O cenário é preocupante pela perda gradual de eficiência das ferramentas de controle, desafiando o manejo que exige nova estratégia no campo
A lagarta-rosca, fase larval da mariposa Agrotis ipsilon, voltou ao centro das preocupações na cultura do milho em função de sua alta capacidade de dano nos estádios iniciais da lavoura. O ataque ocorre logo após a emergência das plântulas, comprometendo diretamente o estande e impactando o potencial produtivo desde o início do ciclo. Em cenários de controle ineficiente, os prejuízos se ampliam, elevando custos operacionais e exigindo intervenções adicionais, como replantio.
Os adultos são mariposas que apresentam envergadura aproximada de 35 mm e elevada capacidade reprodutiva, com fêmeas depositando cerca de mil ovos ao longo do ciclo. As larvas permanecem enterradas no solo, emergindo durante a noite para cortar plântulas rente à superfície. Esse comportamento dificulta a detecção precoce, tornando o monitoramento uma etapa crítica para o manejo eficiente. Em plantas mais desenvolvidas, a praga pode causar sintomas como “coração morto”, ao abrir galerias, ou provocar o perfilhamento excessivo destas, gerando uma touceira (perfilhamento anormal).
A ocorrência está frequentemente associada à presença de plantas hospedeiras na área antes da semeadura, como espécies daninhas que funcionam como abrigo e fonte alimentar inicial como a língua-de-vaca (Rumex obtusifolius) e o caruru (Amaranthus viridis). A permanência dessas plantas no sistema produtivo contribui para a manutenção da população da praga, ampliando o risco de infestação logo após a implantação da cultura. Esse fator reforça a importância de práticas preventivas no manejo integrado.

Condições favoráveis e evolução dos danos no campo
Ambientes com sistema de plantio direto, elevada quantidade de palhada e sucessão de gramíneas tendem a favorecer o estabelecimento da lagarta-rosca. Essas condições criam microambientes propícios à sobrevivência das larvas no solo, protegendo-as de variações climáticas e de agentes de controle. A combinação entre abrigo físico e disponibilidade de alimento amplia a pressão inicial da praga, especialmente em áreas com histórico recorrente de infestação.
O padrão de ataque é tipicamente silencioso, dificultando a percepção imediata do problema. Durante o dia, as lagartas permanecem escondidas sob restos culturais ou no solo, enquanto à noite realizam o corte das plantas. O efeito agronômico se manifesta rapidamente, com tombamento, murcha ou desaparecimento de plantas em reboleiras, gerando falhas significativas no estande. Essas desuniformidades comprometem a eficiência do uso de insumos e reduzem o teto produtivo da lavoura.
Em situações de maior severidade, o replantio torna-se necessário, elevando custos e introduzindo variabilidade no desenvolvimento das plantas. Esse cenário impacta diretamente o planejamento produtivo e a rentabilidade da safra. A fase inicial do milho, altamente sensível, torna-se um ponto crítico de vulnerabilidade, exigindo maior precisão nas decisões de manejo.

Foto: W.M. Hantsbarger

Resistência e perda de eficiência das tecnologias
Além dos danos diretos, o avanço da resistência representa um dos principais desafios no controle da lagarta-rosca. O uso repetitivo de inseticidas com os mesmos modos de ação, especialmente grupos como piretroides e organofosforados, associado ao manejo inadequado de tecnologias Bt, intensifica a pressão de seleção sobre a praga. Esse processo favorece a sobrevivência de indivíduos menos sensíveis, que passam a predominar nas populações ao longo das safras.
A evolução da resistência ocorre de forma gradual e muitas vezes imperceptível no curto prazo, mas seus efeitos se acumulam. Com o tempo, observa-se redução na eficácia das aplicações, aumento na frequência de intervenções e elevação dos custos de produção. O sistema produtivo torna-se mais dependente de novas tecnologias e mais vulnerável a falhas de controle, comprometendo a sustentabilidade econômica da atividade.
A ausência de estratégias de manejo adequadas acelera esse processo, reduzindo a vida útil das ferramentas disponíveis. Nesse contexto, a resistência deixa de ser um risco potencial e passa a ser um fator concreto de limitação produtiva. Preservar a eficiência dos inseticidas e das tecnologias Bt torna-se, portanto, um objetivo central do manejo moderno.

Estratégias integradas para mitigação do risco
Diante desse cenário, o manejo da lagarta-rosca exige uma abordagem integrada, que vá além do controle químico isolado. O monitoramento sistemático desde a emergência da cultura é essencial para identificar precocemente o ataque, avaliar o nível de infestação e orientar decisões mais assertivas. A inspeção de plantas cortadas e a verificação da presença de larvas no solo são práticas fundamentais, evitando aplicações desnecessárias e aumentando a eficiência do controle.
A rotação de modos de ação dos inseticidas e o uso criterioso de híbridos Bt, aliados à implantação de áreas de refúgio, são medidas estratégicas para retardar a evolução da resistência. Essa abordagem busca manter populações suscetíveis no sistema, reduzindo a velocidade de adaptação da praga. A gestão adequada dessas ferramentas é determinante para a longevidade das tecnologias disponíveis.
Práticas culturais também desempenham papel relevante, incluindo o manejo antecipado de plantas daninhas, a rotação de culturas e o controle do excesso de palhada. A análise do histórico dos talhões contribui para decisões mais precisas e preventivas. A integração dessas estratégias permite reduzir a pressão inicial da praga e aumentar a resiliência do sistema produtivo, evitando que um problema recorrente se transforme em prejuízo estrutural.