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Beija flor se alimentando de néctar de um brinco de princesa

São aves pequenas, muito delicadas e fascinantes, com uma parcela significativa de suas espécies medindo entre 7,5 e 13 cm de comprimento. Cientificamente, os beija-flores estão classificados dentro da família Trochilidae que, por sua vez, está localizada dentro da ordem dos Apodiformes, que é constituída por pequenas aves com asas grandes e pés pequenos atrofiados, com garras nas pontas, usados para se empoleirar ou pousar.

Eles são territorialistas. Dupla brigando pela fonte de néctar
Eles são territorialistas. Dupla brigando pela fonte de néctar

O Brasil apresenta cerca de 84 espécies, com 16 sendo endêmicas. A maioria dos beija-flores é residente, com algumas espécies realizado migrações sazonais. São polinizadores e forrageadores, e se alimentam principalmente do néctar das flores nativas ou introduzidas — onde introduzem sua língua dentro das flores, sugando o pólen e o néctar —, e complementando sua dieta alimentando-se de pequenos insetos e outros artrópodes. A maioria de suas espécies é sexualmente dimórfica, onde as fêmeas apresentam cores mais opacas e, às vezes, os machos podem ser menores. A maioria destas aves são extremamente territorialistas, competindo com insetos, outros beija-flores e, ainda, com aves muito maiores. Nesse contexto, as espécies menos competitivas são submissas e frequentemente assediadas pelas espécies mais agressivas.

Um dos elementos de maior beleza no beija-flor são suas cores cintilantes. Ao contrário do que muitos imaginam, essas cores não vêm da pigmentação das penas. Na verdade, elas são resultado de um fenômeno conhecido como iridescência. Tal fenômeno acontece quando as cores do arco-íris são refletidas em uma superfície. Não à toa, fatores como nível de iluminação, umidade, ângulo de visão e desgastes podem alterar as cores de um beija-flor.

O peso do coração desses animais equivale a 5% do peso total de seu corpo. Pode parecer pouca coisa, mas, para se ter uma ideia, o peso do coração humano não ultrapassa a marca de 0,5% do nosso peso. Esse fator faz com que o beija-flor tenha uma circulação sanguínea mais eficiente e, portanto, melhor irrigação dos músculos, o que é importante para seu voo.

Grupo se alimentando em flores de brinco de princesa
Grupo se alimentando em flores de brinco de princesa

Eles estão entre as poucas espécies de aves que conseguem ficar suspensas no ar. Essa aptidão só é possível graças a um conjunto de particularidades orgânicas que inclui: batimentos cardíacos e metabolismo acelerados, alimentação especial, ossos fundidos e alongados nas asas, “ombro” com rotação de cerca de 180° e bater de asas rápido e em formato de oito. E além dessa aptidão, é que se trata da única ave que consegue voar para trás.

O menor pássaro do mundo é um beija-flor. Com aproximadamente 6 cm de comprimento e peso inferior a 2 gramas, a colibri-abelha-cubano (Mellisuga helenae) é considerada a menor espécie de pássaro existente. Originária de Cuba, a espécie é endêmica no país, onde também é conhecida como beija-flor helena ou zunzuncito.

Beija flor abelha cubano (Mellisuga helenae)
Beija flor abelha cubano (Mellisuga helenae)

O seu tamanho diminuto não é significado de que se alimenta de poucas quantidades. Pelo contrário, o beija-flor é um verdadeiro comilão. Por causa de seu metabolismo acelerado, um dos hábitos do beija-flor é comer de 5 a 8 vezes por hora, alimentando-se de uma quantidade de comida que pode representar de 8 a 10 vezes o peso de seu corpo. Essa alimentação, no entanto, é bem diferenciada: 90% dessa comida para beija-flor é baseada em néctar, o que garante a rápida liberação de energia para o organismo. O restante vem de pólen e pequenos invertebrados. Com isso eles também contribuem para a saúde pública, pois se alimentam de insetos, muitos dos quais transmissores de doenças.

