O trabalho analisou mais de 20 mil séries de anéis de crescimento de árvores, abrangendo 483 localidades em 36 países e a UFSC contribuiu com dados inéditos gerados no Campus Curitibanos
A participação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em um estudo internacional publicado na revista Science reforça a relevância da pesquisa brasileira na compreensão dos impactos das mudanças climáticas sobre os ecossistemas florestais. O trabalho reuniu informações de mais de 20 mil séries de anéis de crescimento de árvores provenientes de 483 localidades distribuídas em 36 países tropicais, constituindo uma das mais abrangentes avaliações já realizadas sobre a resposta das florestas às secas. Os resultados demonstram que os eventos de estiagem reduziram, em média, 2,5% do crescimento dos troncos ao longo do último século, evidenciando a influência direta das condições climáticas sobre a dinâmica florestal.
Embora a pesquisa tenha identificado uma recuperação significativa do crescimento das árvores no ano seguinte aos períodos de seca, os cientistas alertam que a frequência e a intensidade desses eventos vêm aumentando. Esse cenário amplia as preocupações em relação à capacidade futura das florestas tropicais de desempenhar funções ecossistêmicas essenciais. Entre elas, destaca-se o sequestro de carbono atmosférico, mecanismo fundamental para a mitigação dos efeitos do aquecimento global e para a estabilidade climática em escala planetária.
A contribuição da UFSC ocorreu por meio de dados inéditos produzidos no Campus Curitibanos, obtidos a partir da análise de anéis de crescimento da espécie Araucaria angustifolia, uma das árvores mais emblemáticas do sul do Brasil. As amostras foram coletadas em remanescentes florestais nativos localizados na área experimental da instituição, integrando projetos voltados ao estudo de árvores gigantes e à compreensão de seus registros ambientais. Os trabalhos contam com financiamento do CNPq e da Fapesc e são coordenados pelo professor Marcelo Callegari Scipioni, do Laboratório de Recursos Florestais do Centro de Ciências Rurais da UFSC.

um disco. Dendrocronologia revela impactos climáticos
registrados ao longo dos anos – Foto: UFSC Curitibanos
A araucária como fonte estratégica de informação científica
A pesquisa utilizou técnicas de dendrocronologia, ciência que investiga os anéis anuais de crescimento das árvores para reconstruir condições ambientais e climáticas do passado. Esses anéis funcionam como arquivos naturais capazes de registrar períodos de seca, variações de temperatura, disponibilidade hídrica e outros fatores ambientais. No contexto do estudo internacional, a base de dados construída ao longo de décadas por pesquisadores brasileiros foi decisiva para preencher lacunas geográficas de informação sobre as florestas subtropicais da América do Sul.
A Araucaria angustifolia destaca-se como uma das espécies mais estudadas em dendrocronologia no Brasil. Além de sua relevância ecológica, ela fornece informações valiosas sobre a forma como as florestas respondem às alterações climáticas ao longo do tempo. A pesquisa também contou com a participação da professora Amanda Köche Marcon, da UFSC Curitibanos, que contribuiu com cronologias de crescimento de araucária e de cedro (Cedrela fissilis), ampliando a robustez científica do banco de dados utilizado na investigação global.
Os resultados reforçam a preocupação dos pesquisadores com a manutenção dos estoques de carbono florestal. Quando as florestas reduzem sua capacidade de absorver carbono ou liberam o carbono previamente armazenado, seja por degradação, queimadas ou desmatamento, ocorre o aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera. Esse processo intensifica o efeito estufa e acelera o aquecimento global. Nesse contexto, a conservação das florestas nativas e das árvores de grande porte torna-se estratégica para as políticas de mitigação climática.

reuniu dados de 36 países tropicais – Foto: UFSC Curitibanos

fornecem registros históricos valiosos sobre clima e
crescimento florestal – Foto: UFSC Curitibanos
Árvores gigantes, inteligência artificial e conservação florestal
As árvores de grande porte desempenham papel especialmente relevante no armazenamento de carbono, concentrando volumes significativamente superiores aos encontrados em indivíduos menores. Por essa razão, sua perda representa emissões mais expressivas para a atmosfera. Os pesquisadores destacam, entretanto, que parte desse carbono pode permanecer retida por longos períodos quando a madeira é destinada a usos duráveis, como estruturas construtivas, mobiliário e pisos, prolongando seu ciclo de armazenamento e reduzindo impactos ambientais.
O estudo integra uma ampla linha de pesquisa conduzida pela UFSC sobre árvores gigantes do sul do Brasil. Além de buscar determinar a idade das maiores araucárias e imbuias remanescentes, os pesquisadores investigam os registros ambientais preservados em seus anéis de crescimento. O trabalho envolve desafios técnicos significativos, uma vez que árvores muito antigas frequentemente apresentam anéis ausentes, falsos anéis e outras anomalias biológicas, exigindo metodologias avançadas para garantir a precisão das análises cronológicas.
A infraestrutura científica instalada no Laboratório de Recursos Florestais da UFSC Curitibanos também tem ampliado as fronteiras da pesquisa florestal. A instituição dispõe de uma mesa digitalizadora exclusiva para análise de grandes amostras de madeira, equipada com scanner de alta resolução utilizado na geração de imagens destinadas ao desenvolvimento de ferramentas de inteligência artificial aplicada à dendrocronologia. Paralelamente, técnicas de datação por carbono-14, produção de sementes e mudas de árvores gigantes e iniciativas de migração assistida na Serra Catarinense reforçam os esforços voltados à conservação florestal e à adaptação das espécies às futuras condições climáticas.