Alfafa amplia a diversificação produtiva em propriedade do Paraná

Em um cenário marcado pela volatilidade das commodities agrícolas, pelo aumento dos custos de produção e pelas limitações impostas pelo crédito rural, cresce o número de produtores que avaliam novas estratégias para reduzir riscos e ampliar a rentabilidade das propriedades. A diversificação de culturas tem se consolidado como instrumento de gestão, permitindo construir modelos produtivos menos dependentes das oscilações do mercado internacional e mais alinhados às oportunidades regionais. Foi esse contexto que levou a produtora Rita Webler, de Cascavel, no oeste do Paraná, a substituir parte da produção tradicional de soja e milho pelo cultivo comercial de alfafa.

Segundo a produtora, a decisão foi resultado de uma análise econômica da atividade agrícola. Embora as lavouras apresentassem produtividade satisfatória, a margem financeira era limitada pelo elevado custo de produção, pela volatilidade dos preços e pela dificuldade de ampliar investimentos em tecnologia. O ambiente de juros elevados também reduzia a capacidade de expansão da propriedade, tornando cada novo investimento mais criterioso. Soma-se a isso o fato de que culturas como soja e milho deixam o produtor mais exposto às variações do mercado, reduzindo sua capacidade de definir estratégias comerciais de longo prazo.

Após pesquisar oportunidades de mercado, Rita identificou uma lacuna regional na produção de alfafa destinada à fabricação de feno de alta qualidade. O primeiro plantio ocorreu em 2017, em caráter experimental, ocupando pequenas áreas da Fazenda Três Gerações. Os resultados agronômicos e comerciais estimularam a ampliação gradual da atividade. Atualmente, a cultura ocupa 75 hectares e registra produtividade anual próxima de 33 mil quilos por hectare, abastecendo propriedades leiteiras e criadores de equinos no Paraná, Santa Catarina, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, além de integrar os planos de expansão da empresa rural.

Produção anual da Fazenda Três Gerações de Rita Weber é de aproximadamente 33 mil quilos por hectare e atende pecuaristas de cinco estados brasileiros
Produção anual da Fazenda Três Gerações de Rita
Weber é de aproximadamente 33 mil quilos por hectare
e atende pecuaristas de cinco estados brasileiros

Alfafa amplia previsibilidade econômica e agrega valor à produção

Mais do que substituir uma cultura por outra, a adoção da alfafa representou uma transformação no modelo de gestão da propriedade. Rita destaca que o fluxo de receita tornou-se mais previsível, favorecendo o planejamento financeiro, a organização do capital de giro e a construção de estratégias comerciais com maior estabilidade ao longo do ano. O novo sistema também proporcionou maior autonomia na negociação do produto, uma vez que a comercialização ocorre em um mercado especializado, no qual qualidade, regularidade de fornecimento e relacionamento com os clientes possuem peso significativo na formação do valor agregado.

Outro aspecto apontado pela produtora refere-se à condução agronômica da lavoura. O sistema adotado prioriza manejo biológico, nutrição foliar e redução do uso de defensivos químicos, estratégia que contribuiu para melhorar o ambiente de trabalho e ampliar o equilíbrio ecológico da propriedade. Entre os reflexos observados está a retomada do cultivo de espécies frutíferas, favorecida pela redução da pressão química sobre o ambiente produtivo e pela adoção de práticas voltadas ao manejo sustentável do solo.

Reconhecida mundialmente pelo elevado valor nutricional, a alfafa (Medicago sativa) é considerada uma das principais espécies forrageiras utilizadas na alimentação animal. A planta pode superar 20 toneladas de matéria seca por hectare ao ano, apresentando elevados teores de proteína bruta, alta digestibilidade e expressiva concentração de minerais, especialmente cálcio e fósforo. Essas características explicam sua ampla utilização na bovinocultura leiteira, na equinocultura e em sistemas pecuários de alta eficiência, nos quais a qualidade da alimentação exerce influência direta sobre o desempenho produtivo dos rebanhos.

