CAMPO -  A importância dos trabalhadores rurais brasileiros

Butiazal

No coração do Bioma Pampa, uma iniciativa está ganhando força, conectando pessoas e ecossistemas em prol da conservação e uso sustentável da biodiversidade. A Rota dos Butiazais surgiu como uma rede de cooperação, unindo Brasil, Uruguai e Argentina em um esforço conjunto para preservar os remanescentes dos preciosos ecossistemas de butiazais e promover valorização cultural e econômica. A ideia é uma iniciativa da Embrapa, quando foi criada oficialmente em março de 2015 pelo então Chefe da Embrapa Clima Temperado, Dr. Clênio Nailto Pillon, quando foi apresentada na 9ª Festa do Butiá, no município de Giruá/RS. Ao fim deste mesmo ano, no Sindicato Rural de Tapes/RS, Embrapa Clima Temperado e Ministério do Meio Ambiente (MMA) assinaram o Termo de Execução Descentralizada (TED) para implantação do projeto.

A rota cresceu e prosperou tanto que, por iniciativa do Deputado Estadual Eduardo Loureiro, foi aprovada e sancionada a Lei n° 15.673 de 27 de julho de 2021 que institui no Estado do RS a Rota dos Butiazais. Atualmente, fazem parte da rota 66 municípios: são 56 no Brasil (biomas Pampa, Mata Atlântica e Cerrado), 6 no Uruguai e 4 na Argentina.

Mapa da Rota dos Butiazais
Mapa do bioma pampa

Em cada um dos municípios que integram a Rota dos Butiazais existe pelo menos uma liderança local, que representa a diversidade de atores que compõe a rede. Essas lideranças incluem artesãs, extrativistas, agricultores familiares, pecuaristas, gestores públicos, extensionistas rurais, pesquisadores, professores universitários, coordenadores de ONGs, guias de turismo, ambientalistas, guarda-parques e empresários.

O projeto tem como objetivo principal não apenas a preservação ambiental, mas também o desenvolvimento socioeconômico das regiões envolvidas. Por meio da articulação entre conhecimentos científicos, oferta de serviços ecossistêmicos e a promoção de atividades geradoras de renda, a A Rota dos Butiazais/Red Palmar (termo em espanhol para se referir à Rota dos Butiazais) busca fortalecer a identidade regional e promover a inclusão social nos territórios onde os butiazais ainda resistem. Apesar dos butiás serem uma fonte de renda adicional para as comunidades locais, com o uso dos frutos na produção de alimentos e bebidas, o uso das folhas como matéria prima para artesanato ou gerando novos atrativos turísticos relacionados aos ecossistemas de butiazais, ainda são espécies subutilizadas e negligenciadas.

Butiazal em Tapes/RS - Foto Luís André Sampaio
Butiazal em Tapes/RS – Foto Luís André Sampaio

A iniciativa articula conhecimentos com a oferta de serviços ecossistêmicos e outros serviços para geração de renda em territórios relacionados com remanescentes de ecossistemas de butiazais ou onde o valor histórico e cultural do butiá se destaca. Vem sendo construída considerando aspectos sociais, culturais, ambientais e econômicos, procurando conectar atividades de pesquisa científica com ações de desenvolvimento local e associando avanços no conhecimento com a formação de agentes multiplicadores voltados para o uso sustentável do butiá, fortalecendo a identidade regional, a geração de renda e a inclusão social nos locais em que ainda existem butiazais.

Uma preocupação constante é o trabalho de replantio das palmeiras nativas, que estão ameaçadas de extinção. Em geral, as populações de butiá têm um elevado potencial de recuperação de ecossistemas, devido a sua maior variabilidade genética dentro das populações. São resgatadas milhares de mudas de butiás em locais onde não conseguiriam se desenvolver até a fase reprodutiva, e replantados em regiões adequadas para o pleno desenvolvimento.

Butiás colhidos - Foto: Paulo Lanzetta

Os Butiazais

O butiá é uma palmeira que vive em clima subtropical. Um butiazal é a denominação dada a um contingente significativo de butiás. Algumas espécies de palmeiras, como o butiá, formam extensas populações e até hoje não há uma explicação sobre porque este fenômeno acontece.

