desmatamento e da pressão da caça.
Na década de 1960, o tucano-de-bico-preto chegou a ser considerado desaparecido da Floresta da Tijuca em razão da fragmentação dos habitats, da perda de cobertura florestal e da caça. A soltura de 47 indivíduos em diferentes pontos da Estrada da Vista Chinesa permitiu o restabelecimento gradual da população, tornando a presença da espécie frequente tanto no interior do parque quanto em áreas vizinhas. O estudo demonstra que programas de reintrodução, quando fundamentados em critérios científicos, podem contribuir para a recuperação da biodiversidade em ecossistemas degradados.

décadas recuperando funções naturais da floresta
Segundo a pesquisadora Flávia Zagury, uma das autoras do estudo orientada pela professora Rita Portela, do Instituto de Biologia da Universidade (IB), a Floresta da Tijuca passou por um processo histórico de defaunação, caracterizado pela redução ou desaparecimento de espécies animais. Esse fenômeno compromete funções ecológicas essenciais, entre elas a dispersão de sementes por animais, conhecida como zoocoria. A perda desses dispersores altera a regeneração natural da vegetação, modifica a composição florística e reduz a capacidade de manutenção da diversidade biológica ao longo do tempo.
A escolha do tucano-de-bico-preto para o programa de reintrodução teve fundamento ecológico. Trata-se de uma espécie frugívora de grande porte, capaz de percorrer longas distâncias e consumir frutos com sementes de variados tamanhos. Essas características fazem da ave um importante agente na dispersão de sementes e na regeneração das florestas. O retorno da espécie à unidade de conservação possibilitou a recuperação de interações ecológicas relacionadas ao consumo de frutos e ao transporte de sementes, processos fundamentais para o equilíbrio dos ecossistemas florestais.

contribui para a regeneração florestal concluiu o estudo
conduzido por pesquisadores da UFRJ
Para avaliar os resultados da iniciativa, os pesquisadores revisaram estudos científicos sobre a alimentação da espécie antes de seu desaparecimento e realizaram um ano de monitoramento em campo, registrando semanalmente as interações entre os tucanos e as plantas da floresta. A pesquisa verificou que a população reintroduzida restabeleceu grande parte das relações ecológicas esperadas, especialmente aquelas associadas às espécies vegetais que dependem de dispersores capazes de transportar sementes de médio e grande porte.
Os resultados mostram que os tucanos-de-bico-preto recuperaram 76% das interações de frugivoria esperadas, alcançando índices de 88% para sementes de porte médio e 89% para sementes grandes. O estudo também confirmou que a espécie se alimenta, sobrevive e se reproduz naturalmente, sem necessidade de manejo contínuo. As evidências indicam que a reintrodução realizada há 53 anos representa um caso bem-sucedido de restauração ecológica, demonstrando a importância do planejamento científico para recuperar processos naturais essenciais à conservação da biodiversidade brasileira.