Lagarta oriental ameaça lavouras brasileiras

A lagarta oriental (Mythimna separata), considerada uma praga quarentenária ausente no Brasil, passou a integrar o grupo de ameaças fitossanitárias que exigem atenção preventiva do setor agrícola nacional. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) identificou que diversas regiões brasileiras apresentam condições climáticas favoráveis ao estabelecimento da espécie, especialmente em áreas com elevada relevância econômica para culturas como trigo, milho, arroz, cana-de-açúcar e sorgo. Os resultados reforçam a necessidade de fortalecer os sistemas de vigilância e monitoramento para evitar a introdução e disseminação da praga no país.

A pesquisa utilizou técnicas avançadas de modelagem de nicho ecológico por meio do algoritmo MaxEnt, integrando registros internacionais de ocorrência da espécie, variáveis climáticas, altitude e indicadores de produção agrícola. A metodologia permitiu elaborar mapas de aptidão climática e de risco econômico em escala municipal. A análise combinou cinco níveis de probabilidade de ocorrência da praga com cinco níveis de importância econômica das culturas hospedeiras, gerando uma avaliação detalhada das áreas potencialmente mais vulneráveis. A integração entre fatores ambientais e econômicos amplia a precisão das estratégias de prevenção fitossanitária.

Entre as culturas avaliadas, o trigo apresentou a maior exposição ao risco potencial. Dos municípios produtores analisados, 48,9% foram classificados como de alto risco e 45,8% como de risco moderado, caso a espécie seja introduzida no território nacional. Na cana-de-açúcar, 47,1% dos municípios enquadraram-se em risco moderado e 17% em risco elevado. O arroz apresentou 28,7% dos municípios em risco moderado e 8,5% em risco alto, enquanto o milho registrou 29,2% e 5,5%, respectivamente. No sorgo, embora o risco elevado seja reduzido, a presença de áreas suscetíveis também foi identificada.

A mariposa da lagarta oriental (Mythimna separata). Estudo identificou áreas agrícolas brasileiras com alta vulnerabilidade
A mariposa da lagarta oriental (Mythimna separata). Estudo
identificou áreas agrícolas brasileiras com alta vulnerabilidade
A lagarta Mythimna separata. Sul e Sudeste concentram maior favorabilidade climática
A lagarta Mythimna separata. Sul e Sudeste
concentram maior favorabilidade climática

Os resultados apontam que as regiões Sul e Sudeste concentram os maiores níveis de vulnerabilidade, resultado da sobreposição entre condições climáticas adequadas e elevada produção agrícola. A pesquisa demonstrou que a temperatura média anual foi o principal fator determinante para a distribuição potencial da praga, respondendo por 41,64% da capacidade explicativa do modelo. A sazonalidade térmica contribuiu com 20,96% e a altitude com 19,31%. Os pesquisadores verificaram maior aptidão em áreas com temperaturas próximas de 15°C e altitudes inferiores a 500 m, características encontradas em importantes polos agrícolas brasileiros.

Além da favorabilidade climática, a capacidade de dispersão da espécie representa um fator adicional de preocupação. Estudos citados pelos autores indicam que adultos de Mythimna separata realizam migrações em altitudes entre 50 e 500 m, alcançando velocidades de até 12 m/seg e voos noturnos com duração aproximada de dez horas. Esse comportamento permite deslocamentos de até 144 quilômetros em uma única noite, aumentando significativamente o potencial de expansão territorial após uma eventual introdução da praga em áreas agrícolas.

A análise global revelou que extensas áreas cultivadas no mundo já estão inseridas em zonas favoráveis ao desenvolvimento da espécie. Aproximadamente 35% das áreas produtoras de arroz, 39% das áreas de milho e 46,9% das áreas de trigo encontram-se em regiões classificadas como moderadamente ou altamente adequadas. No Brasil, os dados chamam ainda mais atenção para culturas estratégicas, uma vez que 90,7% das áreas de arroz e 36,2% das áreas de cana-de-açúcar estão localizadas em ambientes climaticamente favoráveis à lagarta oriental.

Registros de ocorrência de Mythimna separata obtidos na literatura e no banco de dados Global Biodiversity Information Facility (GBIF), sobrepostos às zonas climáticas de Köppen-Geiger utilizadas como plano de fundo no processo de modelagem
Registros de ocorrência de Mythimna separata
obtidos na literatura e no banco de dados Global
Biodiversity Information Facility (GBIF)
, sobrepostos
às zonas climáticas de Köppen-Geiger utilizadas como
plano de fundo no processo de modelagem
Índice de Concentração Normalizada (nCI) para milho, arroz, sorgo, cana-de-açúcar e trigo em municípios brasileiros. As classes de nCI foram derivadas utilizando o método de quebras naturais (Jenks), com intervalos rotulados para refletir a distribuição contínua dos dados
Índice de Concentração Normalizada (nCI) para milho, arroz, sorgo,
cana-de-açúcar e trigo em municípios brasileiros. As classes de nCI
foram derivadas utilizando o método de quebras naturais (Jenks),
com intervalos rotulados para refletir a distribuição contínua dos dados

Para mensurar o impacto econômico potencial, os pesquisadores utilizaram o Índice de Concentração Normalizado (nCI), ferramenta que avalia o grau de dependência econômica dos municípios em relação às culturas hospedeiras. Os resultados mostram que 36,6% dos municípios produtores de trigo apresentam dependência moderada a muito alta dessa atividade. Na cana-de-açúcar, esse percentual alcança 22,9%, enquanto milho, arroz e sorgo também registram níveis relevantes de concentração produtiva. A combinação entre alta aptidão climática e forte dependência econômica aumenta significativamente o potencial de perdas caso a praga seja introduzida.

Helicoverpa armigera, popularmente conhecida como lagarta-armigera, com ampla distribuição geográfica, sendo registrada em diversos continentes, incluindo a América do Sul. No Brasil, foi identificada oficialmente em 2013 - Foto: José Roberto Salvadori
Helicoverpa armigera, popularmente conhecida como
lagarta-armigera, com ampla distribuição geográfica,
sendo registrada em diversos continentes, incluindo a
América do Sul. No Brasil, foi identificada oficialmente
em 2013 – Foto: José Roberto Salvadori
Cydia pomonella, originária do sudeste da Europa. Atualmente, ela ocorre em todas as áreas produtoras de maçã no mundo, exceto em algumas partes da Ásia. No Brasil, foi erradicada em 2014
Cydia pomonella, originária do sudeste da Europa. Atualmente,
ela ocorre em todas as áreas produtoras de maçã no mundo,
exceto em algumas partes da Ásia. No Brasil, foi erradicada em 2014

Diante desse cenário, o estudo recomenda a priorização de medidas preventivas em pontos de entrada e municípios considerados estratégicos. Entre as ações sugeridas estão a instalação de redes de armadilhas, inspeções direcionadas de produtos agrícolas, protocolos padronizados de notificação e planos municipais de contingência. Os autores citam experiências anteriores envolvendo pragas como Helicoverpa armigera e Cydia pomonella para demonstrar a importância da detecção precoce. O mapeamento em escala municipal surge como ferramenta essencial para orientar investimentos em vigilância fitossanitária e fortalecer a proteção) da agricultura brasileira contra futuras invasões biológicas.

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