O beija-flor possui músculos peitorais privilegiados. Ele é quase todo peito. Os músculos que fazem mover as asas têm 20% do peso total do corpo. Como absorvem grande quantidade de energia, criam um comportamento singular — uma espécie de suspensão da vida normal, à noite. O motivo é que o vôo rápido exige elevada taxa de bombeamento de sangue pelo coração. Assim, é preciso compensar o esforço, no final do dia, com uma drástica redução na atividade metabólica.

Exemplos extremos são espécies mexicanas em que o batimento cardíaco despenca de 1.260 por minuto, em alta atividade diurna, para apenas 36 por minuto, durante o letárgico sono noturno. É uma variação absurda, para um animal em que a pulsação, em repouso, gira em torno de 480 por minuto. Essa parada geral no final do dia é essencial: só assim a ave consegue viver com a quantidade relativamente pequena de néctar que colhe ao longo do dia. Esse fenômeno não é a mesma coisa que hibernação, mas se assemelha a ela — e o beija-flor, de fato, é uma das poucas aves capazes de hibernar. Nas noites de inverno, ele reduz a temperatura do corpo dos 42°C, normais, para 24°C.

Mesmo em câmera lenta, é difícil perceber o bater de asas de um beija-flor. Isso acontece porque algumas espécies de beija-flor chegam a bater as asas até 80 vezes por segundo. Contudo, as câmeras tradicionais captam somente cerca de 30 quadros por segundo, quantidade mais confortável para os nossos olhos. É por essa razão que mesmo a câmera lenta tradicional não consegue mostrar todos os movimentos de asa de um beija-flor. Para tanto, é necessário o uso de câmeras especiais, com captação mil quadros por segundo.

Beija-flor-ruivo (Selasphorus rufus)
Beija-flor-ruivo (Selasphorus rufus)

O beija-flor percorre milhares de quilômetros em suas migrações. Diversas espécies de beija-flor não permanecem a vida toda na mesma região. Por causa da escassez de alimentos típica de determinadas épocas do ano, muitas delas migram para outros locais uma vez por ano. O beija-flor-ruivo (Selasphorus rufus) no inverno, por exemplo, voa por mais de 3 mil quilômetros, indo do Alaska até o México em busca de alimento.

Polinização

O beija flor é muito é importante como agente de polinização de determinadas plantas. A alimentação de néctar das plantas não se trata de uma relação unilateral. Ao encostar a cabeça nas flores para sugar o néctar, absorve pólen em seu bico. Dessa forma, quando vai se alimentar de outra planta, ele espalha a substância, contribuindo para a reprodução das plantas. Ou seja, o néctar para beija-flor acaba sendo também uma espécie de néctar para as plantas.

Os beija-flores precisam de grandes quantidades de néctar diariamente, para suprir a energia necessária ao seu esvoaçar contínuo. O néctar das flores visitadas por beija-flores é um alimento altamente energético, contendo cerca de 20% de açúcares, sendo que a quantidade de néctar disponível varia com o tamanho e tipo de flor.

Caraguatá do mato (Bromelia balansae) - Beija flor nas flores brancas e azuis arroxeadas e brácteas vermelhas em destaque
Caraguatá do mato (Bromelia balansae) – Beija flor nas flores
brancas e azuis arroxeadas e brácteas vermelhas em destaque

As flores visitadas por beija-flores, classificadas como ornitofílicas, são em geral tubulosas e apresentam cores vivas, com tonalidades que variam do vermelho ao alaranjado. Esse conjunto de cores e formas permite prever que o polinizador de uma determinada flor seja um beija-flor. As flores da sálvia (Salvia splendens) e do cipó-de-são-joão (Pyrostegia venusta) representam bem os tipos visitados por beija-flores. Entretanto, algumas flores polinizadas por essas aves podem ser azuis ou brancas, como as de certos caraguatás tipo o caraguatá do mato (Bromelia balansae). Nesse caso, as brácteas ou alguma outra parte da planta apresentam cor avermelhada, que atrai a atenção dos beija-flores.

