O futuro dos geoparques brasileiros será discutido em evento na UFMT

O futuro dos geoparques brasileiros estará no centro dos debates entre 16 e 19 de setembro, em Cuiabá, MT, durante o encontro Geodiversidade em Conflito: entre possibilidades e desafios territoriais dos projetos de Geoparques brasileiros, realizado na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em conjunto com o VI Workshop do Geoparque Chapada dos Guimarães. A iniciativa reunirá pesquisadores, estudantes, gestores e representantes de projetos de diferentes regiões do país.

A programação propõe uma análise sobre como a geodiversidade pode ser incorporada às estratégias de desenvolvimento territorial, conciliando conservação, educação, turismo e participação social. O debate ganha relevância em regiões onde atividades produtivas, patrimônio natural, expansão urbana e turismo compartilham o mesmo território. Nesse contexto, a governança passa a ser elemento central para transformar atributos geológicos e paisagísticos em ativos capazes de gerar conhecimento, renda e oportunidades locais.

Mais do que preservar formações rochosas ou paisagens de interesse científico, os geoparques trabalham com uma visão integrada do território. A proposta envolve geoconservação, patrimônio cultural, identidade regional, educação e geoturismo, articulados com a participação das comunidades. Para municípios e regiões rurais, esse modelo pode abrir novas possibilidades de diversificação econômica, especialmente por meio do turismo de natureza, da valorização de produtos locais e da criação de serviços associados à economia territorial.

Cidade de Pedra, Parque Nacional de Chapada dos Guimarães. O nome do atrativo se deve às formações rochosas encontradas no local. Tais formações foram esculpidas durante anos devido a ação da chuva e vento
Cidade de Pedra, Parque Nacional de Chapada dos
Guimarães
. O nome do atrativo se deve às formações
rochosas encontradas no local. Tais formações foram
esculpidas durante anos devido a ação da chuva e vento

Projetos de longo prazo exigem governança

A palestra de abertura será conduzida por Marcos Antônio Leite do Nascimento, coordenador científico do Seridó Geoparque Mundial da UNESCO, que discutirá os caminhos para consolidar iniciativas brasileiras e integrar geodiversidade, geoconservação, geoturismo e desenvolvimento territorial. Ao longo do encontro, mesas, palestras, apresentações científicas e uma visita técnica abordarão governança, patrimônio geológico, geoética, comunicação, educação e participação comunitária.

A dimensão institucional também estará entre os principais pontos de discussão. Projetos de geoparque são iniciativas de maturação prolongada, geralmente construídas ao longo de 10 a 15 anos, com pesquisas, articulação política e trabalho permanente junto às comunidades. Esse horizonte exige continuidade administrativa, capacidade de planejamento e mecanismos de governança que sobrevivam às mudanças de governos e às oscilações de prioridades públicas.

Nesse cenário, a consolidação de uma política nacional voltada aos geoparques aparece como uma das questões estratégicas. Embora existam iniciativas avançadas em diferentes estados, os projetos ainda enfrentam obstáculos relacionados a financiamento, educação patrimonial, estrutura administrativa e integração entre instituições. A articulação entre universidades, órgãos públicos, setor privado e comunidades será decisiva para transformar conhecimento científico em planejamento territorial e oportunidades econômicas sustentáveis.

Cânions do Sul cânions foram "formados pelos processos geomorfológicos únicos que o continente sofreu durante a dissolução do supercontinente Gondwana há cerca de 180 milhões de anos", de acordo com a Unesco
Cânions do Sul foram formados pelos processos
geomorfológicos únicos que o continente sofreu durante
a dissolução do supercontinente Gondwana há cerca de
180 milhões de anos, de acordo com a Unesco

Turismo, educação e economia territorial

A agenda do encontro inclui ainda minicurso para professores, atividades culturais e apresentações de trabalhos, além dos concursos Geoparque em Desenho e Hércules Florence, de fotografia. As iniciativas aproximam educação e patrimônio territorial, permitindo que estudantes e moradores reconheçam elementos naturais e culturais presentes no próprio espaço onde vivem. Essa apropriação social é importante para dar continuidade aos projetos e ampliar sua legitimidade.

No concurso de desenho, estudantes de escolas de Chapada dos Guimarães serão convidados a representar o projeto de geoparque em três categorias. Já o concurso de fotografia será aberto à comunidade, com premiação para imagens relacionadas ao território. A programação demonstra como comunicação e participação comunitária podem integrar a estratégia de conservação, criando vínculos entre ciência, cultura, turismo e identidade local.

A dimensão econômica ajuda a explicar o interesse crescente pelo modelo. Atualmente, existem 241 geoparques reconhecidos pela UNESCO em 51 países. No Brasil, são seis: Araripe, no Ceará; Seridó, no Rio Grande do Norte; Uberaba, em Minas Gerais; Caçapava do Sul e Quarta Colônia, no Rio Grande do Sul; e Caminhos dos Cânions do Sul, entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Cada território associa patrimônio geológico a valores naturais, culturais e imateriais.

Situado na Chapada do Araripe, o Complexo Ambiental Mirante do Caldas é um equipamento que integra educação ambiental, cultura, turismo sustentável e economia criativa na região que abriga o Geoparque Araripe Mundial da UNESCO
Situado na Chapada do Araripe, o Complexo Ambiental
Mirante do Caldas é um equipamento que integra
educação ambiental, cultura, turismo sustentável
e economia criativa na região que abriga o
Geoparque Araripe Mundial da UNESCO

Para o agronegócio e para os gestores territoriais, essa abordagem oferece uma perspectiva relevante. O geoparque não substitui atividades produtivas nem transforma áreas rurais em espaços exclusivamente turísticos. Seu propósito é promover uso responsável do território, valorização do patrimônio e geração de oportunidades compatíveis com a conservação. A experiência internacional mostra que ciência, turismo e identidade regional podem compor estratégias de desenvolvimento quando existe planejamento de longo prazo.

O encontro de Cuiabá ocorre, portanto, em um momento de amadurecimento dessas iniciativas no país. Ao reunir projetos em diferentes estágios, pesquisadores e gestores, a proposta cria uma plataforma para comparar experiências, identificar gargalos e discutir modelos de governança. Para regiões que buscam novas fontes de renda e valorização territorial, geoparques podem representar uma ferramenta complementar de desenvolvimento, desde que sustentados por planejamento, participação social e políticas públicas consistentes.

Realizado pela Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), com patrocínio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso (CREA-MT), o evento pretende ampliar a integração nacional. A expectativa é que o debate contribua para aproximar ciência, gestão pública, comunidades, turismo e atividade econômica, colocando a geodiversidade no centro de uma agenda territorial capaz de conectar conservação ambiental e desenvolvimento de longo prazo.

Acesse as normas dos concursos de desenho e fotografia CLICANDO AQUI.

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