Reserva Marinha no litoral carioca une conservação e pesca artesanal

O litoral da cidade do Rio de Janeiro passa a contar com uma área protegida de grande relevância ecológica e econômica. Criada pelo Decreto Estadual nº 50.530, de 15 de outubro de 2026, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Estadual Marinha Urupirá se estende da Ilhota do Frade, em Guaratiba, até a Pedra do Pontal, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste da capital. A unidade abrange 3 mil hectares de ambientes marinhos, ilhas e costões rochosos que oferecem abrigo, alimento e condições de reprodução para espécies de fauna e flora, incluindo organismos ameaçados de extinção.

A criação da reserva se conecta a compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Ela contribui para as metas 30×30 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), estabelecidas na COP-15, em Montreal, que preveem a proteção de 30% da superfície terrestre, do mar e das águas interiores do país até 2030. A categoria de Reserva de Desenvolvimento Sustentável permite, ao mesmo tempo, conservar os ecossistemas e manter atividades tradicionais, com participação das comunidades pesqueiras na gestão do território.

O nome escolhido reforça o vínculo entre a área e a atividade pesqueira. Urupirá é a designação indígena ancestral atribuída à atual Ilha das Palmas, em Guaratiba, e remete à expressão “cesto do peixe”. O resgate histórico-cultural reconhece que a identidade das comunidades locais se construiu em torno do mar. A unidade prevê ainda monitoramento participativo dos recursos pesqueiros, pesquisas científicas, educação ambiental, fiscalização reforçada e desenvolvimento ordenado do ecoturismo.

Reserva marinha alia proteção ambiental com atividades econômicas, abrangendo aproximadamente 3 mil hectares entre Barra de Guaratiba e o Recreio dos Bandeirantes. A nova unidade busca proteger a biodiversidade marinha, preservar a pesca artesanal e incentivar o turismo sustentável
Reserva marinha alia proteção ambiental com atividades
econômicas, abrangendo aproximadamente 3 mil hectares
entre Barra de Guaratiba e o Recreio dos Bandeirantes. A nova
unidade busca proteger a biodiversidade marinha, preservar
a pesca artesanal e incentivar o turismo sustentável
Ilha das Peças e ilha das Palmas. Corais, ouriços e estrelas-do-mar formam o berçário marinho protegido pela nova reserva de desenvolvimento sustentável do litoral fluminense - Foto: Áthila Bertoncini
Ilha das Peças e Ilha das Palmas. Corais, ouriços e estrelas-do-mar
formam o berçário marinho protegido pela nova reserva de
desenvolvimento sustentável do litoral fluminense
Foto: Áthila Bertoncini

Levantamentos técnicos revelam a riqueza dos recifes cariocas

A decisão de criar a unidade se apoia em estudos técnicos consistentes. O levantamento conduzido pelo projeto Ilhas do Rio identificou 102 espécies de peixes associadas aos recifes de coral da região, sendo três endêmicas do Brasil. Desse conjunto, 39 espécies têm interesse pesqueiro direto, como garoupas, corvinas, sargos, robalos e xaréus, espécies que sustentam a renda e a alimentação das comunidades litorâneas.

O mesmo estudo registrou 143 espécies de organismos bentônicos, animais que vivem no leito marinho, entre eles polvos e lagostas de alto valor comercial. A área também abriga espécies ameaçadas, como o coral-cérebro (Mussismilia braziliensis), a estrela-do-mar Astropecten brasiliensis, o ouriço-lilás (Lytechinus variegatus), a baleia-jubarte (Megaptera novaeangliae) e quatro espécies de tartarugas-marinhas. Aves costeiras como o trinta-réis-de-bico-vermelho (Sterna hirundinacea) completam o inventário, confirmando a função estratégica das ilhas e áreas rasas como zonas de reprodução de peixes.

Esse acervo técnico orienta a gestão futura da unidade. Segundo os pesquisadores, as ilhas, os costões rochosos e as áreas rasas funcionam como berçários naturais de espécies relevantes, inclusive as ameaçadas. Proteger esses ambientes permite conter a pesca predatória e ilegal, o descarte inadequado de resíduos e a pesca fantasma causada por equipamentos perdidos no mar, ameaças que comprometem a recuperação dos estoques pesqueiros e a produtividade econômica da região.

Ilhas e costões rochosos do litoral carioca abrigam a Reserva Marinha Urupirá, criada para proteger a biodiversidade e a pesca artesanal. Destaque para a Ilha das Palmas - Foto: Áthila Bertoncini
Ilhas e costões rochosos do litoral carioca abrigam a Reserva
Marinha Urupirá, criada para proteger a biodiversidade e a pesca
artesanal. Destaque para a Ilha das Palmas – Foto: Áthila Bertoncini
Recifes de coral da Zona Oeste carioca concentram 102 espécies de peixes, incluindo três endêmicas do Brasil e 39 de interesse pesqueiro. Destaque para a Ilha Rasa de Guaratiba
Recifes de coral da Zona Oeste carioca concentram 102 espécies
de peixes, incluindo três endêmicas do Brasil e 39 de interesse
pesqueiro. Destaque para a Ilha Rasa de Guaratiba

Economia costeira: pesca, ecoturismo e gestão compartilhada

Para o setor produtivo, a reserva desenha um modelo de economia costeira sustentável. A pesca artesanal segue autorizada e ganha previsibilidade, com territórios de uso definidos e recursos monitorados junto às comunidades. O ecoturismo e a visitação pública passam a se desenvolver de forma ordenada, com potencial de agregar valor ao pescado, criar serviços de receptivo e gerar renda complementar para as famílias que vivem do mar em Guaratiba e no Recreio.

A governança compartilhada é o diferencial institucional da proposta. Ao integrar comunidades tradicionais, poder público e organização da sociedade civil nas decisões do território, a unidade reduz conflitos de uso e aproxima a gestão científica da realidade local. Esse arranjo fortalece a fiscalização participativa e cria condições para que as metas de conservação sejam cumpridas com apoio social, sem prejuízo das atividades econômicas que historicamente dependem daquelas águas.

O desafio, agora, é operacional. Transformar o decreto em resultados exige fiscalização permanente, acompanhamento de indicadores ambientais e continuidade do monitoramento participativo dos estoques. Se bem executada, a Reserva Marinha Urupirá tende a se tornar referência nacional em conciliar proteção de ecossistemas costeiros, valorização de povos tradicionais e uso sustentável dos recursos marinhos, com benefícios que se estendem do ambiente natural ao mercado consumidor.

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