Alguns beija-flores também buscam néctar em flores que são polinizadas por outros tipos de animais, como abelhas, borboletas ou morcegos. Quando isso ocorre, nem sempre há um ajuste entre o tamanho e o tipo de flor e o tamanho do bico do beija-flor. Quando a flor é grande demais, pode ocorrer a “pilhagem de néctar”. Nesse tipo de visita, o beija-flor retira o néctar sem tocar nas partes reprodutivas da planta e, portanto, não realiza a polinização. Beija-flores pequenos, como o besourinho-de-bico-vermelho (Chlorostilbon lucidus) são pilhadores habituais.

Ao visitar as flores em busca de néctar, os beija-flores podem adotar dois modos distintos: estabelecem territórios ou percorrem rotas alimentares. Os dois modos resultam em diferenças na polinização. Quando estabelece território, o beija-flor transporta pólen entre as flores da mesma planta ou de plantas próximas entre si. Já a territorialidade, portanto, resulta em menor número de plantas na polinização. Na ronda alimentar, por outro lado, o beija-flor transporta pólen entre as flores de um maior número de indivíduos, distantes entre si, possibilitando assim maior variabilidade genética.

Beija-flor-de-bochecha-azul (Heliothryx auritus) - Foto: Luiz Carlos da Costa Rinbenboim
Beija-flor-de-bochecha-azul (Heliothryx auritus) – Foto: Luiz Carlos da Costa Rinbenboim

Atraindo os beija-flores para seu jardim ou quintal

Se você adora ver e ouvir pássaros em seu jardim ou quintal, ficará satisfeito em saber que há alguma estratégias que você pode adotar para tornar seu espaço ao ar livre mais atraente para seus amigos beija-flores.

Ter um ambiente favorável e seguro para o estabelecimento de ninhos (abrigo), farta alimentação e água limpa é fundamental. Beija-flores fêmeas são as construtoras do ninho e encontrando um local que pode suportar o ninho e a expansão da ninhada com alimentação (flores) farta e próxima e acesso a uma fonte de água é interessante e fundamental para atraí-las. O primeiro passo é formar esse ambiente com plantas ornamentais, arbustos e árvores, nativas ou mesmo exóticas, que transmita esse estado de segurança para os beija-flores o elegerem como um local propício para viverem.

As plantas são primordiais para iniciar esse processo de atração, pois elas é que garantirão o alimento principal. Procure cultivar plantas nativas ou exóticas, bem adaptadas à sua região, que apresentem floração bem atrativa para os beija flores, garantindo boa produção de néctar. Algumas espécies parecem estar entre as favoritas dos beija-flores. Pesquisas mostram que a visão do beija-flor é mais sensível às cores na faixa do vermelho ao amarelo do espectro. Priorizar essa coloração na escolha das espécies que comporão seu jardim ou quintal é uma ótima maneira de trazer os beija-flores para perto de você. Ao contrário dos humanos, que têm três tipos de fotorreceptores de cone, os colibris têm um quarto fotorreceptor que detecta a luz ultravioleta.

Beija flor na flor de biri
Beija flor na flor de biri

Muitas flores que atraem beija-flores refletem a luz na parte vermelha do espectro visual. Flores doces e cheias de néctar são um exemplo. Eles adoram esses florais de “boca aberta” e são ainda mais atraídos por suas pétalas de tons vermelhos brilhantes, que florescem boa parte do ano. Essas flores preferem sol direto e intenso e crescem relativamente rápido. Eles gostam de se alimentar em áreas que recebem bastante sol, então, é importante posicionar as flores em áreas ensolaradas do seu jardim. Além disso, é recomendado evitar plantar flores em áreas muito sombreadas ou com muito vento.

Para quem não tem jardim ou quintal com espaço para plantar, a dica é manter flores em vasos suspensos ou mesmo no piso, de preferência com flores atrativas que floresçam por boa parte do ano. Numa varanda, dependendo do espaço, você pode plantar além de planta ornamentais de pequeno porte, alguns arbustos que também apresentem boa floração para beija-flores e que serviram de abrigo para as fêmeas construirem seus ninhos.

