Estudo mostra que melanoma encontrado em até um terço dos bagres de um lago norte americano não surge dentro de cada peixe, circula de hospedeiro em hospedeiro há mais de uma década
Cientistas da Universidade de Vermont identificaram o que é considerado o primeiro câncer transmissível descrito em peixes, revelando uma forma de disseminação tumoral ainda extremamente rara no mundo animal. O fenômeno foi observado em bagres-marrons (Ameiurus nebulosus) do lago Memphremagog, corpo de água compartilhado por Vermont, nos Estados Unidos, e Quebec, no Canadá. Nesse caso, o melanoma não se desenvolve de maneira independente em cada indivíduo. As próprias células cancerosas passam de um peixe para outro, preservando características genéticas da linhagem tumoral original. O estudo foi publicado na revista Nature.
O achado amplia uma lista restrita de cânceres capazes de circular entre indivíduos sem depender de vírus, bactérias ou outro agente infeccioso convencional. Até agora, fenômenos semelhantes haviam sido documentados em cães, diabos-da-tasmânia (Sarcophilus harrisii) e pelo menos dez espécies de moluscos bivalves, cada grupo envolvendo mecanismos e trajetórias evolutivas particulares. Em cães, o tumor venéreo transmissível pode persistir por milhares de anos, enquanto nos diabos-da-tasmânia a doença facial apresenta elevada letalidade e contribuiu para expressiva redução populacional. Nos moluscos, tumores semelhantes à leucemia surgiram independentemente em diferentes linhagens.

Memphremagog. Pesquisa identifica linhagem de
células cancerosas capaz de passar entre peixes

e Quebec e abastece milhares de pessoas
A característica central desse fenômeno está na própria natureza da transmissão. Não se trata de um microrganismo que provoca câncer no hospedeiro, como ocorre em algumas infecções associadas ao câncer humano. É a célula tumoral que funciona como agente transmissível, carregando o material genético do animal no qual surgiu e estabelecendo-se posteriormente em outro indivíduo. Entre seres humanos, esse mecanismo nunca foi registrado. No lago Memphremagog, a investigação começou após biólogos e pescadores observarem manchas escuras e lesões elevadas na pele dos bagres. Entre 2014 e 2017, alterações desse tipo foram encontradas em 23% a 37% dos animais avaliados.
O primeiro caminho investigativo apontava para um possível problema ambiental. A espécie vive próxima ao fundo do lago, onde permanece em contato com sedimentos e pode acumular contaminantes, razão pela qual também é utilizada como indicadora da qualidade ambiental de ecossistemas aquáticos. A suspeita ganhou relevância após a passagem da tempestade tropical Irene, em 2011, que provocou enchentes e alterações na qualidade da água. Como o Memphremagog abastece mais de 175 mil pessoas, compreender a origem das lesões deixou de ser apenas uma questão de biologia animal e passou a envolver também monitoramento ambiental, saúde dos ecossistemas e gestão dos recursos hídricos.

próximos ao fundo e mantêm contato frequente com os sedimentos

semelhança genética entre diferentes indivíduos
A resposta surgiu quando os pesquisadores compararam o genoma dos tumores com o DNA de tecidos saudáveis dos mesmos peixes. O resultado contrariou a hipótese de múltiplos cânceres independentes. Os melanomas dos diferentes bagres eram geneticamente mais semelhantes entre si do que aos próprios hospedeiros, indicando uma origem comum. Em 686.296 posições analisadas no genoma, foram identificadas 245.189 alterações presentes nos tumores, mas ausentes nos tecidos saudáveis correspondentes. A repetição das mesmas alterações em diversos indivíduos revelou uma assinatura genética incompatível com a ocorrência independente de tumores.
A diferença ficou ainda mais evidente quando os pesquisadores compararam os resultados com dados de melanomas humanos reunidos no The Cancer Genome Atlas. Entre 463 tumores humanos analisados, 94% das mutações eram exclusivas de um único caso, enquanto uma parcela mínima aparecia repetidamente em diferentes pacientes. Nos bagres, 59% das alterações tumorais estavam presentes de maneira recorrente em vários indivíduos, um padrão que sustenta a existência de uma linhagem celular comum. A interpretação mais provável é que os tumores atuais descendam de um mesmo peixe fundador, em um evento ocorrido antes de 2015.

observarem, desde 2012, o aparecimento de manchas
escuras e lesões elevadas na pele dos peixes

nenhum risco conhecido para as pessoas. Vermont nunca
emitiu um alerta específico para o lago ou para o peixe

da Universidade de Vermont que investigam como células
tumorais conseguem alcançar novos hospedeiros
Ainda não está esclarecido como as células tumorais conseguem alcançar um novo hospedeiro. Uma das hipóteses considera o período reprodutivo, quando os bagres se concentram em águas rasas e apresentam maior contato físico. Outra possibilidade envolve células cancerosas presentes no sedimento, capazes de entrar no organismo por lesões na pele, pela boca ou pelas brânquias. Estresse ambiental e alterações temporárias da resposta imunológica também podem participar do processo. A investigação não encontrou vírus ou bactérias associados aos tumores, enquanto análises da água indicaram concentrações de poluentes semelhantes às registradas em outros lagos próximos.
A descoberta, portanto, vai além da descrição de uma nova doença. Ela abre uma frente de investigação sobre evolução tumoral, biodiversidade, sanidade de organismos aquáticos e equilíbrio dos ecossistemas de água doce. Estudos genéticos indicam que a linhagem pode ter surgido fora do Memphremagog, levando os pesquisadores a ampliar as coletas para outros corpos d’água de Vermont, New Hampshire, Maine e New Brunswick. Ainda não se sabe qual é o impacto populacional da doença, já que os bagres parecem conviver durante anos com os tumores. O principal desafio agora é compreender a origem, a transmissão e as consequências ecológicas dessa linhagem cancerosa.