Broca-da-haste avança no café Conilon e alerta produtores

A cafeicultura brasileira acompanha com crescente atenção o avanço da broca-da-haste (Xylosandrus compactus), também conhecida como broca-da-rama, que vem ampliando sua ocorrência em áreas de café Conilon (Coffea canephora). Historicamente considerada uma praga secundária, a espécie passou a despertar preocupação em importantes regiões produtoras devido ao aumento da frequência de ataques e ao potencial de comprometer o desenvolvimento vegetativo das plantas, especialmente em ambientes favoráveis à sua multiplicação.

Embora existam mais de 850 espécies de insetos associadas aos cafeeiros, apenas uma pequena parcela apresenta relevância econômica. Nesse contexto, a broca-da-haste emerge como um novo desafio fitossanitário da cafeicultura brasileira, principalmente em lavouras de canephora. Técnicos e pesquisadores observam que sua incidência tem aumentado em regiões caracterizadas por temperaturas elevadas, alta umidade relativa do ar e presença de áreas sombreadas próximas a matas.

Diferentemente da broca-do-café (Hypothenemus hampei), que ataca diretamente os frutos e afeta a qualidade dos grãos, a broca-da-haste coloniza ramos e hastes da planta. Trata-se de um pequeno besouro da ordem Coleoptera amplamente distribuído nas regiões cafeeiras do mundo. Apesar da semelhança visual com a broca dos frutos, seu comportamento biológico e os danos provocados são distintos, exigindo estratégias específicas de monitoramento e manejo.

Broca-da-haste (Xylosandrus compactus), Coleoptera, Curculionidae: Macho e fêmea em vista dorsal e lateral
Broca-da-haste (Xylosandrus compactus), Coleoptera,
Curculionidae: Macho e fêmea em vista dorsal e lateral
Fêmea adulta do besouro Xylosandrus compactus, em um galho de magnólia-do-sul - Foto: Lyle J. Buss/Universidade da Flórida
Fêmea adulta do besouro Xylosandrus compactus,
em um galho de magnólia-do-sul
Foto: Lyle J. Buss/Universidade da Flórida
Orifício de entrada, com a casca removida, do besouro Xylosandrus compactus. Pequenos orifícios de emergência, com 0,7 a 0,9 mm de diâmetro, associados a câmaras de cria na medula de um galho morto, são sinais de infestação - Foto: Lyle J. Buss/Universidade da Flórida
Orifício de entrada, com a casca removida, do besouro
Xylosandrus compactus. Pequenos orifícios de emergência,
com 0,7 a 0,9 mm de diâmetro, associados a câmaras de
cria na medula de um galho morto, são sinais de infestação
Foto: Lyle J. Buss/Universidade da Flórida

Biologia e sintomas dificultam a identificação

Estudos e observações de campo indicam que a praga prefere perfurar a face inferior dos ramos plagiotrópicos (ramos laterais de crescimento horizontal que têm a função principal de dar flores e frutos) sadios e de menor espessura, onde constrói galerias internas utilizadas para alimentação, reprodução e desenvolvimento. Nessas estruturas são depositados os ovos que darão origem a novas gerações. As fêmeas possuem asas e capacidade de dispersão, enquanto os machos são ápteros e raramente são encontrados fora da câmara de cria, permanecendo no interior das galerias durante todo o ciclo de vida. As fêmeas têm de 1,4 a 1,9 mm de comprimento e os machos de 0,8 a 1,1 mm.

Uma característica que aumenta a complexidade do problema é o fato de o inseto permanecer protegido no interior dos tecidos lenhosos da planta. A colonização da região medular dos ramos do cafeeiro dificulta a identificação precoce da infestação, uma vez que os sintomas externos costumam ser discretos ou inexistentes nos estágios iniciais do ataque. Em muitos casos, a presença da praga somente é confirmada após cortes nos ramos e inspeções técnicas detalhadas.

Essa condição favorece a evolução silenciosa da infestação e pode levar produtores a confundirem os sintomas com outros problemas fitossanitários ou até mesmo com estresses fisiológicos da cultura. Em algumas regiões produtoras do Espírito Santo, especialmente em áreas localizadas em faces sombreadas e próximas a fragmentos florestais, relatos de campo apontam níveis severos de ataque da broca-da-haste, reforçando a necessidade de vigilância constante.

À esquerda, galho infestado com pupas e adultos na galeria. À direita, produtor segurnado galho com folhas aparentemente secas, sinais de infestação
À esquerda, galho infestado com pupas e adultos
na galeria. À direita, produtor segurnado galho com
folhas aparentemente secas, sinais de infestação

Monitoramento e manejo serão decisivos

Diante do avanço da praga, especialistas recomendam intensificar o monitoramento preventivo das lavouras de café Conilon, principalmente durante períodos de maior umidade, quando as condições ambientais favorecem a reprodução e dispersão do inseto. Inspeções frequentes, treinamento das equipes de campo e avaliações detalhadas dos ramos tornam-se ferramentas fundamentais para detectar focos iniciais e reduzir a propagação dentro da propriedade.

A correta diferenciação entre a broca-da-haste e a broca-do-café é outro aspecto estratégico para o manejo. Como atacam partes distintas da planta e apresentam comportamentos biológicos diferentes, a adoção de medidas inadequadas pode comprometer a eficiência do controle. O acompanhamento técnico especializado tem papel importante na definição das melhores práticas para cada situação de campo.

Apesar dos avanços nas observações a campo, ainda existem poucas pesquisas sobre métodos específicos de controle da broca-da-haste, e atualmente não há defensivos registrados exclusivamente para essa finalidade. Os resultados mais promissores têm sido obtidos por meio da integração de práticas culturais, como poda e eliminação dos ramos infestados, associadas ao uso de agentes biológicos, como o fungo Beauveria bassiana, e inseticidas utilizados no manejo da broca dos frutos. Além disso, a identificação de clones mais suscetíveis reforça a importância de considerar a presença da praga no planejamento de novos plantios e na escolha dos materiais genéticos.

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