A seguir apresentamos uma listagem com algumas espécies de plantas que podem ser utilizadas para atrair os beija-flores:

● Afelandra amarela (Aphelandra squarrosa) – ornamental floresce na primavera e verão
● Alpinia (Alpinia purpurata) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Amélia (Hamelia patens) – arbusto floresce da primavera ao outono
● Asistásia (Asystasia gangetica) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Astrapéia (Dombeya wallichii) – arbusto floresce de junho a julho
● Biri (Canna indica) – floresce ao longo de todo o ano
● Brinco-de-princesa (Fuchsia hybrida) – ornamental floresce da primavera ao outono
● Caliandra-surinamense (Calliandra surinamensis) – arbusto floresce ao longo de todo o ano
Caliandra vermelha (Calliandra harrisii) – arbusto floresce na primavera e no verão
● Camarão-amarelo (Patchystachys lutea) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Camarão-vermelho (Justicia brandegeana) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Chapéu- chinês-vermelho (Holmskioldia sanguinea) – arbusto floresce no outono

camarão amarelo (Patchystachys lutea)
camarão amarelo (Patchystachys lutea)

● Chapéu-chinês-amarelo (Holmskioldia sanguinea “aurea”) – arbusto floresce no outono
● Clerodendro-vermelho (Clerodendrum splendens) – trepadeira floresce da primavera ao outono
● Corticeira (Erythrina crista-galli) – árvore floresce de setembro a dezembro
● Escova-de-garrafa (Callistemon viminalis) – arbusto floresce da Primavera ao Outono
● Escova-de-macaco-africana (Combretum grandiflorum) – trepadeira floresce no uutono
● Esponjinha (Calliandra brevipes) – arbusto floresce do outono à primavera
● Flamboyant (Delonix regia) – árvore floresce fim da primavera e verão
● Flamboyanzinho (Caesalpinia pulcherrima) – arbusto floresce da Primavera ao Outono
● Flor-de-maio (Schlumbergera truncata) – ornamental floresce no outono
● Flor de São João (Pyrostegia venusta) – trepadeira floresce de junho a setembro
● Grevílea-anã (Grevillea banksii) – árvore floresce ao longo de todo o ano
● Helicônia (Heliconia rostrata) – ornamental floresce da primavera ao outono
● Hibisco (Hibiscus rosa-sinensis) – arbusto floresce ao longo de todo o ano
● Ipê amarelo (Handroanthus ochraceus) – árvore floresce a partir do final de julho até setembro
● Ipê rosa (Handroanthus heptaphyllus) – árvore floresce de junho a setembro
● Ipê roxo (Handroanthus avellanedae) – árvore floresce de junho a agosto
● Ixora-rei (Ixora macrothyrsa) – arbusto floresce ao longo de todo o ano
● Jacarandá mimoso (Jacaranda mimosifolia) – árvore floresce por toda a primavera e início do verão
● Lágrima-de-cristo (Clerodendrum thomsonae) – trepadeira floresce da primavera ao outono
● Lantana (Lantana camara) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Lanterna-japonesa (Abutilon megapotamicum) – arbusto floresce da primavera ao outono
● Malvavisco (Malvaviscus arboreus) – arbusto floresce ao longo de todo o ano
● Maracujazeiro (Passiflora edulis) – trepadeira floresce ao longo de todo o ano
● Maria-sem-vergonha (Impatiens walleriana) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Mulungu (Erythrina velutina) – árvore floresce de julho a dezembro dependendo da região

Mulungu do litoral (Erythrina speciosa)
Mulungu do litoral (Erythrina speciosa)

● Mulungu do litoral (Erythrina speciosa) – árvore floresce de julho a agosto
● Odontonema (Odontonema strictum) – arbusto floresce ao longo de todo o ano
● Orquídea chuva de ouro (Oncidium sp.) – ornamental floresce do outono e primavera
● Paineira (Ceiba speciosa) – árvore floresce de meados de dezembro a abril
● Pata de vaca (Bauhinia blakeana) – árvore floresce do final do inverno por todo o verão
● Pentas (Penta lanceolata) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Russélia (Russelia equisetiformis) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Salvia (Salvia splendens) – ornamental floresce ao longo de todo o ano
● Sanquésia (Sanchezia nobilis) – arbusto floresce ao longo de todo o ano
● Sete léguas (Podranea ricasoliana) – trepadeira floresce ao longo de todo o ano
● Sibipiruna (Caesalpinia pluviosa) – árvore floresce de setembro a novembro
● Tecomaria (Tecoma capensis) – arbusto floresce da primavera ao outono
● Viuvinha (Petrea volubilis) – trepadeira floresce do final do inverno ao verão

