Resgate genético de araucária monumental mobiliza pesquisadores da Embrapa para tentativa de clonagem e reforça debate sobre conservação florestal
A queda de uma das maiores araucárias do Brasil mobilizou pesquisadores da Embrapa Florestas em uma operação voltada ao resgate do material genético da árvore conhecida como “Pinheirão”, localizada na Estação Experimental da Embrapa em Caçador, em Santa Catarina, área onde também está localizada a Estação Experimental da Epagri do município. O exemplar de do pinheiro do paraná (Araucaria angustifolia) possuía 44 metros de altura e 2,45 metros de diâmetro à altura do peito (DAP), figurando entre as maiores araucárias já registradas no País. A árvore também era considerada um importante patrimônio científico devido às suas características raras de longevidade, porte monumental e resistência natural.
Assim que a queda foi identificada, equipes técnicas da Embrapa e da Epagri iniciaram uma força-tarefa para avaliar a viabilidade de coleta de brotações capazes de preservar o DNA do exemplar. O procedimento buscou identificar tecidos vivos aptos ao processo de enxertia em laboratório, etapa fundamental para uma possível clonagem da árvore. A expectativa dos pesquisadores é preservar características genéticas consideradas excepcionais, especialmente relacionadas ao crescimento, adaptação ambiental e resistência fisiológica da espécie, atributos estratégicos para pesquisas de conservação florestal e melhoramento genético.
Segundo os especialistas envolvidos, o momento ideal para a coleta desse tipo de material ocorre entre cinco e dez dias após a queda da árvore. Mesmo sem confirmação exata sobre quando ocorreu o tombamento, a equipe considerou que as brotações localizadas na copa ainda apresentavam potencial biológico para regeneração. O material coletado foi encaminhado ao laboratório para o processo de enxertia, cuja confirmação de sucesso deverá ocorrer em aproximadamente cem dias. O acesso à copa da árvore, devido à altura extrema do Pinheirão, era inviável em condições normais, tornando o tombamento a única oportunidade prática para obtenção do material genético superior.

brotações do Pinheirão. Essas brotações da copa
poderão viabilizar clonagem da árvore monumental
Araucária gigante simbolizava patrimônio científico e ambiental
A mobilização em torno do Pinheirão evidencia não apenas sua relevância científica, mas também o valor simbólico construído ao longo de décadas de convivência entre pesquisadores, técnicos e instituições parceiras. Desde 2003, equipes do Laboratório de Monitoramento da Embrapa Florestas, em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, realizavam atividades técnicas na área experimental de Caçador, onde a araucária se consolidou como referência em estudos de conservação e monitoramento florestal. Devido ao estado oco do tronco, optou-se historicamente por evitar procedimentos invasivos para definição precisa de sua idade, preservando a integridade estrutural do exemplar.
A determinação da idade exata do Pinheirão sempre representou um desafio técnico. O método mais preciso para essa finalidade é a dendrocronologia, baseada na análise dos anéis de crescimento formados anualmente no interior do tronco. Entretanto, a condição oca da árvore impossibilitava a coleta convencional por meio de trado. Em árvores íntegras, esse procedimento permite retirar amostras do lenho em direção ao centro do tronco, geralmente na altura padrão do DAP, equivalente a 1,30 metro do solo. Esse parâmetro segue critérios internacionais que garantem maior regularidade dos anéis e maior precisão comparativa entre estudos científicos.
Agora, com a árvore caída, os pesquisadores planejam coletar discos de regiões do tronco ainda preservadas, especialmente em áreas superiores onde a madeira permanece íntegra. A análise permitirá estimar uma idade mínima da árvore, embora não contemple os primeiros anos de crescimento, que não ficaram registrados na porção remanescente. Mesmo sem definição cronológica exata, o porte monumental da araucária transformou o Pinheirão em referência nacional e internacional para pesquisadores dedicados ao estudo da Floresta Ombrófila Mista e das chamadas árvores gigantes do sul do Brasil.