Os butiazais são agrupamentos de palmeiras do gênero Butia, com densidades que variam desde poucas dezenas até várias centenas de plantas por hectare. Existem 22 espécies dessas palmeiras, conhecidas como butiás ou butiazeiros, que ocorrem no Brasil (biomas Pampa, Mata Atlântica e Cerrado), Argentina, Uruguai e Paraguai. No Rio Grande do Sul são 8 espécies (Soares, et al., 2014), todas ameaçadas pela ação antrópica: Butia catarinensis, B. eriospatha, B. exilata, B. lallemantii, B. odorata, B. paraguayensis, B. witeckii e B. yatay. Quatro dessas espécies (B. catarinensis, B. eriospatha, B. odorata e B. yatay) constam na Portaria Interministerial MAPA/MMA nº 10, de 21 de julho de 2021, que lista as espécies nativas da sociobiodiversidade de valor alimentício, para fins de comercialização in natura ou de seus produtos derivados.

Butiá (Butia odorata)
Butiá (Butia odorata)

Butia odorata é a espécie de mais ampla ocorrência no Bioma Pampa, com a presença de vários agrupamentos com centenas e até milhares de butiazeiros formando ecossistemas de butiazais próximos às grandes lagoas, em áreas de restinga e em solos arenosos, no litoral médio e sul do Rio Grande do Sul, no Brasil, e no leste do Uruguai. Essa espécie foi descrita pela primeira vez em 1826, por Martius, como Cocos capitata Mart. Foram feitas várias revisões taxonômicas até ser nomeada como Butia capitata. Em 2010 houve uma ampla revisão da taxonomia do gênero Butia. A denominação Butia capitata ficou restrita para uma espécie que ocorre no Cerrado, conhecida popularmente como coquinho azedo, enquanto a espécie que ocorre no Bioma Pampa, que até então era denominada de Butia capitata, passou a ser denominada de Butia odorata.

O butiazeiro, ou butiá, como Butia odorata é conhecido popularmente, é uma palmeira com estipe (“tronco” das palmeiras) solitário e ereto, que pode chegar a 12 m de altura e 60 cm de diâmetro. As folhas pinadas verde-acinzentadas, bráctea (“estojo” das inflorescências) peduncular lenhosa e lisa, com uma raque que pode chegar a 2 m de comprimento. Apresenta um pseudopecíolo de 30 a 75 cm de comprimento, com espinhos em suas margens, com 35 a 60 folíolos de cada lado, distribuídos em um mesmo plano.

As flores de Butia odorata são unissexuais, ou seja, existem flores masculinas e flores femininas, as quais ocorrem na mesma inflorescência (cacho de flores) e possuem formatos distintos. A raque das inflorescências, medindo de 90 a 146 cm de comprimento, apresenta ramificação ao nível de primeira ordem, ou seja, com ráquilas. Cada raque contém de 78 a 158 ráquilas. As ráquilas da parte basal são mais longas do que as da parte apical. A maioria das plantas de Butia odorata floresce de setembro a janeiro e frutifica de fevereiro a abril.

Características do Butia odorata

Os frutos são ovóides a depresso-globosos, de cor amarela, alaranjada ou avermelhada, medindo 1,8 a 2,6 x 1,4 a 3,2 cm. Possuem mesocarpo carnoso, fibroso e comestível (polpa) e endocarpo duro e denso (coquinho), com 1 a 3 sementes (amêndoas), contendo elevados teores de vitamina C e carotenoides, altas concentrações de potássio e compostos antioxidantes que atuam na manutenção da saúde. O peso total de fruto varia de 7 a 14 g, com uma porcentagem de polpa de cerca de 70%. São consumidos in natura e usados na elaboração de bebidas e grande variedade de alimentos doces e salgados. As amêndoas também são comestíveis e podem ser usadas em diversos produtos alimentícios. Elas contêm óleo de alta qualidade, que pode ser usado para desenvolver novos produtos pela indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética. Existe uma grande variação genética para as características dos frutos, resultando em várias cores de frutos maduros, além de diferentes tamanhos, texturas de casca e quantidade de fibras na polpa.