Água é fundamental para a vida, por isso é importantíssimo você disponibilizar uma fonte de água potável. Um bebedouro personalizado para pássaros ou mesmo uma fonte provida de bomba e filtro (dessas utilizadas em aquários) pode dar às aves um espaço para descansar, matar a cede e desfrutar de uma pulverização suave e contínua para aliviar os dias de calor e até mesmo um bom banho. Junto a esse bebedouro instale poleiros que ajudarão os beija-flores se aproximarem da água.

Atente-se para a profundidade da fonte ou bebedouro. Você pode regular essa profundidade espalhando seixos para diminuir a coluna d’água e evitar acidentes com pássaros menores, principalmente os beija-flores, que irão acessar esse ponto de água, além de garantir que os animais se sintam seguros para se aproximarem e se utilizarem da água fornecida. Garanta água sempre limpa e lembre-se de trocá-la diariamente caso o bebedouro for só um recipiente simples. Se for uma fonte provida de bomba e filtro que permita o fornecimento de água corrente, essa limpeza tem que ser feita periodicamente de acordo com o uso do equipamento. De acordo com o manual de uso do equipamento, limpa-se o filtro, a bomba e troca-se toda a água do recipiente. Fique sempre atento ao mosquito da dengue para não criar larvas no bebedouro. Uma fonte de água corrente pode incrementar o ambiente, matar a sede dos pássaros e refrescá-los, criando cenas inusitadas, só evite o acúmulo de água parada sem ozônio ou cloro, que atrairá mosquitos no lugar dos pássaros.

Beija flor se banhando num bebedouro tipo fonte
Beija flor se banhando num bebedouro tipo fonte

Beija-flores não formam casais permanentes. Ao cortejar uma fêmea, o macho geralmente faz exibição da sua plumagem ou língua, numa espécie de dança cheia de volteios. Esses rituais variam um pouco de uma espécie para outra e havendo aceitação por parte da fêmea, o casal copula. Passando esse período, o macho segue sua vida e fica por conta da fêmea a construção do ninho, incubação dos ovos e alimentação da prole.

A construção de seu ninho é uma verdadeira obra de engenharia. A fêmea poderá construir seu ninho em locais inusitados, tais como vasos pendurados em varandas, luminárias externas e até mesmo dentro de casa em um cômodo pouco usado. Os ninhos são pequenos, fixados a qualquer estrutura em que se assenta, ajudando-o a expandir-se à medida que os filhotinhos nascem e crescem. A área construída, geralmente circular, com um raio de 3 ou 4 cm, poucas vezes alcançando 10 cm2. E a construção é tão frágil quanto poderia ser — amarrada com fios de teia de aranha, coletados com paciência nos jardins ou nas matas, e colados com saliva sobre materiais quase tão leves como o ar. Os mais comuns são chumaços de paina, fiapos de musgos e líquens, e lascas tiradas da raiz ou da casca de diversas plantas. Esse material, além de ter uma função especial de camuflagem, é o utilizado pelos cinco projetos de ninho, idealizados pelas espécies de beija-flores.

Basicamente, os ninhos seguem duas fórmulas. Alguns, empregados por mais de vinte espécies no Brasil, têm a forma de um cone, como um chapéu de bruxa de ponta para baixo. O segundo tipo, mais comum, lembra uma pequena tigela de porcelana. A forma, no entanto, não é tudo. Os ninhos não são meros depósitos de ovos — são habitações. Por isso, com o tempo, diferentes aves aprenderam a construí-los com as adaptações necessárias ao seu modo de vida e ao ambiente em que residem. Os ninhos de estilo cônico, por exemplo, catalogados por Ruschi em duas categorias, refletem uma adaptação ao clima. A partir do ninho estabelecido, as fêmeas frequentemente colocam um ou dois ovos, chocam e então criam os filhotes.

