Rastreabilidade, soluções naturais e gestão: a resposta do Brasil à exigência sanitária da UE

A União Europeia deu ao Brasil um sinal que o setor de proteína animal não pode ignorar. Desde 3 de setembro, o bloco suspendeu a compra de alimentos de origem animal, incluindo carne bovina e suína, ovos e pescado, mantendo o fluxo apenas para carne de frangos e mel, cujos controles sanitários foram aceitos. A decisão, amparada no Regulamento (UE) 2019/6, que disciplina o uso de antimicrobianos na produção pecuária, converte a rastreabilidade e a sustentabilidade em requisitos inegociáveis para quem deseja seguir vendendo ao mercado europeu.

Rebanho bovino em sistema de terminação intensiva a pasto (TIP), engorda a pasto com suplementação com alto teor de energia e proteína à vontade no cocho
Rebanho bovino em sistema de terminação intensiva
a pasto (TIP), engorda a pasto com suplementação com
alto teor de energia e proteína à vontade no cocho

Um mercado bilionário em jogo

O peso econômico da medida é considerável. Somente em carne bovina, o bloco representa um mercado comprador superior a US$ 1 bilhão por ano, e estimativas do setor indicam que o impacto total sobre as exportações brasileiras de carnes pode se aproximar de US$ 2 bilhões anuais. A perda desse fluxo não se limita ao faturamento das indústrias, pois atinge cadeias inteiras, do produtor ao frigorífico, e compromete a previsibilidade de investimentos em expansão.

Por trás da suspensão está uma exigência objetiva de segurança sobre os processos produtivos brasileiros. A UE proíbe o uso de antimicrobianos como promotores de crescimento e cobra a redução progressiva do uso de antibióticos na criação animal. O Brasil, aliás, já avançou nessa direção com a proibição de cinco princípios ativos pela Portaria SDA/MAPA nº 1.617, publicada em abril, o que demonstra capacidade de resposta, ainda que o reconhecimento externo dependa de auditorias e da comprovação documental.

O papel do país como fornecedor global de proteínas animais, nesse contexto, passa a exigir mais do que qualidade sanitária. Atender às exigências dos clientes é uma tradição da pecuária brasileira, construída ao longo de décadas de abertura de mercados, e a nova fase impõe o mesmo rigor sobre a rastreabilidade individual dos animais e sobre a governança das propriedades. Quem já opera com sistemas de identificação e monitoramento tende a atravessar a transição com menos atrito.

Ração com ingredientes naturais em cocho, alternativa ao uso de antimicrobianos na criação animal
Ração com ingredientes naturais em cocho, alternativa
ao uso de antimicrobianos na criação animal

Soluções naturais à disposição do produtor

O portfólio de alternativas sustentáveis disponível hoje é amplo e maduro. Prebióticos, probióticos, minerais orgânicos e enzimas compõem um conjunto de ferramentas capazes de manter o desempenho zootécnico sem depender de antibióticos, preservando a saúde intestinal dos animais e reduzindo a pegada ambiental da produção. A adoção dessas tecnologias, porém, não pode ser tratada como substituição pontual, e sim como parte de um redesenho do sistema produtivo.

É preciso ir além da troca de insumos e pensar em todo o ecossistema de produção. Avanços em gestão, processos e, especialmente, no treinamento das equipes determinam se as soluções nutricionais entregam o resultado esperado no campo. A tecnologia aplicada por mão de obra despreparada perde eficácia, e é exatamente nesse ponto que a assistência técnica qualificada se torna o elo entre a intenção e o desempenho.

A integração entre nutrição, sanidade e manejo é o que transforma uma exigência regulatória em vantagem competitiva. Propriedades que tratam a alimentação animal como variável estratégica, com formulações ajustadas a cada fase e a cada objetivo, conseguem reduzir custos, melhorar conversão alimentar e produzir com menor uso de insumos químicos. Esse é o caminho que alinha produtividade com a agenda de sustentabilidade exigida pelos compradores internacionais.

Técnico de campo orienta produtor sobre manejo nutricional em fazenda de pecuária de corte
Técnico de campo orienta produtor sobre manejo
nutricional em fazenda de pecuária de corte

Nutrição como prioridade estratégica

Nesse movimento, o manejo nutricional precisa ser priorizado nas decisões de negócio. A nutrição de precisão, baseada em dados de desempenho e na análise constante dos rebanhos, permite antecipar problemas e calibrar dietas em tempo real, reduzindo desperdícios e elevando a eficiência. Para isso, é preciso contar com um time de profissionais a campo capacitado, que traduza o conhecimento técnico em práticas aplicáveis a cada realidade.

O papel desses profissionais vai além da recomendação de dietas. Eles atuam como consultores do modelo de negócio, ajudando o produtor a enxergar onde estão os gargalos, quais indicadores acompanhar e como estruturar a operação para atender a mercados mais exigentes. A capacitação contínua das equipes, nesse sentido, é investimento com retorno direto sobre a competitividade e sobre a capacidade de adaptação às regras que virão.

O recado da União Europeia, portanto, é também uma oportunidade de modernização. As cadeias que incorporarem rastreabilidade, soluções naturais e gestão profissionalizada sairão da crise sanitária mais fortes, com acesso preservado aos mercados que pagam melhor. O Brasil tem escala, tecnologia e tradição para responder ao desafio, desde que a agenda de sustentabilidade deixe de ser tratada como custo e passe a ocupar o centro da estratégia produtiva.

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