Praga silenciosa alerta para manejo da cana

O controle de pragas subterrâneas continua entre os principais desafios da canavicultura brasileira, especialmente diante da crescente pressão exercida pelo Sphenophorus levis, conhecido como bicudo-da-cana, uma das pragas de maior impacto econômico para a cultura no centro-sul do país. Com maior incidência em períodos de estiagem, o inseto compromete diretamente o sistema radicular e os rizomas da planta, reduzindo a capacidade de desenvolvimento da lavoura. Os prejuízos incluem diminuição da produtividade, enfraquecimento das soqueiras e redução da longevidade dos canaviais, fatores que afetam diretamente a rentabilidade da atividade.

O elevado potencial destrutivo do bicudo-da-cana está associado ao seu comportamento biológico. Durante grande parte de seu ciclo de vida, os estágios de ovo, larva e pupa permanecem protegidos no interior do solo e das touceiras, dificultando a identificação precoce da infestação. As larvas são responsáveis pelos danos mais severos, ao abrir galerias verticais nos rizomas e provocar a morte de perfilhos e, em situações mais graves, de toda a touceira. Isso resulta no ressecamento e morte dos perfilhos novos, enquanto nos mais desenvolvidos, é possível observar o ressecamento das folhas de fora para dentro da touceira. Já os adultos permanecem escondidos entre colmos, restos culturais e galerias subterrâneas, podendo originar quatro a cinco gerações por ano, ampliando rapidamente a população da praga.

Adulto, pupa e larva do inseto. Larvas atacam estruturas subterrâneas essenciais ao desenvolvimento da cana
Adulto, pupa e larva do inseto. Larvas atacam estruturas
subterrâneas essenciais ao desenvolvimento da cana

Consideradas um dos maiores entraves da moderna produção de cana-de-açúcar, as pragas de solo atacam estruturas essenciais para o desenvolvimento da planta. No caso do bicudo-da-cana, as perdas podem alcançar até 25 toneladas por hectare ao ano, dependendo do nível de infestação e das condições da área. Como os sintomas costumam ser percebidos apenas quando os danos já estão avançados, muitos produtores enfrentam redução significativa do potencial produtivo antes mesmo de identificar a presença da praga.

Diante desse cenário, especialistas destacam que o manejo preventivo e o monitoramento constante dos canaviais são fundamentais para reduzir riscos e preservar a produtividade. Entre as principais recomendações estão a utilização de mudas sadias, a higienização de máquinas e implementos agrícolas após operações em áreas infestadas, a adoção do vazio sanitário e a destruição mecânica da soqueira em locais com elevada incidência. Como o inseto não possui capacidade de voo, sua dispersão ocorre principalmente por meio de mudas contaminadas e resíduos vegetais transportados por equipamentos agrícolas.

Ciclo do bicudo da cana (Sphenophorus levis). Praga subterrânea ameaça produtividade e longevidade dos canaviais - Fonte: Felipe Kato
Ciclo do bicudo da cana (Sphenophorus levis). Praga subterrânea
ameaça produtividade e longevidade dos canaviais – Fonte: Felipe Kato

O monitoramento frequente permite identificar focos iniciais da infestação e direcionar medidas de controle mais eficientes. Nesse contexto, a utilização de produtos biológicos como ferramenta para complementar o manejo, vem sendo um grande aliado dos produtores, principalmente, a Beauveria bassiana e os nematoides entomopatogênicos (Steinernema carpocapsae). Também o tratamento químico aplicado na soqueira e no sulco de plantio continua sendo uma ferramenta importante dentro das estratégias de manejo integrado de pragas (MIP). Quando utilizado de forma técnica e associado a práticas preventivas, o controle químico contribui para a redução populacional do inseto e para a proteção do potencial produtivo da lavoura ao longo dos ciclos de cultivo.

O avanço da pesquisa e da inovação tem disponibilizado ao mercado novas tecnologias voltadas ao controle do bicudo-da-cana, incluindo soluções sistêmicas aplicadas diretamente no solo, na região radicular das plantas. Esses produtos oferecem efeito de choque aliado a ação residual prolongada, podendo reduzir significativamente os níveis de infestação e favorecer a manutenção do vigor das soqueiras. Além de contribuir para a sustentabilidade, longevidade e rentabilidade dos canaviais, a adoção dessas tecnologias deve ser sempre acompanhada por orientação técnica especializada, garantindo eficiência operacional, segurança agronômica e conformidade com as recomendações de uso. É crucial compreender a biologia da praga, saber identificar os sintomas, realizar um levantamento adequado para determinar a % de tocos atacados e utilizar as ferramentas de manejo disponíveis para buscar melhor efetividade no controle.

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