Fêmea chocando no seu ninho - Foto: Pedro de Freitas Júnior
Fêmea chocando no seu ninho – Foto: Pedro de Freitas Júnior

Infelizmente, a despeito de todas as habilidades, das camuflagens e dos cuidados maternos com a prole, parte importante desta última sempre se perde devido à ação de predadores. Além do próprio homem, que derruba ninhos com ou sem intenção, cobras, lagartixas, primatas e outros mamíferos, como também outras aves estão entre os mais frequentes atacantes, tanto de ovos como de filhotes. É uma pena, porque os beija-flores têm um importante papel na natureza. Muitas plantas, por exemplo, só podem ser fecundadas e gerar rebentos com seu auxílio. Os beija-flores se cobrem de pólen ao tocar os órgãos genitais das plantas, e assim o transferem para outras plantas, propiciando a fecundação.

Alimentação Artificial

Esse assunto merece um destaque especial. Dispor de alimentadores de néctar tem gerado muitas polêmicas. Muitos argumentam que não se pode dar açúcar para os beija-flores, pois devido à fermentação da água açucarada, os restos que ficam no fundo das garrafinhas podem levar à proliferação de fungos e bactérias que podem contaminar os beija-flores e outros pássaros (saíras, sanhaços e cambacicas) que causam uma micose na boca ou com bactéria que provocam uma gastroenterite, ambas as doenças que podem levá-los à morte. Dizem que é uma crença, que tudo indica foi iniciada a partir de uma publicação de autoria do naturalista Augusto Ruschi, que dizia que o uso desses alimentadores tipo garrafinha com flores plásticas, sem a devida manutenção, pode ocasionar doenças nessas aves, podendo até matá-las. Porém não há, na literatura ornitológica, nenhum trabalho científico comprovando isto. Essa afirmação tornou-se extremamente difundida na população. A doença à qual Ruschi se referiu seria a candidíase, infecção oportunista causada pelo fungo Candida albicans, que acometeria a boca dos beija-flores.

Há quem afirme que o uso de garrafinhas interfere na polinização das flores de determinado lugar, mas não há estudos que comprovem esse fato. Mas hoje sabe-se que o açúcar não é prejudicial e para se evitar a proliferação de microrganismos, é preciso seguir uma rotina de limpeza do recipiente, que inclui a lavagem diária com escova e a troca da água com o açúcar. De qualquer modo, a alimentação ideal para os beija-flores é o néctar das flores, portanto é melhor plantar flores adequadas à alimentação desses pássaros em vez de oferecer a água com açúcar. Mas se isso não for possível, para quem mora num apartamento e quer atrair beija-flores para sua varanda ou sacada, uma garrafinha bem cuidada faz a alegria dos beija-flores e de muita gente.

Beija flor no alimentador de néctar
Beija flor no alimentador de néctar

Na verdade os alimentadores de néctar são muito eficazes para atrair beija-flores desde que você produza seu próprio “néctar caseiro” para resolver o problema e estabelecer um processo de higienização que mantenha o alimentador livre de contaminação por organismos nocivos aos beija-flores. Essa limpeza é fundamental pois como o néctar é à base de açúcar, ele pode estragar rapidamente, especialmente em climas quentes. Verifique o próprio néctar tão frequentemente quanto possível para ter certeza de que esteja limpo e intacto. Para produzir seu néctar caseiro, basta dissolver um quarto de xícara de açúcar com uma xícara de água fervente e depois deixar esfriar antes de colocá-lo no alimentador. Ou ainda, mais explicitamente, a concentração de açúcar indicada deve ser de 20% (1 parte de açúcar para 4 partes de água) por ser parecida com a concentração do néctar. Não coloque mais nada além de água e açúcar. Evite usar mel, açúcar mascavo, e demais preparados caseiros, pois estes possuem uma maior tendência à fermentação. Além disso, é contraindicado o uso da água encanada de rede pública, pois esta usualmente é tratada com compostos de cloro ou flúor em dosagens insignificantes para os humanos mas que nos organismos de aves de pequeno e médio porte caracterizam-se como substâncias acumulativas que prejudicam a saúde destes.