As folhas, as espatas (canoas), as fibras da polpa dos frutos e os coquinhos são usados por artesãos para a produção de bolsas, chapéus, cestos e vários outros objetos utilitários e decorativos. Essas palmeiras, muitas com mais de 250 anos de idade, formam amplos agrupamentos conhecidos como butiazais. Fazem parte da paisagem e da história onde ocorrem, mas estão ameaçados pela expansão imobiliária e conversão das áreas em monoculturas.

Os ecossistemas de butiazais são reconhecidos pelo seu valor paisagístico, de biodiversidade, histórico-cultural e econômico. Os campos nativos associados aos butiazais abrigam uma grande diversidade de espécies de fauna e flora nativas. Destacam-se gramíneas e leguminosas, com reconhecido valor forrageiro. As plantas são tolerantes a baixas temperaturas. São muito apreciadas para o paisagismo, devido ao belo porte.

Cachaça de butiá
Cachaça de butiá

A tradicional cachaça com butiá, que faz parte da cultura do povo gaúcho, e o dito popular “me caiu os butiás do bolso” indicam uma relação histórica das pessoas com os butiás. Essa relação remonta a milhares de anos, com registros arqueológicos de consumo de butiás e de suas amêndoas há 8.500 anos pelos indígenas que habitavam o Pampa. Com a chegada dos colonizadores europeus, e, posteriormente, dos imigrantes, os butiás foram incorporados aos hábitos locais.

A conservação dos butiazais

Os butiazais são ecossistemas muito antigos, com uma grande biodiversidade associada e uma ampla distribuição nos países de ocorrência (Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai). No Brasil, podem ser encontrados nos biomas Pampa, Mata Atlântica e Cerrado. Porém, devido às mudanças no uso da terra que vêm acontecendo nos últimos 50 anos, atualmente estão ameaçados de extinção. Para garantir a conservação dos remanescentes dos ecossistemas de butiazais, tem sido desenvolvidas estratégias que permitem a conservação dos butiazais aliada à produção pecuária, ao extrativismo sustentável e ao turismo rural.

Pecuária no butiazal
Pecuária no butiazal

Manejo da pecuária para conservação do butiazal e do campo nativo no bioma Pampa

O manejo conservativo da pecuária é uma alternativa para a manutenção dos processos naturais de regeneração dos butiazais e a conservação do campo nativo no bioma Pampa. Está baseado no uso racional dos campos nativos associados aos butiazais, com exclusões de pastejo e de roçadas durante o inverno. Desta forma, as novas mudas de butiá que se desenvolvem no local podem escapar da ação do pastejo, do pisoteio e da roçada.

Colheita de butiás
Colheita de butiás

Boas práticas para o extrativismo sustentável (colheita dos frutos)

  • Evitar a colheita de todos os frutos dos butiazeiros em uma área. É importante deixar sempre alguns butiás em cada palmeira, para permitir o desenvolvimento de novas mudas e a alimentação dos animais silvestres.
  • Não colher frutos imaturos ou danificados, já que estes podem servir como alimento para a fauna e podem contribuir para a regeneração do butiazal.
  • Evitar a colheita de frutos em locais perto de rodovias, onde pode haver contaminação com produtos tóxicos derivados da queima de combustível. Também se recomenda evitar a coleta próxima a áreas onde tenham sido aplicados produtos agrícolas (herbicidas, inseticidas e fungicidas).
  • Utilizar ferramentas apropriadas para o corte do cacho de butiá, evitando maltratar e produzir danos na planta, prejudicando-a ou comprometendo colheitas posteriores.
Butiazal - Foto: Rosa Lia Barbieri
Butiazal – Foto: Rosa Lia Barbieri