concentra exemplares raros de araucária, mas a
saturação do solo aumenta risco de tombamento
de árvores gigantes – Fotos: Katia Pichelli

ambiental e científico nacional – Fotos: Katia Pichelli

diferentes instituições brasileiras. À esquerda, a
árvore ainda sadia e em pé; No meio, a árvore já
com o tronco danificado; À direita, a gigante caída
Conservação de árvores gigantes ganha relevância diante das mudanças climáticas
O caso do Pinheirão reforça a crescente preocupação científica com a preservação de árvores gigantes diante dos efeitos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas florestais brasileiros. Pesquisadores nacionais e internacionais frequentemente visitavam o exemplar durante dias de campo promovidos na estação experimental de Caçador. Instituições como a FAO, a Universidade Politécnica de Madri, o Centro Agronômico de Investigação e Ensino (CATIE – Costa Rica) e a Rede Internacional de Bosques Modelo (Canadá) participaram de atividades técnicas na região, consolidando o Pinheirão como um dos símbolos da conservação florestal brasileira.
O professor Marcelo Callegari Scipioni, da Universidade Federal de Santa Catarina, coordena um dos principais levantamentos de árvores gigantes no sul do Brasil. As pesquisas mapeiam exemplares raros de araucárias, imbuias e outras espécies de grande porte, contribuindo para compreender padrões de crescimento, dinâmica ecológica e impactos ambientais sobre essas formações florestais. O levantamento também fortalece estratégias de conservação ao registrar indivíduos cada vez mais raros na paisagem brasileira. A redução desses exemplares é considerada um alerta para o avanço da degradação ambiental e para os impactos climáticos sobre ecossistemas sensíveis.
Estudos recentes coordenados por Scipioni indicam que o aumento de eventos extremos de chuva no sul do Brasil vem ampliando o risco de queda de árvores monumentais. Diferentemente do que tradicionalmente se imaginava, pesquisadores apontam que o principal fator associado ao tombamento não é o vento, mas a saturação do solo provocada pelo excesso de umidade. Em terrenos argilosos, a perda de resistência compromete a ancoragem das raízes e eleva a vulnerabilidade de árvores centenárias com copas amplas e grande massa estrutural. O fenômeno tem sido associado aos impactos climáticos intensificados pelo El Niño, ampliando a necessidade de monitoramento preventivo e políticas permanentes de conservação florestal.

sobre árvores centenárias no Sul do Brasil
Legado ambiental inspira ciência, cultura e preservação
Além da relevância científica, o Pinheirão também deixou um legado cultural e simbólico ligado à valorização das florestas nativas brasileiras. O fotógrafo Zé Paiva e o cinegrafista Gustavo Fonseca foram os últimos profissionais a realizar registros oficiais da árvore ainda em pé, durante produção audiovisual do projeto “Reinvenção da Natureza”, desenvolvido pelo SESC. As imagens integrarão uma exposição multimídia dedicada à Floresta Ombrófila Mista, reunindo vídeos, conteúdos imersivos e informações sobre árvores gigantes do sul do Brasil.
Segundo os responsáveis pelo projeto, o registro do Pinheirão ganhou significado ainda mais profundo após a queda da árvore. O trabalho percorreu 12 árvores gigantes brasileiras e buscou documentar não apenas a dimensão física desses exemplares, mas também sua relação com o território, a biodiversidade e a memória ambiental das regiões onde estão inseridos. A futura exposição deverá circular pelas galerias do SESC Concórdia e do SESC Itajaí, em Santa Catarina, ampliando o debate sobre conservação ambiental, patrimônio florestal e mudanças climáticas.
A tentativa de clonagem do Pinheirão representa hoje um dos principais esforços de preservação genética envolvendo araucárias gigantes no Brasil. O trabalho conduzido pela Embrapa Florestas poderá contribuir para futuras pesquisas sobre adaptação climática, conservação de espécies ameaçadas e recuperação de florestas nativas. Mais do que preservar uma árvore emblemática, a iniciativa simboliza a importância estratégica da ciência para proteção do patrimônio genético florestal brasileiro e para o desenvolvimento de políticas sustentáveis de conservação ambiental.