Mecanização garante eficiência operacional durante os cortes da cultura e a diversificação reduz dependência das commodities agrícolas tradicionais
Mecanização garante eficiência operacional durante
os cortes da cultura e a diversificação reduz dependência
das commodities agrícolas tradicionais

Potencial produtivo coloca a cultura entre as oportunidades da pecuária brasileira

Embora tradicionalmente associada aos países de clima temperado, a alfafa demonstra excelente adaptação às condições do Centro-Sul brasileiro quando cultivada com cultivares apropriadas e manejo técnico adequado. Pesquisas desenvolvidas por instituições brasileiras evidenciam elevado potencial produtivo, com possibilidade de até onze cortes anuais, número superior ao registrado em diversos países produtores. Essa característica reduz a estacionalidade da oferta de forragem e amplia a disponibilidade de alimento durante períodos críticos para a pecuária leiteira.

Além da elevada produção de biomassa, a cultura apresenta vantagens econômicas relevantes. O uso da alfafa sob pastejo pode reduzir significativamente os custos com alimentação animal em comparação ao sistema baseado exclusivamente em fenação, principalmente pela fixação biológica de nitrogênio, menor necessidade de fertilizantes nitrogenados e redução da dependência de concentrados. Novos materiais genéticos também apresentam maior tolerância ao pisoteio e estabilidade produtiva, ampliando as possibilidades de utilização em sistemas intensivos de produção leiteira.

Na Fazenda Três Gerações, o manejo contempla oito cortes anuais, respeitando intervalos maiores durante o inverno. Após a colheita, a forragem passa pelos processos de secagem, enfardamento ou produção de pré-secado, utilizando equipamentos específicos para preservar o valor nutricional do material. Em 2025, o Paraná cultivou 4.227 hectares de alfafa, produzindo 67,1 mil toneladas e movimentando R$ 103,2 milhões, conforme dados do Departamento de Economia Rural (Deral), vinculado à Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Cornélio Procópio, Jacarezinho e Ponta Grossa concentram os principais polos estaduais da atividade.

Rita com o filho Mathias e a sobrinha Tatiane. A sucessão rural também integra o projeto empresarial da Fazenda Três Gerações
Rita com o filho Mathias e a sobrinha Tatiane. A sucessão rural
também integra o projeto empresarial da Fazenda Três Gerações

Crédito especializado e visão empresarial favorecem novos modelos agrícolas

A expansão da área cultivada exigiu investimentos em mecanização agrícola. Para viabilizar essa etapa, Rita acessou financiamento do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), por meio do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). Os recursos permitiram a aquisição de um trator, equipamento considerado essencial para atender ao aumento da escala operacional da propriedade. Segundo a produtora, parte da ampliação havia sido realizada com capital próprio, porém a mecanização era indispensável para garantir eficiência operacional e continuidade ao plano de crescimento.

A experiência também evidencia um desafio recorrente enfrentado por produtores que optam por atividades menos convencionais. Mesmo apresentando planejamento técnico consistente, indicadores econômicos e mercado consumidor definido, empreendimentos voltados à diversificação agrícola ainda encontram resistência em parte das instituições financeiras, tradicionalmente mais familiarizadas com projetos baseados nas grandes commodities. Esse cenário limita o acesso ao crédito justamente em segmentos que apresentam elevado potencial de geração de valor.

De acordo com Carmem Truite, gerente operacional de convênios e produtores rurais do BRDE, o banco tem ampliado a avaliação de projetos voltados à inovação e à diversificação produtiva, contando com equipes técnicas formadas por engenheiros agrônomos especializados na análise de crédito rural. A instituição já financiou iniciativas ligadas à produção de cogumelos, bicho-da-seda, pinhão, araucária e remineralizadores para agricultura regenerativa. Na Fazenda Três Gerações, empreendimento que homenageia a trajetória familiar construída entre mãe, filha e neto, a sucessão rural também integra o projeto empresarial, com participação ativa da sobrinha Tatiane nas operações de campo e na gestão comercial, enquanto o pequeno Mathias já acompanha de perto a rotina da propriedade, representando a continuidade de um modelo de agricultura baseado em planejamento, inovação e visão de longo prazo.

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