Resurgimento da pesca consolida a recuperação da maior laguna hipersalina do mundo

A Lagoa de Araruama, a maior laguna hipersalina do planeta, voltou a atrair a atenção do setor pesqueiro. Entre janeiro e agosto de 2026, a captura de peixes e crustáceos nas águas que banham seis municípios fluminenses somou 455,4 toneladas, alta de 19,4% sobre o mesmo período de 2025, segundo o projeto Estatística Pesqueira da Lagoa de Araruama, da Universidade Veiga de Almeida (UVA). O resultado consolida uma trajetória de recuperação que combina monitoramento científico, defeso e o trabalho das comunidades locais.

O desempenho não é fato isolado. Ele reflete um processo de revitalização com saneamento, dragagem e ordenamento da atividade, e ganha relevância quando a produção nacional de pescado alcançou 1,35 milhão de toneladas em 2024, segundo o Ministério da Pesca e Aquicultura. A laguna fluminense, nesse contexto, serve de laboratório para a gestão integrada de ecossistemas costeiros.

A tarrafa segue autorizada na Lagoa de Araruama fora do defeso para pescadores artesanais regulamentados. A prática exige obediência às normas de tamanho de malha e às restrições vigentes em cada município do entorno
A tarrafa segue autorizada na Lagoa de Araruama fora
do defeso para pescadores artesanais regulamentados.
A prática exige obediência às normas de tamanho de malha
e às restrições vigentes em cada município do entorno

Recuperação que aparece nos números

O aumento das capturas reflete a boa saúde ambiental da laguna. Segundo a equipe do projeto da UVA, que acompanha os desembarques nos municípios da região, os índices de captura vêm crescendo de forma constante, o que indica que os estoques pesqueiros se recuperam com rapidez após os períodos de restrição. O ecossistema responde bem às medidas de proteção, permitindo que espécies de valor comercial voltem a se reproduzir e a sustentar a atividade.

Entre os destaques do levantamento está o comportamento do camarão-rosa (Farfantepenaeus brasiliensis) em São Pedro da Aldeia, cuja captura aumentou 20,8% apenas no mês de agosto. O crustáceo é uma das espécies mais sensíveis às condições ambientais e funciona como termômetro da qualidade da água. A retomada da espécie, somada à presença de tainha (Mugil liza) e de outras variedades típicas da laguna, reforça a percepção de equilíbrio ecológico em trajetória positiva.

Para garantir a continuidade desse processo, Arraial do Cabo, São Pedro da Aldeia e Iguaba Grande entraram em período de defeso (de 1º de agosto a 31 de outubro), medida que protege os estoques durante a reprodução das espécies e assegura a sustentabilidade da pesca no longo prazo. A restrição, acompanhada do seguro-defeso para os pescadores artesanais, mostra como a política pública pode alinhar preservação ambiental e proteção social.

Camarões, tainhas e outros peixes em caixas de desembarque, resultado de um dia de trabalho na lagoa. Pescadores organizam o pescado para comercialização, etapa que movimenta cerca de R$ 3 milhões por ano
Camarões, tainhas e outros peixes em caixas de desembarque, resultado
de um dia de trabalho na lagoa. Pescadores organizam o pescado para
comercialização, etapa que movimenta cerca de R$ 3 milhões por ano

A economia que vive da lagoa

Por trás das toneladas desembarcadas há uma estrutura social e econômica relevante. Cerca de 600 famílias de cinco municípios da Região dos Lagos dependem diretamente da pesca artesanal na Lagoa de Araruama, e a primeira venda do pescado movimenta aproximadamente R$ 3 milhões por ano. O valor, concentrado na primeira etapa da cadeia, injeta renda em comunidades tradicionais e alimenta um circuito de comerciantes, restaurantes e pequenos frigoríficos.

A atividade, porém, enfrenta desafios estruturais. Estudos socioeconômicos conduzidos pela UVA apontam a falta de sucessão entre os mais jovens e a desigualdade de renda como pontos de atenção para a continuidade do ofício. A profissionalização da gestão, o acesso a linhas de crédito e a agregação de valor ao pescado surgem como caminhos para transformar o crescimento das capturas em melhoria das condições de vida.

O monitoramento constante dos desembarques, nesse sentido, é mais do que uma ferramenta estatística. Ele orienta decisões de manejo, subsidia políticas públicas e oferece aos próprios pescadores dados objetivos sobre a evolução da atividade, criando uma base comum para o diálogo entre comunidade, academia e poder público.

Rede de espera sendo recolhida à mão, retrata o trabalho diário dos pescadores artesanais da Lagoa de Araruama
Rede de espera sendo recolhida à mão, retrata o trabalho
diário dos pescadores artesanais da Lagoa de Araruama
Vista aérea da maior laguna hipersalina do mundo, com águas calmas e vegetação de restinga ao redor
Vista aérea da maior laguna hipersalina do mundo,
com águas calmas e vegetação de restinga ao redor

Um modelo para ecossistemas costeiros

A experiência da Lagoa de Araruama já é citada como referência em fóruns nacionais sobre revitalização de ecossistemas costeiros, a exemplo dos debates sobre a recuperação da Baía de Guanabara. O caso demonstra que a combinação de saneamento, ordenamento pesqueiro e monitoramento científico produz resultados concretos em prazos relativamente curtos, com continuidade administrativa e participação das comunidades.

Para o setor, a lição é dupla. De um lado, a pesca artesanal mostra que pode ser economicamente viável quando o ecossistema é preservado. De outro, os números da laguna reforçam a importância do defeso e do controle da captura em um país entre os maiores produtores mundiais de pescado. A expansão da aquicultura, que respondeu por 881 mil toneladas da produção nacional em 2024, convive com a necessidade de proteger a pesca extrativa, que sustenta milhares de famílias no litoral.

O horizonte, portanto, é de consolidação. Manter o ritmo de recuperação exigirá vigilância sobre a qualidade da água, investimento em infraestrutura e a valorização do conhecimento tradicional dos pescadores como parte da solução. Se os números de 2026 servem de indicativo, a maior laguna hipersalina do mundo segue escrevendo uma história de renovação que interessa ao agronegócio, à ciência e ao meio ambiente.

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