É importante manter os alimentadores de néctar longe de insetos como formigas, vespas, baratas etc. Tais insetos, além de competir pelo alimento com os beija-flores, carregam parasitas, especialmente os fungos que infectam os bebedouros. Um sinal visível da infestação por fungos é o pronto escurecimento do bocal e até pétalas das flores artificiais. Sendo assim, é recomendável utilizarem-se modelos de alimentadores que tenham algum dispositivo limitador de formigas etc., e, ao se notar o escurecimento das flores de plásticos, estas devem imediatamente ser esterilizadas com algum composto clorado (destinado a purificar alimentos como verduras, e “jamais usar produtos comuns de limpeza”) e bem enxaguadas antes de serem reutilizadas.

Veterinários recomendam que evite o uso de açúcar, dando preferência a soluções doces formuladas com uma mistura ideal de açúcares, muito atrativas e similares ao néctar encontrado na natureza. Essas soluções são mais apropriadas, podem ser adquiridas em lojas de produtos para animais e não causarão danos aos pássaros. Esses produtos apresentam rápida assimilação e transformação em energia. Trata-se de um produto estável cuja solução preparada no alimentador pode permanecer disponível para os pássaros por até 5 dias, sem risco de fermentação ou contaminação por fungos e bactérias. Fornece também vitaminas necessárias à boa saúde dos beija-flores e à resistência às doenças. Para além de um jardim florido e perfumado, sombra e água fresca os alimentadores de néctar bem mantidos e supridos também agradam bastante os bichinhos.

Beija-flor-vermelho (Chrysolampis mosquitus)
Beija-flor-vermelho (Chrysolampis mosquitus)

Uma das vantagens do alimentador de néctar para beija-flores é que são de fácil instalação e permitem o fornecimento de alimentação o ano todo onde mais interessa independente das interferências do clima da região. Disputadíssimas, alguns beija-flores adotam as famosas garrafinhas como fonte exclusiva de alimentação e as frequentam o dia inteiro. Os mais possessivos, tanto machos como fêmeas, apoderam-se delas e não permitem que “intrusos” se aproximem, mesmo que sejam da mesma espécie. Recomenda-se não mudar esses bebedouros de lugar para não provocar novas disputas agressivas. Até nas ocasiões em que os alimentadores são retirados para reabastecimento, os mais dependentes ficam voando por perto. Todo esse interesse provoca o aumento da população de beija-flores nas imediações. As garrafinhas ajudam a manter os beija-flores por perto nos períodos sem floração ou no inverno, quando eles desaparecerem temporariamente.

Esses alimentadores têm a finalidade de atrair, por motivos diversos, estas aves para o nosso convívio. O artifício não substitui todas as necessidades nutricionais dos beija-flores, uma vez que eles precisam se alimentar de pequenos insetos, de onde obtêm sua fonte de proteínas, cálcio, vitaminas e outras substâncias.

Para quem tem disponibilidade de espaço, o ideal é o plantio de diversas espécies vegetais que fornecem néctar, além de outras que fornecem materiais para a construção de ninhos. A manutenção de áreas arborizadas fornece também abrigos para estas aves, bem como permite a proliferação dos pequenos insetos dos quais elas se alimentam. Mesmo assim, os alimentadores podem ser usados como uma estratégia para trazê-los até bem perto de nós, permitindo que possamos observá-los em detalhe ou mesmo em épocas de escassez de floração para fornecimento de néctar natural aos pássaros.

Beija flor na flor de hibisco
Beija flor na flor de hibisco

Porém, lembre-se sempre, o ideal é ofertar o máximo possível de flores, cujo néctar natural favorece a saúde do beija-flor pela oferta adicional de sais minerais, proteínas e vitaminas, além de atraírem os insetos, importante fonte de proteína e complemento alimentar para os beija-flores. Só água com açúcar provoca deficiência nutricional. Poucas pessoas sabem, mas os beija-flores se alimentam muito de insetos e aranhas, os quais eles capturam em voos ou nas teias.

Não utilize pesticidas

Os pesticidas são utilizados para sanar pestes que estão prejudicando a saúde e beleza do seu jardim. Porém, quando o assunto é atrair beija-flor, é preciso deixar esses produtos bem longe da sua casa! Eles são nocivos à saúde das aves que se alimentam do néctar das flores e, ao invés de atraí-las, você poderá colocá-las em risco.

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