A importância turística da Rota dos Butiazais

O turismo rural combinado com trilhas ecológicas tem despertado o interesse de turistas que buscam um contato direto com a natureza e a exuberância de belas paisagens. A modalidade ganha cada vez mais espaço e força como fonte de renda de populações locais aliada ao uso sustentável dos recursos naturais, unindo produtores rurais, comunidades e turistas. A Paisagem Cultural como linha de concepção de uma rota turística desenvolve relação multissecular entre os processos naturais e as atividades antrópicas possibilitando o desenvolvimento de um equilíbrio dinâmico, assentado numa estrutura de interdependência e complementaridade de funções. Essa Paisagem Cultural pode ser considerada uma Paisagem Viva, continuada através do seu papel social, articulado com a preservação e a evolução sustentável dos modos de vida e processos produtivos tradicionais.

O conceito reúne bens culturais e naturais nas suas dimensões materiais e imateriais. Do ponto de vista da preservação, o que identifica essas paisagens a serem protegidas é o caráter peculiar dessa relação tecida ao longo do tempo e que se revela a partir das formas específicas de uso e apropriação da natureza pelo trabalho humano. Essas relações podem tanto materializar-se na sua morfologia, como podem ser explicitadas por meio de valores que lhe são atribuídos socialmente.

Grupo de turistas numa área de butiazal
Grupo de turistas numa área de butiazal
Butiás para serem comercializados nas comunidades
Butiás para serem comercializados nas comunidades

Os butiazais podem ser compreendidos como testemunhos excepcionais de uma tradição cultural, como exemplo de ecossistema que ilustra períodos significativos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil. Neste sentido, é representativo de culturas indígenas, de imigração europeia e de interação de humanos com o ambiente e está associado às ideias, crenças, obras artesanais, culinária, obras literárias e à construção de memórias. Também representa área de beleza natural, sendo habitat de espécies que têm valor na salvaguarda de outros ecossistemas. Dos dez critérios indicados (Item 77 do documento) pela UNESCO, em um primeiro levantamento empírico, sem maior profundidade, os butiazais do Rio Grande do Sul preenchem, no mínimo, cinco dos exigidos.

Muito recentemente, no Brasil, a paisagem cultural apareceu como uma nova categoria para a preservação do patrimônio cultural. Os butiazais também podem ser definidos como Paisagem Cultural, de acordo com as definições do IPHAN, considerando-se que da imbricada relação do homem com a natureza surge uma característica fundamental de paisagem cultural: a ocorrência, em determinada fração territorial, do convívio entre a natureza, os espaços construídos e ocupados, os modos de produção e as atividades culturais e sociais, numa relação complementar capaz de estabelecer uma identidade que não possa ser conferida por qualquer um desses elementos isoladamente (IPHAN, 2009). A particularidade observada nesse conceito remete vividamente ao trabalho junto aos butiazais, à relação de uso sustentável e à identidade conferida aos artesãos e culinaristas do butiá.

Em consonância com a UNESCO, o IPHAN regulamentou a paisagem cultural como instrumento de preservação do patrimônio cultural brasileiro por meio da Portaria nº 127 de 30 de abril de 2009. Como definição, a chancela de Paisagem Cultural Brasileira é uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores.

Geléias de butiá
Geleias de butiá
Delícias de butiá
Delícias de butiá
Delícias de butiá
Delícias de butiá

A Rota dos Butiazais proporciona trilhas guiadas com roteiros pelas propriedades rurais em meio aos butiazais, piqueniques à sombra de butiazeiros e figueiras centenárias, com produtos locais produzidos com butiá, ou ainda lanches oferecidos nas propriedades rurais inclusas nos roteiros.

Efetivamente, a Rota dos Butiazais está abrindo várias possibilidades para a comercialização de produtos pelas comunidades locais, além de permitir a geração de renda com atividades de turismo rural e ecoturismo. A valorização das espécies e da cultura relacionada com os butiás junto à comunidade vêm sendo feita de forma participativa pela equipe da Rota dos Butiazais, através de palestras, seminários, oficinas de culinária e artesanato com butiá, publicação de livros, exposições fotográficas, vídeos e divulgação por meio digital (Facebook e YouTube), como forma de estimular a conservação pelo uso e atingir um público amplo e bastante diversificado.

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